Roberto Francisco rejuvenesce no Satyros para celebrar 50 anos de carreira

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos EDSON LOPES JR.


Artista histórico de nossos palcos, Roberto Francisco, 74, anda se sentindo outra vez um menino. O ator celebra seus 50 anos de carreira com a peça “Uma Canção de Amor”, que estreia em São Paulo neste domingo (30) no Espaço dos Satyros Um [veja serviço ao fim].

Quando criança, Roberto era fascinado pelo Circo-Teatro. Levado pelo pai, se encantava não só com os números de circenses, mas, sobretudo, com o que vinha depois: o teatro.

“Sou antigo, quando nasci ainda estava tendo a 2ª Guerra Mundial”, fala Roberto em entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo, revelando que nasceu em 31 de outubro de 1944, “em pleno Dia das Bruxas”.

Circo e teatrinho de gaveta

Na plateia do Circo-Teatro do Simplício, icônico artista circense brasileiro, os olhos do menino brilhavam diante dos personagens. Mas, quando voltava ao bairro paulistano da Mooca, onde vivia com o seus pais, os filhos de imigrantes italianos Salvador Francisco, um taxista que depois fabricou tamancos e panelas de alumínio e a dona de casa Ilva, Roberto só pensava em uma coisa: reproduzir o que tinha sentido.

“Tinha vários amiguinhos que não tinham dinheiro para pagar o ingresso do circo. Então, chegava em casa e tirava uma gaveta da cômoda da minha mãe, cortava figuras da revista O Cruzeiro e chamava os amiguinhos para assistirem eu fazendo a peça outra vez para eles. Botava a gaveta de pé e ia contando a história que havia visto no circo. Era meu teatrinho”, recorda.

Em “Uma Canção de Amor”, atua com Henrique Mello, autor da dramaturgia ao seu lado baseada na obra do francês Jean Genet e na vida dos dois, sob direção de Gustavo Ferreira e Rodolfo García Vázquez [veja serviço ao fim]. “O Henrique é um ator muito cabeça, gentil e talentoso, trabalhar com ele é um prazer”, elogia.

Do teatrinho de gaveta para os palcos de verdade foi um pulo. “Na adolescência, comecei a fazer teatro amador na Escola Estadual M M D C, na Mooca. Era diretor cultural do grêmio estudantil e fiz um grupinho com quem curtia teatro. Sempre apresentávamos em 15 de outubro, Dia dos Professores. Como a escola era ao lado do Teatro Artur Azevedo, fazíamos um grande espetáculo lá, com teatro e música”, recorda.

Aulas na USP com Regina Duarte

Quando chegou a hora do vestibular, resolveu prestar para cinema. “Fiz a Escola de Comunicações e Artes da USP. Entrei em 1968, na mesma turma que a Regina Duarte, que sempre me dava carona da Cidade Universitária até o Parque Dom Pedro II”, rememora.

Dos tempos universitários, lembra com carinho das aulas de Paulo Emílio Salles Gomes, um dos maiores críticos de cinema do país: “Como já fazia teatro, resolvi estudar outra coisa na universidade, então, fiz cinema na ECA, mas depois voltei para o teatro, aliás, nunca o deixei”.

Primeira grande chance: “O Balcão”

A primeira peça adulto como profissional foi em 1969. E tratava-se simplesmente de um marco que revolucionaria o teatro brasileiro: “O Balcão”, com texto do francês Jean Genet, direção do argentino Victor García e produção de Ruth Escobar no teatro que leva seu nome na Bela Vista. Antes, havia feito os infantis “Dona Patinha Vai ser Miss” e “Pop, a Garota Legal”, no mesmo ano.

“Estava no Teatro de Arena fazendo ‘Pop, a Garota Legal’, e o Marcelo Coutinho, que fazia a sonoplastia e também atuava em ‘O Balcão’, me disse que a Ruth Escobar estava precisando fazer uma substituição. Estreei no fim de 1969, eram oito sessões por semana. Comecei como um revolucionário, quase coro. Um dia, a Ruth me chamou e falou: vou te dar uma fala. E daí fui passando por todos os papéis ao longo da temporada até chegar ao Roger, que é um dos principais personagens, que também foi feito pelo Carlos Augusto Strazzer e o Marcos Weinberg”.

Enterro concorrido e Antunes Filho na Europa

Roberto conta que, como chegou em “O Balcão” com a peça já pronta, acabou não tendo contato com o diretor argentino. “Ironicamente, eu não tive contato com o Victor García, só fui ir ao seu enterro em 1982, em Paris, onde estava então em cartaz com ‘Macunaíma’ e ‘O Retorno de Nelson Rodrigues’”, ambas sob direção de Antunes Filho.

“No enterro do Victor García estavam o Jean Genet, o Fernando Arrabal… A gente olhava e falava: ‘Meu Deus do céu!’ Era o teatro mundial inteiro naquele enterro”, recorda. “Ficamos oito meses representando o teatro brasileiro na Europa, o Antunes não dava folga”, lembra.

Moradia no Palacete dos Artistas

Roberto fez de tudo nos últimos 50 anos. Algumas pontas em televisão, um pequeno papel no filme “A Moreninha”, com Sonia Braga e, sobretudo, teatro, como o infantil “O Aniversário do Palhaço”, que ficou 25 anos em cartaz, além de lecionar artes em escola pública.

Fez peças grandes e pequenas, enfrentou dificuldades financeiras, se reinventou várias vezes e, há cinco anos, foi morar no Palacete dos Artistas, onde está o que chama de “sua família do teatro”: “É um lugar que acolhe o artista mais velho com muito carinho”, pontua.

Redescoberto pelo Satyros

Roberto conta que conheceu Rodolfo García Vázquez quando o diretor do Satyros foi fazer uma ação cultural com os moradores do Palacete dos Artistas, residência pública para artistas na terceira idade na av. São João, no centro paulistano. “Foi quando conheci não só o Rodolfo como também o Henrique, que fazia assistência de direção para ele e hoje está na peça comigo”, fala.

“Sempre continuei com o teatro, faço até hoje, aos 74 anos. Nunca parei. Todos os anos da minha vida eu fiz teatro. Até chegar agora no Satyros, o que para mim foi um prêmio”, avalia.

“Quase um ostracismo”

E explica por quê. “Durante muito tempo fiquei fazendo teatro longe do centro de São Paulo, onde as pessoas têm dificuldade de chegar. Então, fiquei um pouco meio que no ostracismo. Claro que as pessoas que fizeram teatro comigo se lembram de mim, mas eu fiquei muitos anos sem ter visibilidade. Quando eu vim para o Satyros, isso mudou”, aclara.

E diz que no grupo faz questão de ser tratado como os demais: “A primeira coisa que falei foi: não me respeitem pelos meus anos de idade. Eu estou aprendendo com vocês”. Quando fez a peça “O Incrível Mundo dos Baldios” em 2017 com os Satyros, mudou muitas perspectivas.

Momento atual: fôlego juvenil recuperado

“No começo, fiquei assustado com a direção do Rodolfo, porque não tinha texto inicialmente, e eu estava acostumado a começar uma peça com o texto na mesa. Eu ficava apavorado! Mas, depois, compreendi a força daquele processo e o texto do Ivam Cabral e do Rodolfo García Vázquez foi chegando com tudo”, afirma. “Também fui vendo as direções do Gustavo Ferreira, e falei que gostaria de ser dirigido por ele um dia. Agora, os dois juntos nos dirigem em ‘Uma Canção de Amor’”, celebra.

Às vésperas da estreia, Roberto fala que sente-se jovem outra vez, que rejuvenesce fazendo teatro no Satyros. “Estou aprendendo tudo de novo. É como recomeçar do zero, mas ao mesmo tempo me faz lembrar também o meu começo”, revivendo o mesmo furor que sentia com o seu teatrinho de gaveta. “Estou me sentindo como naquela música [começa a cantarolar]: ‘Eu vou voltar aos velhos tempos de mim’…”

Por Miguel Arcanjo Prado

UMA CANÇÃO DE AMOR de Roberto Francisco e Henrique Mello inspirados na obra de Jean Genet. Direção Gustavo Ferreira e Rodolfo García Vázquez (50 min). Espaço dos Satyros Um (praça Franklin Roosevelt, 214, Consolação, São Paulo, 11 3258-6345). Domingo, 19h. R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada). 18 anos. De 30/6/2019 até 25/8/2019.

 

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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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