Cléo De Páris se isola em sua Macondo e cria live na quarentena com Fábio Penna

A atriz Cléo De Páris – Foto: Bob Sousa – Blog @miguel.arcanjo

Logo que a pandemia do coronavírus isolou a todos, a atriz Cléo De Páris tomou uma decisão: embarcou em um avião rumo ao lugar que chama de sua Macondo, em referência à cidadezinha criada por Gabriel García Márquez no livro clássico Cem Anos de Solidão.

Mas, solidão, que nada.

Cléo foi para junto de sua família, na segurança da pequenina Barão de Cotegipe, sua cidade natal de 7 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul e que ainda não tem casos da covid-19. Aproveitou que já tinha agendado previamente um tratamento dentário por lá com seu dentista de sempre e foi.

Entretanto, não partiu só.

Cléo levou consigo seu amigo e ex-marido, o ator Fábio Penna, que já lhe fazia companhia no começo da quarentena, em seu apartamento na rua Augusta, no centro paulistano.

Em terras gaúchas, ambos criaram a live Desamparos, feita por Cléo e dirigida por Penna. Toda semana, são 20 minutos, sempre a partir das 22h de terças-feiras, no Instagram da atriz, onde tem atraído centenas de internautas a cada sessão.

“Eu trouxe, meio por acaso, uma pasta com alguns dos meus Desamparos impressos. Na verdade, os poucos textos que tinha salvo no e-mail ou porque mandei pra alguém que havia pedido [o blog com esses textos que existia no UOL foi deletado sem aviso prévio à atriz, o que a deixou arrasada, com razão]”, conta Cléo, em entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo.

“Daí esses textos fizeram tanto sentido nesse momento e aqui perto da minha infância, na minha Macondo”, analisa a vencedora do Kikito de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado em 1998 com o curta A Vida do Outro.

No Baixo Augusta com o ex

Estar com Penna neste momento foi um acaso da vida. Poucos dias antes de estourar a pandemia, o ex-marido e atual amigo pediu para passar uns dias no apartamento de Cléo, pois ele estava no elenco de um longa com muitas noturnas nas proximidades do prédio da atriz e musa eterna da Cia. de Teatro Os Satyros.

“Foi um prazer recebê-lo! Fomos casados durante sete anos, estamos separados já há uns bons dez anos e temos uma amizade muito grande”, explica Cléo.

No meio desse reencontro, “estourou a pandemia do Coronovírus no Brasil”. Isso fez com que a permanência da visita se tornasse fixa, já que Penna não pôde “retornar para sua casa, pois seus pais são grupo de risco”, ela lembra, antes de completar: “Ficamos confinados no Baixo Augusta”.

Com o tempo, “tudo foi ficando triste por lá”, com comércio fechado, ruas desertas e muita escuridão, rememora a atriz. Foi quando o telefone tocou com uma mensagem de esperança trazida do Sul: “Meu irmão ligou sugerindo que viéssemos para Barão de Cotegipe, estava até vendo as passagens, por conta do meu tratamento da dor de dente que vinha sentindo e já iria para lá ver meu dentista”.

Casarão inspirador

A dupla não pensou duas vezes. Diante de uma São Paulo sem luz, boemia ou amigos por perto, embarcaram rumo ao Rio Grande do Sul, onde tiveram a precaução de fazer quarentena por 14 dias em “um casarão muito inspirador”.

Foi neste período que a ideia da live surgiu. “É como se fosse uma estreia a cada semana, uma sensação muito forte. Ao contrário do que alguns pensam, a presença do público, mesmo virtualmente, é muito intensa e nos parece que eles também sentem assim, a julgar pelas inúmeras manifestações de afeto, surpresa e gratidão, que recebemos”, revela Cléo, que segue dando expediente online na SP Escola de Teatro, da qual é uma das criadoras.

Ela lembra o processo criativo da direção de arte. “Iniciamos durante nossa quarentena no casarão e, por essa razão, nos servimos dos recursos que estavam ao nosso alcance, como o sino da igreja, que se ouve da cidade inteira, velas, abajour, o vasto jardim. Isso nos trouxe aquele clima ritualístico e potente que todo bom teatro deve ter, então optamos por manter a live nesse formato e com essa direção de arte”, conta.

Sobre o diretor, amigo e ex-marido, ela é só elogios. “O [Fábio] Penna é diretor de teatro há muitos anos e tem feito bastante cinema com uma galera bem interessante, o Dida Andrade, o Andradina Azevedo, o Gabriel Alvim… Então, ele tem uma noção muito boa de câmera. É um trabalho feito mesmo em parceria, pensamos juntos as cenas, discutimos ideias e criamos um roteiro básico onde eu posso improvisar, mas ele assume também a direção de fotografia, que é fundamental nesse trabalho”, define, dizendo que a câmera faz as vezes de espectador e também contracena com ela.

Lastro de amor em tempo nefasto

E o que Cléo De Páris acha que os artistas podem dar às pessoas neste momento tão delicado da humanidade?

Ela pensa calmamente e responde numa tacada só: “Arte! Estamos em um momento de tanta fragilidade, tanta incerteza, tanto medo, dor e solidão, que se não tivermos um respiro, algo que suspenda essa realidade por uns minutos ou horas, não teremos onde achar o sentido de estar aqui. Recebemos, todas as semanas, muitas mensagens de agradecimento, de esperança e pedidos para que continuemos. Tenho certeza que muitos outros artistas que realizam lives nesse momento recebem também. Somos um pouco da estrutura desse tempo nefasto, um lastro de amor, talvez. Espero”.

E o que ela deseja ao mundo? Mais uma vez, pensa e responde, de forma mais sucinta: “Mais empatia, mais altruísmo, menos disputas políticas e todo amor que for possível, sempre. Ah, e flores…”, conclui Cléo De Páris, a atriz.

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