Cancelada? Glória Maria é incancelável!

Por Miguel Arcanjo Prado

Uma das mais respeitadas jornalistas da história do Brasil, Glória Maria está no meio de uma grande polêmica nas redes por ter criticado o “politicamente correto” em entrevista para a jornalista Joyce Pascowitch em uma live na última sexta. “Acho um saco. Hoje tudo é racismo, preconceito”, falou.

Após muitos ataques nas redes por conta das declarações, Glória Maria se pronunciou no Instagram com um vídeo dela na comissão de frente da Mangueira, no Carnaval Carioca, ao lado de outros negros homenageados pelo enredo da escola, entre eles o ator Grande Otelo.

“32 anos atrás. Orgulho da minha vida. Da minha história!! Nunca serei politicamente correta! Acho um saco! Sou livre. Rebelde! Ninguém vai me dizer como tenho que viver!”, declarou a jornalista da Globo.

Por tudo o que já viveu e representa na história do jornalismo e da televisão, Glória Maria é incancelável. Contudo, ela também não está isenta de dizer coisas com as quais alguns de nós não concordamos. Afinal, gente que pensa diferente e pode expressar sua opinião livre, desde que não cometa crimes, faz parte da democracia. E, quando o assunto é Glória Maria, não se pode simplesmente ignorar toda uma trajetória de representatividade.

Antes de qualquer julgamento precipitado e típico dessa era de “cancelamento”, o Blog do Arcanjo lembra que Glória Maria é nome pioneiro e emblemático na representatividade negra na televisão e foi a primeira pessoa no país a colocar em prática a lei contra o racismo.

Glória Maria foi durante muitas décadas a principal referência de autoestima para diferentes gerações de negros e negras neste país, inclusive este jornalista que assina este texto.

Foi com muito orgulho que tive Glória Maria como minha madrinha na turma de 2007 do Curso Abril de Jornalismo, na Editora Abril. Desde então, ao longo de toda minha trajetória, Glória sempre foi muito generosa comigo. E sempre demonstrou orgulho de sua negritude.

Jamais me esqueço de quando precisei contar a ela, por telefone, da morte de Michael Jackson, a quem ela foi a única jornalista brasileira a entrevistar. Foi o fato de ser negra e tão respeitada pela população que a aproximou do Rei do Pop em 1996.

Michael ficou impressionado com o carinho dos baianos no Pelourinho com aquela jornalista negra e perguntou ao cineasta Spike Lee, que dirigia o vídeo, quem era aquela repórter que era aclamada pelo povo e insistia em lhe entrevistar.

Definiram Glória Maria para Michael Jackson como a Oprah Winfrey brasileira. Isso fez com que o cantor marcasse uma exclusiva durante a locação seguinte de seu clipe They Don’t Care About Us, no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Foi a única entrevista concedida por Michael Jackson em toda sua vida a um profissional da imprensa brasileira.

Lembro até hoje do depoimento emocionado que Glória me deu naquela tarde da morte de Michael Jackson, na época era repórter do jornal Agora São Paulo, do Grupo Folha. Recordo dela me contando que na entrevista comprovou que Michael Jackson sofria mesmo de vitiligo, ao ver com os próprios olhos as manchas na pele do astro.

Para lembrar um pouco mais de meus encontros com Glória Maria e seu pensamento, sempre franco e livre, compartilho a seguir uma entrevista que ela me concedeu em outubro de 2009, 11 anos atrás, quando era repórter de Famosos e TV do portal R7.

“Nunca passou por minha cabeça adotar criança branca”, diz Glória Maria

“Não é por discriminação. É porque negras precisam ser adotadas”, afirma jornalista

Por Miguel Arcanjo Prado


A jornalista Glória Maria, que renovou com a Globo até 2016, disse que pretende preservar ao máximo a imagem das filhas, Laura e Maria, já que o processo de adoção das meninas ainda não está concluído. A conversa exclusiva foi na festa de 9 anos da revista Quem, na noite desta terça-feira (6/10/2009), em São Paulo.

“É claro que elas não vão ficar a vida inteira escondidas, mas só vou chegar no Rio no fim do ano. Estou ainda terminando o processo de adoção. Acho que quantos menos expô-las, melhor. É por elas, não é por mim. Por mim, queria mostrar, porque eu sou uma mãe coruja. Elas são lindas. Mas por enquanto não dá”, disse.

A jornalista contou que faz questão de acompanhar todos os passos das filhas e que vai junto “para a natação, para a aula de música”. Glória ainda explicou por que fez questão de adotar duas meninas negras.

“Você acha que eu iria adotar duas branquinhas? Primeiro, você sabe, eu fiz trabalho com crianças abandonadas. E, lá nos abrigos, você descobre que a maioria das crianças que precisam é negra. Porque todo mundo só quer adotar menina branca até um ano. É aquele negócio: eu não escolhi, elas me escolheram. Nunca iria passar pela minha cabeça adotar criança branca. Não é por discriminação. É porque, primeiro, sou negra. Segundo, porque as negras é que precisam ser adotadas. Aí eu iria adotar o quê?”, pontuou.

Glória afirmou que, com a maternidade, está cada vez menos vaidosa.

“Eu não tenho preocupação com isso Para você ter uma ideia, quando eu vim para cá hoje eu esqueci maquiagem. Se não tivesse uma pessoa para me maquiar teria vindo de cara lavada. Eu não tenho essas preocupações. Nunca botei botox, nunca fiz plástica”, revelou.

Glória Maria contou que acaba de renovar seu contrato com a Globo até 2016. O contrato venceria em 2012 e foi renovado de forma antecipada. Ela disse que até pretendia mudar de emissora, mas o peso de 35 anos de Globo falou mais alto.

“Eu até tentei mudar [de emissora], mas é muito tempo. São 35 anos, uma vida. Quando você quer muito dinheiro e poder, tudo bem. Mas eu tenho uma relação profunda de profissionalismo e de amizade com a Globo. Não tem como sair, não dá. Para mim, é muito difícil ir para outro lugar. Eu até queria, para me libertar, porque a vida inteira eu trabalhei na Globo, mas até agora eu não consegui. Eu tento, mas eu não consigo. O contrato ia terminar em 2012, aí eles pediram para antecipar a renovação. Eu acabei renovando até 2016”, avisou.

Glória, que volta a trabalhar em janeiro de 2010, afirmou que, por enquanto, só se dedica às duas filhas que adotou em Salvador, Laura e Maria.

“Se eu pudesse, negociava mais uma licença maternidade. Mas tenho de voltar a trabalhar”, explicou.

A jornalista afirmou que não quer mais trabalhar aos fins de semana.

“Sábado e domingo nunca mais! Sábado e domingo agora são para as minhas filhas. Eu trabalhei dez anos direto só tendo fins de semana nas férias. Vou cortar as viagens em 80%. Fiz quase tudo que queria. Agora, quero viajar o mínimo possível e estou negociando isso. Quero curtir minhas filhas. Tudo é bárbaro na maternidade”, confidenciou.

Questionada se pretende ter um programa só seu, respondeu:

“Todo mundo quer que eu tenha um programa, mas não pensei nisso ainda. Estou pensando nas meninas. Acho que até dezembro, quem sabe, a gente chega a essa conclusão”, falou.

Para finalizar, perguntamos se esse programa poderia ser de entretenimento. Glória respondeu de forma firme.

“Não largo o jornalismo nunca. Eu vou morrer jornalista”, concluiu.

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