Naruna Costa é Angela Davis na Globo após viver Elza Soares no teatro

Por Runan Braz, jornalista
Especial para o Blog do Arcanjo


Naruna Costa está virando especialista em interpretar mulheres negras poderosas. Não à toa, vem se destacando cada vez mais entre as atrizes de sua geração. Após ser a cantora carioca Elza Soares no musical Garrincha, dirigido pelo norte-americano Bob Wilson, em São Paulo, em 2016; agora, a paulista de Taboão da Serra interpreta a militante, filósofa e escritora estadunidense Angela Davis, sob direção de Lázaro Ramos e texto e idealização de Manuela Dias, na TV. Na noite deste 20 de novembro, a Globo promete muita Consciência Negra a partir das 23h, com a série especial Falas Negras. O programa apresenta ao grande público 22 personalidades negras do Brasil e do mundo, por meio de seus discursos potentes.

Naruna é um dos destaques do elenco, no papel de Angela Davis, a jovem líder do partido Panteras Negras e símbolo de luta da militância afroamericana nos EUA nos anos 1970, conservando sua importância nesta luta até os dias atuais. Em entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo, provocada por nossa reportagem, Naruna Costa constrói uma ponte entre a Elza que viveu em 2016 e a Angela que interpreta em 2020.

Naruna Costa é Angela Davis no especial Falas Negras na Globo nesta sexta, 20 de novembro, às 23h – Foto: Vitor Pollak/Globo/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

“A Elza era uma figura de resistência e de combate ao racismo pela música e arte. Já Angela foi contundente em lutar contra um racismo institucional explícito e foi pragmática em participar dos movimentos do Partido Comunista e de pensar a negritude dentro dessa ideologia”, analisa a artista.

“Angela Davis representa muitas mulheres da minha geração, da geração anterior, da juventude negra. É uma grande representante do feminismo negro no mundo, que realmente tem uma história de sobrevivência, de resistência e de formação que tem muito a acrescentar à luta contra o racismo e especialmente ao pensamento sobre o feminismo negro. Então, é uma responsabilidade interpretá-la”, define.

Para isso, Naruna estudou gestos e posturas de Angela Davis na juventude, período da personagem que é retratado pelo especial Falas Negras. “A coisa mais maravilhosa é poder representar minimamente alguém que me representa tanto hoje no mundo, que diz tanto a meu respeito, mesmo sendo uma mulher norte-americana, mesmo sendo de uma geração distante da minha, mas que dá conta de questões que são muito atuais no Brasil”, pontua.

Tema de abertura

Além de atuar no especial da Globo, Naruna Costa integra o grupo teatral Clariô e a banda Clarianas. A partir desta vivência musical, compôs e cantou a trilha sonora de abertura de Falas Negras. Trata-se da canção Terra Berra, uma produção conjunta com o Höröyá, grupo instrumental paulistano.

Porta-bandeira

Mais uma vez, Naruna Costa torna-se porta-bandeira da representação da mulher negra por meio de uma personagem poderosa e influente, o que destroça estereótipos com os quais essa população costuma ser retratada nas artes.

No musical Garrincha, a atriz conquistou o público como Elza Soares, sob direção de Roberto Wilson, um dos mais importantes diretores de teatro do mundo, que veio ao Brasil para comandar a superprodução do Sesc São Paulo, que esgotou ingressos no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, em 2016.

Naruna Costa como Elza Soares em Garrincha, de Bob Wilson, em 2016 – Foto: Bob Sousa – Blog do @miguel.arcanjo

Elza Soares e Angela Davis são ícones de uma geração de mulheres negras que venceram enormes desafios e opressões sociais. Apesar das diferenças históricas, elas possuem contextos sociais de gênero e raça semelhantes. Naruna traça paralelos e recorda que Angela Davis enfrentou o racismo institucional explícito na sociedade estadunidense. Já Elza Soares precisou lidar com o contexto do racismo brasileiro velado. Mas que ambas, cada uma à sua maneira, combateram o racismo em suas trajetórias.

“Angela foi perseguida pela polícia, foi uma das 10 mais procuradas do FBI, a relação dela com a estrutura racista foi de uma forma bastante direta e política. Isso traz uma carcaça diferente da experiência da Elza Soares. A Elza utilizou a arte como uma forma de sobrevivência e enfrentamento ao racismo, fez de sua arte alimento para os filhos e sua forma de se colocar no mundo politicamente”, reforça.

Naruna Costa ganha o beijo de Elza Soares no camarim de Garrincha, de Bob Wilson – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Mulheres negras sobreviventes

Para Naruna, o que aproxima Angela de Elza é o fato de que elas poderiam ter morrido jovens, por sofrerem violência institucional e racista desde muito cedo e em um contexto social bem mais opressor do que o dos dias atuais. E, hoje, ambas continuam a ser exemplos de luta para outras gerações.

“As duas estão vivas. Elza e Angela são duas mulheres que conseguem até os dias de hoje dar conta de dizer a importância da mulher negra, de se debater o racismo, de um pensamento antirracista no Brasil e no mundo. Então, tem mais coisas que as aproximam do que as distanciam, apesar de cada luta dizer respeito à realidade de seu respectivo país”, analisa.

Naruna reflete sobre a responsabilidade de interpretar Angela Davis em um veículo de tamanho alcance popular, como é a TV Globo.

“Hoje, a questão da representatividade é uma pauta primordial em todas as questões. A gente pode disputar espaços, territórios, espaços políticos, espaços de poder, espaços de visibilidade. Tudo isso, no fim da linha, garante mais tempo de vida e mais dignidade para a população negra”, aponta.

“Um trabalho como Falas Negras, que traz histórias que nos foram negadas em nosso processo educacional, como a de Angela Davis, Martin Luther King, Lélia Gonzalez, Malcon X e a da própria Marielle Franco [vivida por Taís Araújo], histórias silenciadas em nosso cotidiano. E ter isso dentro de uma produção da Globo, que tem uma visibilidade imensa, com elenco 100% preto, em 2020, quando o conservadorismo está em alta e em disputa, é potente e é urgente”, opina.

Angela Davis, militante negra que fez história nos EUA – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Naruna faz questão de parabenizar o diretor, Lázaro Ramos, pelo clima acolhedor durante as filmagens de Falas Negras. O programa é um marco na representatividade negra na Globo e na televisão brasileira. Sobretudo, por trazer o negro dono de seu próprio discurso.

“Foi um ambiente muito acolhedor, e o modo de condução do Lázaro foi generoso, todo um cuidado e carinho. Houve um material histórico levantado, para criarmos a Angela. No set, houve um trabalho preciso e eficiente, que traz uma proposta diferente do que vemos na TV. Falas Negras tem uma relevância imensa e é um passo histórico, na minha opinião, na luta antirracista no Brasil”, pontua a atriz.

Naruna Costa em cena do filme Marighella, de Wagner Moura: estreia em 2021 – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Marighella e 1ª diretora negra a ganhar Prêmio APCA

Em 2021, Naruna estará nos cinemas no filme Marighella, primeiro longa dirigido por Wagner Moura e que conta a historia do escritor, político e guerrilheiro baiano Carlos Marighella (1911-1969). Protagonizado por Seu Jorge, o filme mostra a luta revolucionaria do militante durante a ditadura civil-militar, que o assassinou a tiros. A personagem de Naruna é casada com um dos guerrilheiros, mas sem vínculos com a militância. 

“Ali dentro do filme é como se fosse uma história à parte, mostra como os revolucionários lidavam com essa questão de ter de abandonar ou não a família, os filhos, a esposa. Traz a solidão, a dor e o medo da família de ser destruída pelo Estado e reflete, de certa forma, o que muitas famílias negras vivem hoje com a relação à Polícia Militar com relação à população negra e os jovens negros; então, funciona também como uma metáfora”, compara.

Para Naruna, é primordial que as pessoas conheçam a real história de Marighella: “O filme mostra uma figura revolucionária que lutou contra a ditadura, foi um deputado, uma figura negra, um professor muito respeitado, e conta um pouco essa parte da história do Brasil que é apagada no contexto da educação. É um filme que precisa estrear no Brasil logo, porque essa discussão sobre a democracia está muito forte e é importante lembrar e discutir o contexto de opressão durante a ditadura e as formas de luta. É um tema bastante urgente e que precisa vir à tona. O filme está bonito e bem dirigido”, elogia.     

Falando em história, Naruna Costa já cravou seu nome no teatro brasileiro: ela foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio APCA de Melhor Direção em Teatro, em 2018, por seu trabalho na peça Buraquinhos Ou O Vento É Inimigo do Picumã. A votação contou com a presença do crítico e autor deste Blog do Arcanjo, na época vice-presidente da Associação Paulista de Críticos de Artes. No ano seguinte, 2019, foi a vez de Jé Oliveira ser o primeiro diretor negro premiado, pelo musical Gota D’Água {Preta}. Naruna Costa e Jé Oliveira são os dois únicos diretores negros premiados em Teatro pela APCA desde 1956. Realmente, um especial como Falas Negras é extremamente necessário.

TV: Especial – Falas Negras
Sexta, 20 de novembro, às 20h, na Globo

Runan Braz é jornalista, roteirista e produtor de conteúdo digital formado pela Faculdade Cásper Líbero. Paulistano, já passou pela assessoria do Metrô de São Paulo, Grupo Gestão RH, UZMK Conteúdo, Alma Preta e Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Escreve reportagens especiais a convite do Blog do Arcanjo. @runan_braz

Editado por Miguel Arcanjo Prado.

Naruna Costa é Angela Davis no especial Falas Negras na Globo nesta sexta, 20 de novembro, às 23h – Foto: Vitor Pollak/Globo/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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1 Resultado

  1. 21/11/2020

    […] O desempenho excepcional de Tatiana Tibúrico e do elenco magistral do especial Falas Negras é uma resposta inquestionável a executivos, dramaturgos e diretores de TV que insistem em repetir a frase racista de que não haveria um grande número de negros talentosos para preencher os papéis da teledramaturgia, como declarou certa vez uma novelista e mulher do dono de uma importante emissora paulista. Integram o afinado elenco do especial Falas Negras os atores Fabricio Boliveira, Babu Santana, Guilherme Silva, Ivy Souza, Naruna Costa, Taís Araujo, Heloisa Jorge, Barbara Reis, Mariana Nunes, Izak Dahora, Silvio Guindane, Olivia Araujo, Reinaldo Junior, Aline Deluna, Flávio Bauraqui, Bukassa Kabengele, Angelo Flavio, Samuel Melo, Aílton Graça, Tulanih Pereira, Valdineia Soriano e Tatiana Tibúrcio. Todos irretocáveis.Naruna Costa fala sobre ser Angela Davis ao Blog do Arcanjo […]

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