Sérgio Sá Leitão: “Que exemplo de São Paulo na cultura civilize o Brasil”

Sérgio Sá Leitão, secretário da Cultura e Economia Criativa de São Paulo, em retrato de Bob Sousa; investimento de R$ 1,2 bilhão no setor e desejo de que Regina Duarte se dê bem como secretária da Cultura de Bolsonaro – Foto @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

A atriz Fernanda Montenegro definiu recentemente São Paulo como um verdadeiro paraíso para os artistas do país, sobretudo com o setor cultural federal ainda incerto e com investimentos paralisados — a atriz Regina Duarte toma posse nesta quarta (4) como nova Secretária de Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro com a difícil missão de apaziguar os confrontos e destravar a área.

Ex-ministro da Cultura e atual secretário da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão declara, nesta entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo, votos de sucesso à atriz na empreitada. “Se há uma pessoa no Brasil que pode convencer o presidente Bolsonaro da importância da arte, da cultura e da economia criativa para nosso desenvolvimento humano, econômico e social é a Regina Duarte”. E diz mais: “Ela pode mostrar ao presidente, coisas que seus assessores ficam com receito ou medo, que a liberdade de expressão e de criação artística intelectual está consagrada na Constituição Brasileira, não é algo que a gente tenha de discutir. É algo que é”.

No comando da pasta da Cultura e Economia Criativa paulista desde o início da gestão do governador João Doria (PSDB), Sá Leitão comemora investimento no setor de R$ 1,2 bilhão, sempre na defesa da ideia de que a cultura e a economia criativa são cruciais ao desenvolvimento do país, enxergando nos artistas trabalhadores que ajudam a melhorar a sociedade.

Ele lembra os importantes números do setor: só no Brasil, a cultura gera 1 milhão de empregos, movimenta 239 mil empresas e instituições, além de gerar R$ 10,5 bilhões em impostos e representar 2,64% do PIB. Em São Paulo, onde está 47% do PIB criativo brasileiro, a cultura e a economia criativa representam 3,9% do PIB estadual, gerando 330 mil empregos, abastecendo 100 mil empresas e instituições e representando.

Sá Leitão afirma querer nos próximos anos de gestão ampliar os recursos no setor bem como recuperar espaços caros à cultura paulista, como o Museu da Língua Portuguesa, que será reinaugurado em junho após arder em chamas em 2015, e o Museu do Ipiranga, marco histórico nacional que reabre em 2022 para o Bicentenário da Independência do Brasil.

Sá Leitão, que foi ministro da Cultura no governo de Michel Temer (PMDB), comemora o aumento em R$ 60 milhões no orçamento para sua pasta em 2020, totalizando R$ 860 milhões, lembrando que a quantia é “o montante maior em valor absoluto do que os de 2016, 2017, 2018 e 2019; e superior aos de 2018 e 2019 em termos proporcionais”.

Outro marco de seu primeiro ano à frente da pasta é a criação do MIS Experience, com seu conceito de exposição imersiva, projeto vencedor na categoria Artes Visuais na primeira edição do Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de São Paulo, em dezembro último. A exposição sobre Leonardo da Vinci já teve público superior a 400 mil pessoas.

Para manter a cultura viva no Estado em tempos de fortes turbulências no setor, em 2019 foram investidos R$ 154,2 milhões em 1.174 projetos financiados em todas as regiões do estado pelo Proac. Diante do cinema travado em nível nacional, São Paulo promete ainda estimular as produções cinematográficas com R$ 200 milhões.

Na entrevista a seguir, Sérgio Sá Leitão expõe sua ideia sobre cultura, comemora o destaque paulista na área e diz o que pensa de Regina Duarte no governo Bolsonaro. Leia com toda a calma do mundo.

Sérgio Sá Leitão concede entrevista ao jornalista Miguel Arcanjo Prado – Foto: @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Este seu primeiro ano à frente da Secretaria da Cultura e Economia Criativa de São Paulo foi um ano difícil para o setor, mas que São Paulo conseguiu sair do tom nacional e foi meio que salvador da cultura, como declarou Fernanda Montenegro. Você concorda?
Sérgio Sá Leitão —
Concordo com você e concordo com a nossa querida Fernanda Montenegro. Acho que em 2019 aqui em São Paulo, tanto na cidade quanto no Estado, tivemos um ano de afirmação da potência transformadora da cultura e da política cultural. Foi um ano de grande investimento por parte do Estado, ao todo, considerando todas fontes, programas e ações, investimos R$ 1,2 bilhão na área, um recorde. Conseguimos viabilizar projetos que têm caráter simbólico, como restauro e ampliação do Museu do Ipiranga, que estava fechado desde 2013, o que era um monumento à nossa incapacidade de lidar com nosso patrimônio. O que não foi feito em seis anos aconteceu em menos de um ano, devido à decisão do governador João Doria de colocar a cultura como prioridade em seu governo. Isso é só um exemplo de como em São Paulo a cultura em 2019 foi diferente do resto do Brasil.

Miguel Arcanjo Prado — E qual a importância disso?
Sérgio Sá Leitão — Espero que a gente, com essa visão de reconhecer a importância capital da cultura para o desenvolvimento da cidade e do Estado, consiga contagiar positivamente o restante do país. Que esse exemplo de São Paulo na cultura empolgue e civilize o Brasil.

Miguel Arcanjo Prado — O que destaca na gestão da cultura paulista?
Sérgio Sá Leitão — A cultura no país tem uma espinha dorsal no Estado de São Paulo, de qualidade e excelência, construída ao longo do tempo. Temos consolidação de instituições como o MIS, a revitalização da Pinacoteca, Oficinas Culturais, Fábricas de Cultura, o Projeto Guri, maior iniciativa sociocultural do Brasil com quase 55 mil jovens participando de atividades de iniciação e formação em música. Como ministro da Cultura, pus os pés em 25 dos 27 estados brasileiros. Onde coloquei os pés encontrei pessoas formadas na SP Escola de Teatro, que este ano completa dez anos. Isso é impressionante. Isso dá uma consistência para a produção cultural muito significativa no país. Procuramos fortalecer essas instituições e corpos artísticos e expandir seus alcances. E onde encontramos necessidades, dar mais consistência ao trabalho. Foi uma política de continuação, que é chave para que os resultados aconteçam. Mesmo num cenário de aversidade, tivemos todo esse conjunto de realizações, esse investimento recorde em um ano muito difícil. Tivemos percalços ao longo do caminho, com arrecadação abaixo do que previsto, mas como o governador João Doria priorizou a cultura tivemos esse investimento recorde. Isso se deu no fomento, que foi ampliado, R$ 154,2 milhões no Proac desburocratizado e com gestão e avaliação melhorada, comissões qualificadas e mais técnicas. Tivemos melhores resultados no fomento à produção independente. Também ampliamos e damos impacto maior ao Revelando São Paulo, com 380 mil visitantes, recorde absoluto em número de expositores, artistas e cidades representadas. Também fizemos isso com o SP Gastronomia, o Festival de Inverno de Campos do Jordão, que saltou de 43 mil espectadores em 2018 para 151 mil em 2019 em sua emblemática 50ª edição. Reforçamos nossos eventos estruturantes como esses, a Festa do Imigrante e o Festival Internacional de Circo. E reforçamos o arsenal de instituições e corpos artísticos geridos pelo Estado de São Paulo, que são patrimônio e orgulhos de São Paulo, como a Osesp, a São Paulo Companhia de Dança, o Teatro Sérgio Cardoso, as Fábricas de Cultura, as Oficinas Culturais e a SP Escola de Teatro, entre outros. Este ano ainda teremos o Favela Fest, para impulsionar os talentos das favelas no Estado de São Paulo, que culmina com um festival de música e economia criativa da favela no Memorial da América Latina. E estamos criando duas linhas adicionais no Proac para apoiar corpos artísticos em favelas e comunidades, e um para linha de apoio a projetos culturais pontuais nas favelas e comunidades.

Miguel Arcanjo Prado — Nas últimas eleições, o Brasil viveu um confronto forte entre o setor cultural e o então candidato Jair Bolsonaro. A partir de sua chegada à Presidência, esperava-se que isso diminuísse, mas não. Parece que o enfrentamento não só continuou como também houve uma demonização do setor cultural. O que pensa de a política demonizar um setor que gera dinheiro, emprego e alimenta famílias?
Sérgio Sá Leitão — Não há possibilidade de termos um projeto sério, consistente, consequente de desenvolvimento para o Brasil que não priorize a arte, a cultura e a economia criativa. Estamos falando de ativos do nosso país, atividades que estão no DNA da nossa sociedade. Temos diferenciais competitivos por conta do processo de constituição da sociedade brasileira nessa área em relação a outros países. Os ativos culturais e criativos já contribuem imensamente para o desenvolvimento econômico e cultural do país e podem contribuir ainda mais. Há um vastíssimo potencial a ser explorado. E essa contribuição se mensura em geração de renda, emprego, inclusão, além de reforço de elos identitários e qualificação do capital humano. A cultura torna as pessoas melhores e faz com que nos relacionemos melhor um com o outro. A cultura já tem uma contribuição imensa e isso é evidente. É impossível não reconhecer isso. É impossível pensar seriamente o Brasil, em implementar um projeto de desenvolvimento, sem reconhecer e valorizar devidamente a arte, a cultura e a economia criativa.

Miguel Arcanjo Prado — Querer exterminar a cultura é uma decisão equivocada?
Sérgio Sá Leitão — Eu acho que não faz sentido [querer exterminar a cultura]. Eu prefiro creditar isso ao desconhecimento. Acho, inclusive, que esse desconhecimento é infelizmente um pouco generalizado. Há muitos brasileiros que como nosso presidente não têm a mesma visão que temos em São Paulo, que o governador João Doria tem, que o prefeito Bruno Covas tem, em relação a esse papel vital da cultura para o desenvolvimento do país. Infelizmente, muitos brasileiros não enxergam isso. Ainda temos a dificuldade no Brasil de muita gente entender as atividades culturais como profissões. De entender as atividades culturais como vetores de geração de renda, emprego e inclusão, de entender o quanto o investimento público em cultura é importante para impulsionar esse setor e o quanto isso volta não apenas para o governo como para a sociedade em geração de renda, emprego, inclusão e desenvolvimento humano e também arrecadação de impostos. Isso é um processo, todos nós que somos entusiastas da cultura e do seu potencial precisamos perceber e encarar isso de frente de maneira afirmativa. Ou seja, valorizando, amplificando nossos ativos, conquistas e impactos positivos. De certa maneira, somos corresponsáveis por isso, talvez tenhamos deixado de lado essa tarefa de divulgar e mostrar para a sociedade o quanto o investimento em cultura retorna à sociedade. Os estudos de impacto econômico cultural ainda são exíguos. É uma coisa à qual tenho me dedicado muito.

Sérgio Sá Leitão em entrevista exclusiva a Miguel Arcanjo Prado – Foto: @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — É preciso mudar a visão que a cultura só consome recursos?
Sérgio Sá Leitão — O investimento público em cultura não consome recursos de outras áreas, ele gera recursos para outras áreas. Muitas das iniciativas têm impacto em política de educação, saúde, turismo, desenvolvimento econômico. Temos estudos que mostram o quanto programas e ações culturais diminuem evasão escolar e elevam o desempenho na escola e reduzem taxas de internação por problemas cardiovasculares, reduzem taxas de homicídio e roubo nas comunidades onde estes projetos acontecem. Investimento em cultura torna o país melhor. Isso deve ser visto não enquanto gasto, mas como investimento.

Miguel Arcanjo Prado — A ideia de que “artista quer viver na mamata do governo” está errada?
Sérgio Sá Leitão — Essa é uma visão completamente equivocada porque não encontra base na realidade. Nós temos de encarar os artistas como trabalhadores e profissionais. Pessoas que dedicam seu tempo, energia e talento para construir o desenvolvimento do país, como os trabalhadores, profissionais e executivos de outras atividades. São pessoas que trabalham numa área que o Brasil tem imensa vocação e potencial, para nosso desenvolvimento. Profissionais da cultura devem ser valorizados. A história da humanidade demonstra que uma forma de aferir o grau de civilidade de um pais é por conta de seus ativos culturais e investimento em cultura. Quanto mais investimento em cultura, mais civilizado um país é. Nos países mais civilizados e desenvolvidos é onde encontra-se maior apreço à cultura, à arte e à economia criativa. Se queremos que o Brasil seja efetivamente civilizado, desenvolvido e que realize seu potencial em termos de qualidade de vida, felicidade e bem estar, temos de investir, valorizar e reconhecer a importância da cultura.

Sergio Sá Leitão conversa com Miguel Arcanjo Prado – Foto: @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como viu a passagem do último secretário Nacional de Cultura, Roberto Alvim?
Sérgio Sá Leitão — Acho que o presidente Bolsonaro, ao longo da sua trajetória política, jamais teve uma relação com o setor cultural, com a área da cultura. Então, é uma área que ele não conhece. Ele desconhece. Ele também dá a impressão de não ser um grande consumidor e fruidor de bens e serviços culturais. Então, acho que há um distanciamento muito grande. Por diversas razões, ao longo da campanha eleitoral, esse distanciamento se transformou em narrativa contrária ao setor cultural. Que foi identificado como mais ligado à esquerda e, portanto, adversário. Essa narrativa se construiu e se afirmou durante a campanha. Isso aprofundou esse distanciamento. Então, o governo Bolsonaro assume sem uma visão, sem um projeto para a área da cultura. Isso ficou muito claro ao longo do ano passado, a dificuldade de lidar com a cultura, que virou um problema. O governo federal não soube lidar com o setor. Isso é horrível para todo mundo. É ruim para o governo, para a sociedade, para o país. Estamos desperdiçando oportunidades. Estamos deixando de realizar coisas positivas para todos os envolvidos. No caso do Roberto Alvim, ele era do campo das forças que apoiaram o presidente Bolsonaro, um dos poucos com uma visão sobre cultura. E acho que nessa tentativa do que poderia funcionar, o projeto que o Roberto apresentou surgiu como uma oportunidade de o governo Bolsonaro ter um projeto para a cultura. Projeto esse que se desmanchou por si mesmo por circunstâncias e fatos que todos conhecemos. Infelizmente, continuamos na mesma situação de o governo federal não saber o que fazer com essa área e não enxergar seu potencial social e estratégico para o desenvolvimento do país.

Sérgio Sá Leitão concede entrevista ao jornalista Miguel Arcanjo Prado – Foto: @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como enxerga a chegada de Regina Duarte à Secretaria Nacional de Cultura?
Sérgio Sá Leitão — Eu tenho muita esperança em relação a Regina Duarte. Se há alguém que possa conversar com o presidente e convencê-lo da importância da cultura é a Regina Duarte. Ela é uma artista de grande prestígio, uma história que merece todo respeito e consideração e uma pessoa que apoiou o presidente deste o início. Então, imagino que o presidente Bolsonaro tenha uma dívida de gratidão em relação a ela e ao apoio que ela lhe deu. Eu disse isso pra Regina. Se há uma pessoa no Brasil que pode convencer o presidente Bolsonaro da importância da arte, da cultura e da economia criativa para nosso desenvolvimento humano, econômico e social é a Regina Duarte. Ela tem conhecimento, ela tem sensibilidade, ela tem essa capacidade. Eu torço muito para que a Regina consiga fazer isso. Porque, na minha visão, é chave que ela seja bem sucedida nessa tarefa de convencimento, persuasão do presidente e das pessoas em seu entorno. Sem isso, não conseguirá realizar um bom trabalho, não terá recursos e terá muitas dificuldades. Ela pode mostrar ao presidente, coisas que seus assessores ficam com receito ou medo, que a liberdade de expressão e de criação artística intelectual está consagrada na Constituição Brasileira, não é algo que a gente tenha de discutir. É algo que é. Temos de discutir como fazer uma boa política cultural, como obter melhores resultados, ser mais eficientes, eficazes, como valorizar nossos ativos, de que maneira fazer, isso tem de ser, claro, debatido. Mas, cultura é função do Estado também. E o governo precisa agir respeitando a liberdade de expressão artística, isso é causa pétrea da Constituição. E isso é algo que precisa ser dito por alguém que o presidente reconheça como interlocutor. E acho que a Regina tem essa capacidade. Se a Regina conseguir convencer o presidente da relevância e da importância capital da cultura para o desenvolvimento do país e se convencer o presidente que a política cultural precisa necessariamente obedecer a Constituição e respeitar a liberdade de expressão e criação artística e intelectual, ela poderá ser bem sucedida na sua gestão. E eu torço imensamente por isso. Porque se o governo Bolsonaro for ruim nessa área, será ruim para todos, será ruim para o país. Ninguém ganha com isso. Eu questiono essa ideia de resistência. Não temos de resistir a nada. Temos de ser afirmativos, mostrar o quão somos capazes e o quão importante somos e geramos resultado para a sociedade. É uma questão de potência, não resistência. É uma afirmação. Também acho absurdo essa visão de que quanto pior melhor. Eu sou brasileiro e torço sempre pelo sucesso do Brasil, independentemente de quem esteja no governo ou seja o partido. Todos nós que estamos vivendo o aqui e o agora temos de torcer para que as coisas sejam melhores no presente, e claro, no futuro. Temos de ser afirmativos e torcer pelo êxito da Regina e para que o governo Bolsonaro encontre um projeto consistente para a área da cultura.

Sérgio Sá Leitão, secretário da Cultura e Economia Criativa de São Paulo, em retrato de Bob Sousa – Foto @bobsousa Blog do @miguel.arcanjo UOL

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