Crítica: Cléo De Páris e Fábio Penna criam poesia no caos em Desamparos

Por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪

Criar poesia em um cenário caótico de medo é capacidade para poucos. Pois a atriz Cléo De Páris e o diretor Fábio Penna conseguem isso, semanalmente, por 20 minutos, às terças, 22h, no espetáculo digital Desamparos, feito em formato live no Instagram da atriz (@cleodeparis) desde o começo desta pandemia.

Cléo De Páris e Fábio Penna integram o primeiro grupo de artistas que, diante da impossibilidade do encontro presencial, escolheu agir, enfrentando a situação com coragem e criatividade. Assim como Ivam Cabral, Rodolfo García Vázquez e os artistas da Cia. de Teatro Os Satyros, em São Paulo, da qual fazem parte, e Ricardo Cabral e Natasha Corbelino, do Teatro Caminho, no Rio, eles criam, dia a dia, direto de Barão de Cotegipe, no Rio Grande do Sul, um novo teatro, em rede e feito de telepresença: o teatro digital.

Em Desamparos, espetáculo performativo que jamais é o mesmo, um dos grandes destaques, além, obviamente, da descoberta estética diária, é a poesia da dramaturgia composta de uma seleção apurada das crônicas escritas por Cléo De Páris nos últimos anos.

Cronista de mão cheia e dona de texto que fusiona observações pertinentes com sentimentos profundos sobre a realidade que a cerca, Cléo cria uma dramaturgia que reflete o olhar delicado da atriz gaúcha para a vida feroz da metrópole chamada São Paulo.

Cléo luta, cotidianamente, para não permitir que a maldade urbana golpeie sua delicadeza interiorana, frágil como uma flor do campo. Não à toa, diz que faz Desamparos direto de sua Macondo, em referência à cidade idílica criada por Gabriel García Márquez no romance Cem Anos de Solidão.

Capaz de enxergar beleza poética nos cantos anônimos e escondidos da cidade, Cléo representa, inevitavelmente, a própria potência utópica do movimento teatral que revigorou a praça Roosevelt, e do qual é um dos nomes mais emblemáticos, e que até uma escola de artes criou, a SP Escola de Teatro: sonho de sua turma tornado realidade exatos dez anos atrás.

Fábio Penna, na direção, segue sabiamente os caminhos da sensibilidade proposta pelo texto de Cléo, a quem conhece e ama de forma profunda. É impressionante a capacidade da dupla em criar poesia com tão pouco. Radicados em um casarão na terra natal da atriz, abusam da teatralidade em Desamparos.

Com olhar apurado para a cena, Penna faz uma câmera na mão que mergulha nas propostas sensitivas e psicológicas da personagem, levando o espectador digital sempre a uma nova viagem sensorial.

E os dois apostam em efeitos simples para criar imagens complexas em cena. Este crítico ficou impressionado, por exemplo, com o efeito que conseguiram com um vestido que pairou sobre a atriz girando no ventilador de teto, despertando múltiplos significados. Ou com talco jogado contra a luz de um farol de carro.

Cléo e Penna atestam que a criatividade estética não só é possível como enriquece e deixa mais atrativo visualmente o teatro digital, impulsionando mergulho maior dos espectadores.

Porém, na visão deste crítico, o mais importante em Desamparos é a verdade que este trabalho contém: um desejo genuíno que vem do artista que jamais desiste da comunicação com o público, assumindo sem preconceitos o desafio de uma nova plataforma chamada teatro digital sem jamais abrir mão da poesia. Assim, Cléo De Páris e Fábio Penna escrevem seus nomes na história do teatro brasileiro em um dos mais delicados e desafiadores períodos vividos pela humanidade e, sobretudo, pelos artistas. E o fazem de maneira inesquecível.

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