Crítica: Entrevista com Phedra emociona ao misturar vida e morte da diva

Por Mariana Queen Nwabasili*
Crítica convidada
Fotos Annelize Tozetto

O teatro é um ritual, e a peça “Entrevista com Phedra”, em cartaz às segundas-feiras, 21h, no Espaço dos Satyros Um, na região central da capital paulista, é a mais recente evidência disso.

Baseada em fatos reais, a obra homenageia e revive memórias de Phedra D. Córdoba, artista cubana transexual falecida em 2016 que se tornou ícone e diva do teatro underground de São Paulo ao fazer parte da Cia. de Teatro Os Satyros.

Na história, Phedra conhece o jornalista Miguel Arcanjo Prado debruçada sobre uma sarjeta, enquanto chora devido a um parecer negativo de seu diretor de teatro ao seu trabalho – afinal, imagine o quanto pode magoar uma diva o confronto com a dúvida sobre sua grandeza e potencial. Miguel a consola, reconhece sua peculiaridade e decide entrevistá-la. Boa parte da peça se dá durante a visita do jornalista ao lendário apartamento da diva localizado na praça Roosevelt para a tal entrevista.

Em um período como o atual, marcado pela apreciação virtual e on demand de narrativas ficcionais, a obra, primeira dramaturgia do jornalista e crítico de arte Miguel Arcanjo Prado e dirigida por Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha, mostra que presenciar, em coletivo, a representação de personagens que existiram por meio da atuação ao vivo de corpos (em carne e osso) que (re)existem ainda faz diferença para o alcance da catarse como parte da experiência estética: ao final da sessão de estreia no dia 8 de julho boa parte do público, majoritariamente composto por frequentadores dos teatros da Praça Roosevelt, não conteve as lágrimas.

Ao menos dois artifícios artísticos podem ser destacados como fundamentais para tal efeito entre os espectadores. Primeiro, a genial atuação da atriz Márcia Dailyn, que dá vida a uma Phedra bem-humorada, caricata e enérgica, e a de Raphael Garcia, que interpreta Miguel Arcanjo, conseguindo reproduzir de forma sutil os cacoetes mineiros do jornalista nascido em Belo Horizonte (MG).

Depois, o acertado formato do clímax da peça que tanto emocionou o público: jogando com o repertório da audiência a respeito da morte da diva na vida real, já no caminho para o final do espetáculo, vemos em cena a protagonista mencionar nominalmente outras personagens (da vida real) dos teatros da Praça Roosevelt, enquanto aponta para algumas delas que estão (imaginariamente?) na plateia e diz o quanto sente saudades de cada uma.

Ao mesmo tempo que o momento-clímax mistura de forma perspicaz ficção e realidade e representações das memórias e saudades de uma Phedra viva e de uma Phedra morta/vinda da morte, fica a curiosidade se a montagem em um teatro que não o Espaço dos Satyros Um, justamente na Praça Roosevelt, recinto artístico da diva que a peça homenageia, tenha o mesmo efeito catártico sobre o(s) público(s).

Com relação especificamente à mistura entre realidade e ficção que a obra propõe, vale ressaltar diferentes níveis biográficos – lembremos da inegável veia jornalística do dramaturgo – que ela parece acionar e dar visibilidade por meio da ficção: a personalidade e as memórias da Phedra D. Córdoba da vida real; um recorte das relações interpessoais em meio ao teatro alternativo da cidade de São Paulo; o entusiasmo jornalístico de Miguel Arcanjo Prado no lido também com as personagens reais com as quais se depara na cada vez mais rara cobertura da cena teatral contemporânea e questões pessoais e profissionais das artistas e atrizes trans na América Latina.

Afinal, ao ter como protagonista uma artista trans que é interpretada por Márcia Dailyn, primeira bailarina transexual do Theatro Municipal de São Paulo, musa do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta e atual diva da Praça Roosevelt, a obra se vincula aos debates atuais sobre a relação entre representação artística e representatividade social; ata as pontas da vida e morte das pessoas trans no Brasil e reconhece o valor profissional delas nas artes também, ou melhor, ainda quando vivas.

Quando a peça termina, aplaudimos simultaneamente a memória póstuma de Phedra D. Córdoba e a atuação e profissionalismo vivos de Márcia Dailyn. Coisas que rituais e a arte da representação teatral permitem.

*Mariana Queen Nwabasili é mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela USP, onde também se graduou em Jornalismo. Pesquisadora de relações, representações, recepções e identidades raciais e de gênero no audiovisual, já participou como jurada, curadora ou debatedora de festivais como Kinoforum, Mostra Melhores Minutos e É Tudo Verdade.

Entrevista com Phedra
Espaço dos Satyros Um – Praça Franklin Roosevelt, 214, Consolação, SP, tel. 11 3258-6345. Segunda, 21h. Até 2/9/2019 (não haverá sessão dia 26/8). R$ 40 e R$ 20. 50 min. 14 anos.

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