Crítica: O inferno mais quente – e gostoso – é o de Vânia

A convite do Blog do Arcanjo, o dramaturgo e escritor Marcos Fábio de Faria analisa o espetáculo Inferno, que faz sessões digitais neste fim de semana.

Por Marcos Fábio de Faria
Especial para o Blog do Arcanjo, de Barcelona

Inferno, a terra sempre foi e não há dúvidas sobre isso. E o de Vânia, certamente, é a fiel disputa entre Satã e Deus, quase que uma retomada da emocionante história de aposta desses dois contra o fiel Jó, mas que, graças ao todo poderoso, o vencedor é o Capeta. Não dava mais, depois de tantos séculos de espera, deixar que as estruturas moralizantes permanecessem no mando e, assim, perpetra a obediência, ao mesmo tempo em que elas levam consigo um rosário, uma bíblia e um chicote (também armas de fogo, em versões mais contemporâneas) matando, explorando e demitindo, sem direitos trabalhistas básicos, os que passam a vida limpando-lhes a sujeira.

É verdade que Vânia recria um duplo bíblico do homem de fé, o Jó, mas essa mulher que, muitas vezes, nem nome tem – as vezes batizada de menina da limpeza, coisinha ou a que atende pela sineta –, vai além e recarrega, semântica e sentimentalmente, a expressão “inferno”, que, tantas vezes, gritamos como uma forma de localizar a nossa vida. Da boca de Vânia, essa expressão ganha um peso existencial tão contundente quando a indagação de Hamlet, cuja a simplicidade da questão a confere o valor colado a existência humana do “ser ou não ser? ”. Inferno!

Independente da experiência de vida, ou mesmo de empatia, é impossível não colar – no meu caso, vivi com diversas Vânias ao meu lado, incluindo a minha mãe, ou melhor, não convivi, pois elas estavam, a maior parte do dia, limpando a sujeira alheia – essa história aos nossos desejos mais íntimos de vingança e mandar o representante bíblico da resiliência trocar seu sofrimento na terra pelos quintos dos infernos. Ou, apenas, gritar para ele: reage, inferno!

Essa personagem, criada por Rodrigo de Roure e Luiz Felipe Andrade, é uma curva na dramaturgia brasileira contemporânea e, por isso mesmo, apresenta uma profundidade pouco comum nessas décadas de liquidez, volatilidade e superficialidade que, muitas vezes, dão a tônica das diversas histórias levadas aos palcos. Em Inferno, mesmo as mais absurdas situações recebem um tratamento com a linguagem que nada, nem uma resposta atravessada, nem um fluxo de consciência, torna-se inverossímil em cena. É tudo verdade e é uma delícia. O texto contou, nessa montagem, com o olhar do dramaturgista Ronaldo Serruya.

Essa montagem impecável (ou de puro pecado) e, até mesmo, inacreditável, cuja direção-lapidação é Fábio Espírito Santo com assistência de André Luiz Dias, é uma obra de arte das grandes. Um quadro sobre o caos pintado em 2×2 metros, onde, dentro daquela parafernália, a precisão informa que tudo, exatamente tudo naquele cenário, faz sentido. Assim como o figurino, assinado por Bettine Silveira, que é afinadamente simples por captar a identidade da personagem e proposta cênica, ao mesmo tempo que nos informa: Vânia pode estar ao seu lado agora mesmo. 

Ana Paula Bouzas em Inferno – Fotos: Mauricio Maia/Divulgação

A atriz responsável por esse exorcismo ou, melhor, por essa possessão, é a inacreditável Ana Paula Bouzas – que, para mim, definitivamente, é a maior atriz brasileira viva. Ana Paula é um monstro em cena e, pela primeira vez, não tenho dúvidas, até o poderoso Lúcifer afinaria para essa mulher. Cada palavra, cada gesto, cada intenção em Inferno é, paradoxalmente, um cálculo emocional. Aquela ficção é a mais pura verdade. Vânia é realidade pura, sem nenhum titubeio. O que Ana Paula Bouzas faz em cena não é mimeses, é o mais puro real. Não, não é nada disso, o que faz em Inferno se chama arrebatamento! A consciência e atenção dessa atriz faz a gente ficar vidrado nesse quadro resultante da tal borboleta que bateu asas no Japão e que nos deixa com medo até de piscar, pois esse ato, que nos é natural, pode fazer com que a gente perca alguma coisa desse mundo-caos por ela construído.

Depois de assistir esse espetáculo, não tem como a gente ver Jó e não torcer para Satã ou, ouvir a expressão “Inferno! ” e não colocar o peso e a complexidade do “ser ou não ser? ” ou, acrescento, “mandar ou não mandar” um punhado de seguidores enviesados de Jó para os “quintos dos infernos”.

Por fim, a única coisa que falo é: não há desculpas! Você pode assistir desde o conforto do seu lar, nos dias 30 de janeiro, sábado às 19h e 31 de janeiro, domingo às 17h, comprando o ingresso no site: www.teatrogamboaonline.com.br.

Uma advertência: essa peça tem alto teor de adesão de qualquer fiel ao pecado da gula pelo teatro. Além de ser viciante, é claro. Por isso mesmo, não rola de deixar passar essa oportunidade!

*Marcos Fábio de Faria é escritor e dramaturgo, autor, entre outras peças, do premiado musical Madame Satã. Graduado e mestre em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e doutorando no Cefet-MG, com parte de sua pesquisa na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, onde vive atualmente. Foto: Annelize Tozetto.

INFERNO
Temporada digital
Quando: 30/1, sábado, às 19h; Dia 31/1, domingo, às 17h
Onde: www.teatrogamboaonline.com.br
Atuação: Ana Paula Bouzas
Texto: Rodrigo de Roure e Luiz Felipe Andrade
Direção e ambientação cênica: Fábio Espírito Santo
Diretor Assistente: André Luiz Dias
Dramaturgista: Ronaldo Serruya
Figurino: Bettine Silveira
Fotografia: Mauricio Maia
Programação visual: Alessandro Romio
Realização: Meimundo Inventações Compartilhadas

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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