Nos embalos de 007: filmes da franquia com James Bond refletem décadas | Por Átila Moreno

Por ÁTILA MORENO
@atilaouno

Há quase seis décadas, no dia 5 de outubro, o primeiro filme da franquia com o espião mais famoso do cinema foi lançado nas telonas: “007 contra o satânico Dr. No”, dirigido por Terence Young. E é justamente nessa data que os fãs comemoram o “O Dia Mundial de James Bond”.

Mas 007 não ajudou a moldar somente os filmes de ação e a idealização da virilidade (muitas vezes encoberta de masculinidade frágil e problemática) do homem ocidental. Vale destacar que suas aberturas, ao longo de 25 filmes produzidos, são uma obra de arte à parte.

Um abre-alas audiovisual

Há uma junção de elementos visuais e sonoros que transformaram as aberturas da franquia 007 em uma marca inconfundível. Por exemplo, o cano de revólver que se transforma num círculo, com perspectiva de uma testemunha ocular, perseguindo os passos de um homem. De repente, ouve-se um  tiro e, logo após, um sangue escorre na tela. E, claro, tudo isso entoado por aquela inconfundível sonoridade composta por Monty Norman.

 “James Bond Theme” é a música que se tornou tradicional no início das aberturas e aparece no primeiro filme da franquia. Na introdução desse longa-metragem, há um interlúdio com toques de calipso, gênero afro-caribenho, acompanhado de efeitos especiais mais tímidos, em que sombras de mulheres em diversas cores se entrelaçam.

Versões que ultrapassam décadas

Cada ator que viveu 007 trouxe consigo uma mudança peculiar no personagem. O escocês Sean Connery blindou o agente com cinismo, arrogância e charme. George Lazenby, num único filme, humanizou o anti-herói.

Roger Moore debandou pela canastrice cômica, sem perder a popularidade. Timothy Dalton trouxe um 007 mais sisudo, nebuloso e sombrio. Pierce Brosnan emplacou glamour e sex appeal no personagem. Daniel Craig seguiu pela mesma vertente, porém reconfigurando um James Bond numa teia de complexidade psicológica e dramática.

Se tantas mudanças moldaram 007, o que dirá das aberturas ao longo das sequências, pois elas são espelhos do personagem, do clima do filme e do contexto da época. Ao longo do tempo, algumas introduções foram evoluindo e viraram uma mistura de videoclipe com curta-metragem, reforçando um selo de credibilidade para artistas consagrados da música.

Aberturas marcantes

Em “Moscou contra 007”, dirigido por Terence Young, em 1963, o filme se inicia com o tema de James Bond, mas traz uma cena introdutória de impacto e, só depois, entra a música instrumental, composta por Matt Monro. Outra variação que seria bastante usada ao longo da franquia. 

Por exemplo, “007 contra Goldfinger”, com direção de Guy Hamilton, de 1964, traz uma estética dourada que colore o corpo das mulheres e as armas, em clara referência ao vilão do filme, um milionário que lucra por meio do contrabando de ouro. 

A performance ficou por conta de Shirley Bassey. Sua voz melancolicamente estrondosa faz parte de mais duas aberturas: “007- Os diamantes são eternos” (Guy Hamilton, 1917) e “007 contra o Foguete da Morte” (Lewis Gilbert, 1979).

Dentre tantas outras, ao longo desses 59 anos da franquia 007, vale a pena destacar algumas devido à inovação estética e musical.

“007 só se vive duas vezes” (Lewis Gilbert, 1967) – A trama se passa no Japão e a cena inicial mostra uma morte impactante, seguida de cenas de vulcões em erupção e mulheres orientais, ao som de You Only Live Twice, de Nancy Sinatra.

Com 007 viva e deixe morrer (Guy Hamilton, 1973) – Ao som de Live and Let Die, na voz de Paul McCartney, a abertura mescla imagens de mulheres negras, fogo e caveiras, com cores azul, verde e vermelho. Uma clima mais tribal, porém reforçando estereótipos dos corpos negros como algo aterrorizante. 

007 – O espião que me amava (Lewis Gilbert, 1977) – Com Carly Simon cantando Nobody Does It Better, essa abertura traz um dos avanços estéticos mais notáveis, com mulheres fazendo acrobacias nas armas e seus corpos se entrelaçando ao de James Bond e, ao mesmo tempo, entrando em conflito com ele. 

007 na Mira dos Assassinos (John Glen, 1985) – Com Grace Jones e Christopher Walken no elenco, Roger Moore se despede do papel de 007. A abertura é uma homenagem aos exageros dos anos 80, com muito neon e cores fluorescentes, embalada pelos sintetizadores de A View To Kill, do Duran Duran.

007 contra GoldenEye (Martin Campbell, 1995) – Na voz de Tina Turner, cantando Goldeneye, a introdução é sofisticação musical inconfundível, com uma estética em tons amarelos e laranjas, referências ao título do filme. A trama traz como pano de fundo o conflito União Soviética e EUA, que marcou os anos 90.

007 – Um novo dia para morrer (Lee Tamahori, 2002) – Aqui as cenas introdutórias do filme são entrelaçadas à abertura, pois contam a encruzilhada de 007 sendo torturado numa prisão. Na voz com autotune de Madonna, em Die Another Day, o inconfundível som do violino, batizado de ritmos eletrônicos, elevou a introdução a um nível audiovisual ímpar. 

007 – Cassino Royale (Martin Campbell, 2006)

Uma introdução que abriu com chave de ouro a estreia Daniel Craig como 007, regada ao rock de Chris Cornell, com uma estética das cartas de baralho e cassino. Detalhe: sem foco nos corpos de mulheres e dando mais destaque a James Bond em luta contra os inimigos. Essa vertente segue a mesma em outras sequências como “007 – Quantum of Solace”, “007 – Operação Skyfall”, “007 contra Spectre” e no recente “007 – Novo Tempo para Morrer”. Este inclusive, pela primeira vez, traz uma mudança notável nas cenas antes do interlúdio. E, claro, não vamos dar spoilers aqui para não estragar a surpresa.

*Átila Moreno é jornalista e apaixonado por cultura, filmes, séries e teatro. É diretor do site atilaouno.com.br e cofundador do canal Mooveola. Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pelo UNI-BH, é pós-graduado em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas. Colabora com o Blog do Arcanjo desde 2012.
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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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