Vanusa, nos perdoe, nós não te merecemos

Vanusa – Foto: Bruno Poletti

Por Miguel Arcanjo Prado

Vanusa, nos perdoe. Todos nós fomos muito maldosos contigo, rimos quando você esqueceu a letra do Hino Nacional e de outras canções emblemáticas de seu repertório. Na nossa inconsequência imatura, sequer pensamos em sua doença, o terrível Alzheimer.

Por um lapso de caráter e respeito ao outro, transformamos sua inquestionável carreira artística em chacota. Não tivemos respeito, nem humanidade. Fomos pequenos diante de sua grandeza. Sua morte neste domingo de sol nos faz chorar sua perda e sentir um terrível remorso que só o pedido de perdão verdadeiro é capaz de atenuar.

O Brasil, esse país tão ingrato com seus grandes artistas e que prefere aplaudir a novidade do momento enquanto esquece sem piedade quem construiu toda uma trajetória, não te mereceu. Afinal, Vanusa, você nos ensinou, mesmo num buraco mais profundo, a celebrar com otimismo as manhãs de primavera e estará conosco sempre quando ela chegar, com sua canção eterna Manhãs de Setembro,

“Fui eu que se fechou no muro e se guardou lá fora
Fui eu que num esforço se guardou na indiferença
Fui eu que em numa tarde se fez tarde de tristeza
Fui eu que conseguiu ficar e ir embora

E fui esquecida
Fui eu
Fui eu que em noites frias se sentia bem
E na solidão sem ter ninguém fui eu
Fui eu que na primavera só não viu as flores
E o sol
Nas manhãs de setembro

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar o vizinho a cantar
Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar o vizinho a cantar
Nas manhãs de setembro
Nas manhãs de setembro
Nas manhãs de setembro
Nas manhãs…”

Não sei se você sabe, Vanusa, mas sua música Manhãs de Setembro, que inspirou o Festival Satyrianas, era um dos momentos mais poéticos e tocantes de Mississipi, de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, da Cia. de Teatro Os Satyros. A peça fez um sucesso danado no ano passado, apresentada no Festival de Teatro de Curitiba, no Teatro Anchieta e até mesmo no luxuoso palco do Theatro Municipal de São Paulo. E toda plateia cantou junto, lembrando de você. Eu me recordo que, na sessão que vi, chorei.

Só nos resta enviar nosso abraço e sentimentos profundos a seus filhos, Amanda Marcos, Aretha Marcos e Rafael Vannucci, bem como a todos os seus familiares e amigos. Nos conforta saber que em seu último dia de vida você estava bem, cantou, brincou, como contou sua filha Amanda Marcos. Sua outra filha, Aretha Marcos, aquela que alegrou tanto a minha infância, nos contou que você partiu no mesmo dia que seu amado Antonio Marcos faria 75 anos. Ele, certamente, veio lhe buscar deste mundo cheio de maldade e ilusão, para serem felizes para sempre aí no céu.

E, para terminar, Vanusa, lembro aquela música que cantava sua pequena Aretha, no LP Pirlimpimpim – Sítio do Picapau Amarelo, a valsa Real Ilusão, composta por Dalton Nóbrega:

“Aaaaah, que pena
Tá na hora
De ir embora
Não queria, não queria ainda
Essa nossa estória
É tão linda
Fico triste de pensar que tudo pode terminar

Minha vida
Tem dois mundos
O de fora
É chamado de realidade
E o outro está no peito
Bem guardado
E se chama… Ilusão

Emília, para o tempo
Porque não dá!
E tento até ditar
e misturar o mundo natural e o mundo da magia
Seria tão melhor
Se a vida fosse assim
Pirlimpimpim
E tudo que é real virava fantasia”


Só nos resta dizer: Vanusa, perdão. Descanse em paz.

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Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte em 3 de dezembro de 1981, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV, R7 e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019, criou o Prêmio Arcanjo de Cultura, no Theatro Municipal de SP. Em 2020, tornou-se Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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1 Resultado

  1. Rosana disse:

    Sim. Temos um “mea culpa”, e uma revisão a fazer: tratar a doenca como parte da vida! Sem. Ela esqueceu a letra mas ainda assim deu show de improviso e interpretação!!

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