Crítica: Corajoso, Risco descortina feridas de SP com o Balé da Cidade

“Risco” dialoga com São Paulo no palco do Municipal – Foto: Arthur Costa

Por Miguel Arcanjo Prado

Arte, que se preza, dialoga com seu tempo. Isto é evidente em “Risco”, o mais novo espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo, agora sob direção artística do paulistano Ismael Ivo, um dos nomes mais respeitados na dança em todo o mundo, e com direção assinada por Sergio Ferrara, nome com experiência farta no teatro.

A coreografia é apresentada no mesmo programa, chamado de “Corpo Cidade”, que antes traz a rápida “Adastra”, coreografia criada pelo catalão Cayetano Soto, esta investindo na forma e na destreza técnica dos bailarinos em ambiente soturno e solene.

Mas, após o intervalo, quando “Risco” surge, tudo muda. O tom é completamente outro. Trata-se de um espetáculo que vai muito além da técnica e da forma, tornando-se um verdadeiro tratado político e poético de diálogo profundo com São Paulo e repleto de possibilidades e significados.

O diretor artístico do Balé da Cidade, Ismael Ivo, e o diretor de “Risco”, Sergio Ferrara – Foto: Divulgação

Tema polêmico nos últimos meses na cidade, o grafite, pintado de cinza na vida real, ressurge exuberante e multicor para inundar o palco em um recado potente e preciso.

Corajoso, “Risco” põe o dedo em feridas abertas da capital paulista, como a recente desvalorização da arte, a dependência química de tantos moradores em situação de rua exposta na cracolândia, a transexualidade e homossexualidade ainda demonizada e combatida com preconceito e violência nas ruas, os enfrentamentos e ataques covardes nas manifestações políticas recentes.

Tudo isso, e mais um pouco, é levado ao palco em uma dança potente e por vezes sufocada pelas imagens da própria cidade projetada ao fundo. Mais que exibir a precisão de uma dança aristocrática ou fazer piruetas, os bailarinos estão ali para contar uma história tão viva e contraditória quanto a cidade que lhes mantém. Como a paisagem no entorno do próprio Municipal. Ver este exercício dialético no palco é bonito e reconfortante.

Ousadia e coragem

“Risco” contém o caos e a aflição típicas de São Paulo, com seu ritmo frenético, de quem não se importa tanto com o outro, de quem corre apressado sem saber muito bem para onde. Metrópole onde, infelizmente, a arte ainda é enxergada por alguns como algo a ser enfrentado, combatido, apagado, afogado. Mas, que resiste.

A multidão de 34 bailarinos povoa o palco imponente do Theatro Municipal, descortinando epicamente sua imponência classista para evocar aqueles habitantes que são ignorados por quem muitas vezes senta-se nas históricas cadeiras de veludo vermelho.

“Risco” é um ousado espetáculo que expõe as feridas paulistanas para entrar para a história do Balé da Cidade e do próprio Theatro Municipal pelo seu alto grau de coragem típica dos grandes artistas.

“Risco” * * * * *
Avaliação: Ótimo
Quando: Quarta, 16h, quinta a sábado, 20h, domingo, 17h. Até 1º/4/2017
Onde: Theatro Municipal de São Paulo – Praça Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 11 3053-2100
Quanto: R$ 35 a R$ 100 (quinta a domingo) e R$ 20 (quarta)
Classificação etária: 14 anos

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