Crítica: Renata Sorrah e Grace Passô fazem duelo de titãs em Preto

Renata Sorrah e Grace Passô em cena da peça “Preto”: duas grandes atuações – Foto: Tiago Lima/Sesc SP/Divulgação

Por Viviane A. Pistache*
Crítica convidada

É novembro negro! Tempo de reluzir as pautas. Não é novidade que somos pretos o ano todo, mas neste mês somos negritados. Apesar do reiterado silenciamento ao longo das outras estações, esta temporada também é boa para florir portas e palcos.

Nesta safra farta, somos agraciados com a peça “Preto”, de co-autoria da atriz mineira Grace Passô, fina flor da dramaturgia brasileira. Mas em se tratando de ser negra, nem a vida de uma rainha nagô deve ser fácil.

Grace Passô abre a cena como uma conferencista plenamente consciente dos desafios e da importância política de ser preta. Somos convocados e encarar sua grandeza, sem poder nos esquivar da sua palavra gargalhada e acidamente irônica, nem de seus olhos de Medeia, que pretrifica racismos que habitam as mentes de esquerda que por ventura sejam brancas e racistas.

Paradoxalmente, enquanto o palco é ocupado por um telão com seu rosto em evidência, o corpo da atriz permanece imóvel e pequeno numa esquina e à sombra. Boa metáfora para o processo de nos desmembrar enquanto somos interpelados sobre os múltiplos sentidos de sermos nós.

Raramente nos compreendem em nossa completa humanidade. Reiteradamente somos bunda, músculos, rebolado, música, dança, dentes, cabelos, braços, força motriz, buceta, peito, falo, raça e, mais eventualmente, rosto ou cabeça.

Para encarnar a face gloriosa de um cenário novo na dramaturgia brasileira, Grace assoma gigante, segura de que vai incendiar o palco inteiro; mesmo agora em que falar de diferenças é estar na mira da fogueira da inquisição.

Como boa senhora do destino, ela orienta o restante do elenco a refazer cenários. Dando um basta à passividade da voz baixa e concordante, ela dirige o processo enquanto disserta sobre ser mulher negra.

Renata Sorrah, Grace Passô e Nadja Naira em cena de “Preto” – Foto: Tiago Lima/Sesc SP/Divulgação

Acertadamente a peça abre mão de nomes fictícios, de modo que Grace Passô é Grace e Renata Sorrah é, simplesmente, Renata. Duas amazonas que são inquiridas com a mesmíssima pergunta: “Como é ser você?” Para Grace essa pergunta tem conotações raciais, ao passo que, para Renata, deslinda-se os sentidos da fama e do reconhecimento de ser uma vilã pop e global.

Tiranizada pela crueldade da mídia e de espectadores que condenam a velhice, Renata expõe os dilemas da superexposição ante câmeras e flashes, numa sociedade obcecada por selfies e filtros.

Dona de um sólido e reluzente percurso na dramaturgia brasileira, Renata, com seu canto de sereia experiente, quase adormece os nossos ouvidos ao tema em pauta: Preto! Sub-repticiamente, porém, tangencia o assunto ao desdobrar aspectos de uma branquitude que tem privilégios como o reconhecimento e a fama, ainda que em suas faces extenuantes.

E o texto reúne a grandeza de ambas num duelo que passa pela releitura de uma trágica história de amor entre duas mulheres. Assim, Grace chora “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” enquanto Renata goza a crueldade juvenil de Karen.

Trata-se porém de uma adaptação que tem espaço para o deboche, para os desacertos dos ensaios, esvaziando assim, a dor de Petra. São mundos e tempos distintos que se reencontram: Renata Sorrah já encenou o consagrado texto de Rainer Fassbinder com Fernanda Montenegro no começo dos anos 1980.

Mas, ao emprestar sua pele a Petra, Grace compartilha com Renata Sorrah memoráveis momentos que devem ficar para a história do teatro brasileiro. Além disso, com esta intertextualidade, “Preto” amplia o debate sobre diferenças ao bancar um casal lésbico e inter-racial.

Felipe Soares e Rodrigo Bolzan em cena de “Preto”, sob direção de Marcio Abreu – Foto: Tiago Lima/Sesc SP/Divulgação

O espetáculo proposto pela companhia brasileira de teatro tem a direção de Marcio Abreu, que divide a dramaturgia com a Grace Passô e a Nadja Naira, que também está no elenco juntamente com Cassia Damasceno, Felipe Soares, e Rodrigo Bolzan.

Apesar do texto deliberadamente privilegiar as atuações de Grace e Renata, a presença das demais personagens suscita algumas questões importantes. O elenco é divido em cores, sendo metade branca e metade negra.

Apesar de o título ser “Preto”, a narrativa é mesclada por tonalidades de outros marcadores sociais das diferenças. Assim, além dos sentidos da negritude, é possível apreender as sombras dos significados de ser mulher branca, do processo de envelhecer, ser lésbica, sobre nudez em cena em tempos de censura, dentre outros debates.

A atriz Cássia Damasceno em cena de “Preto” – Foto: Tiago Lima/Sesc SP/Divulgação

Digno de nota é o recurso utilizado para fazer dialogar questões como homossexualidades e periferias ao som de funk, tendo em vista o momento de criminalização deste gênero musical, no atual contexto de retrocessos políticos.

E o encerramento com chave de ouro fica por conta da atriz Cássia Damasceno, que amplifica vozes num manifesto de libertação da mulher negra do lugar do entretenimento que a subjuga.

“Preto”, em cartaz no Sesc Campo Limpo até o dia 17 de dezembro, é uma oportunidade ímpar de conferir um texto primoroso e atuação de duas referências dramatúrgicas obrigatórias.

“Preto” ✪✪✪✪✪
Avaliação: Ótimo
Quando:
Quinta a sábado, 20h, domingo, 18h. 100 min. Até 17/12/2017
Onde: Sesc Sampo Limpo (r. N. S. do Bom Conselho, 120, Campo Limpo, São Paulo, tel. 11 5510-2700)
Quanto: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia) e R$ 9 (credenciados do Sesc)
Classificação etária: 14 anos

*Viviane Angélica Pistache é bacharel em Psicologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mestre em Educação e doutoranda em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo). Mineira de Nova Lima radicada em São Paulo, integra o Projeto Pretas Dramas — um encontro entre a psicóloga Viviane A. Pistache, a roteirista Carolina Gomes e a cineasta Renata Martins, três mulheres negras, para pensar, refletir e produzir crítica e dramaturgia. 

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