Morre Sergio Ricardo, que foi muito mais que um violão quebrado

Por Miguel Arcanjo Prado

Ele foi muito mais que um violão quebrado. Compositor de contribuição fundamental à música popular brasileira e também grande cineasta, Sergio Ricardo morreu nesta quinta (23) aos 88 anos no Rio de Janeiro. A família não divulgou a causa da morte.

O artista marcou a história cultural brasileira com músicas como Esse Mundo É Meu e também pela polêmica quando quebrou um violão ao receber vaias no Festival da MPB da Record em 1967 durante a execução da canção Beto Bom de Bola, deixando o palco ao vivo.

Sergio Ricardo ainda cantou a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, filme icônico de Glauber Rocha e clássico do cinema novo. Glauber foi parceiro de Ricardo nas composições. Ricardo assinou ainda a trilha de outros importantes filmes de Glauber: Terra em Transe, de 1967, e O Dragão da Maldade Contra o Sangue Guerreiro, de 1969.

Na década de 1990, lançou a autobiografia Quem Quebrou Meu Violão, ironizando o episódio que marcou sua vida.

Ele ainda trabalhou como cineasta de prestígio internacional e, infelizmente, pouco reconhecido em seu próprio país. Assinava no começo João Lufti, seu nome de batismo.

Ao todo, fez seis filmes, incluindo dois curtas, a maioria com participação importante de seu irmão Dib Lufti, um dos mais famosos diretores de fotografia do Brasil.

Seu curta Menino da Calca Branca (1962), montado por Nelson Pereira dos Santos, foi lançado no Festival Karlovy Vary, na então Tchecoslováquia, e recebeu prêmio no Festival de São Francisco, nos EUA.

O primeiro longa, Esse Mundo É Meu, de 1964, foi um drama social estrelado por Antonio Pitanga e abordava a dureza da vida no morro. A música-título virou sucesso na voz de Elis Regina.

Ele ainda fez Juliana do Amor Perdido, de 1970, que criticava a religião como elemento alienante do povo e foi exibido no Festival de Berlim. Está ainda na sua filmografia o psicodélico A Noite do Espantalho, de 1974, sobre os desmandos de um coronel e seu dragão, exibido em Cannes na França e no Festival de Nova York e com Alceu Valença e Geraldo Azevedo na equipe.

Seu último filme foi Bandeira de Retalhos, de 2018, com Babu Santana e Antonio Pitanga, exibido este ano na Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro, com a síntese de sua obra repleta de denúncia social, assim como sua música. Em maio, o filme foi lançado no YouTube por iniciativa do diretor em meio à pandemia.

Como ator, Sergio Ricardo protagonizou a minissérie Parabéns pra Você, na Globo, em 1983.

Sergio Ricardo nos ensinou que “acorrentado ninguém pode amar”. E ele jamais aceitou amarras quaisquer que fossem. Fará uma baita falta.

Lembre outras mortes em 2020

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