Crônica do Arcanjo: De quando em vez ou a força de Jhonny Black

Jhonny Black no filme "De Quando em Vez", apresentado em Tiradentes: uma estrela da MPB que precisa ser conhecida - Foto: Reprodução

Jhonny Black no filme “De Quando em Vez”, apresentado em Tiradentes: uma estrela da MPB que precisa ser conhecida – Foto: Reprodução

Por Miguel Arcanjo Prado

Jhonny Black poderia ser uma estrela da MPB conhecida. Mas, por enquanto, é apenas uma estrela da MPB. Porque não há dúvida que estrela ele é. Quem duvida que escute suas músicas. Por estas ironias da vida, seu talento, até hoje, ficou circunscrito apenas às cercanias da pequena Visconde do Rio Branco, cidade da Zona da Mata de Minas Gerais.

Mas, agora, Jhonny Black pode ir além do bar onde toma cachaça e ganhar o mundo, com suas músicas repletas de ritmo e poesia. Graças ao filme “De Quando em Vez”, o canto e a figura de João Batista de Sousa, seu nome de batismo, é imortalizada na sétima arte. Nós, privilegiados em conhecê-lo, precisamos agradecer aos cineastas pela sensibilidade em retratá-lo no documentário.

O curta foi apresentado no último domingo (22) dentro da programação da Mostra Regional da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, emocionando um lotado Cine-Tenda com a verdade de um artista do povo que os cuidadosos diretores Jáder Barreto Lima e Rafaella Pereira de Lima souberam captar com um olhar errante tal qual Jhonny Black, que prefere poesia à dureza da vida. Até o cachorro de rua de Tiradentes assistiu  com gosto à sessão.

O cantor e compositor talentoso surge na telona com a simplicidade atrelada à grandeza de um artista de seu porte, com músicas à altura de gigantes como Jorge Ben Jor. Junto de Jhonny Black vem também a situação dos descendentes de escravos em Minas Gerais, ainda vivendo em bairros pobres, sem as mesmas oportunidades da população branca privilegiada. Se a vida não facilita, jamais abrem mão de sua dignidade e de sua cultura.

Isso fica evidente em Jhonny Black, como quando ele canta em iorubá na sede do Congado Nossa Senhora do Rosário, ponto de resistência negra e da religião de matriz africana em sua pequenina cidade.  E o faz com toda a doçura (e força) do mundo, em uma cena de arrancar lágrimas. É um grande, esse tal de Jhonny Black.

É pela magnitude do artista retratado que o filme “De Quando em Vez” merece ser conhecido e visto, sobretudo pelos medalhões de nossa música; aqueles que, ao contrário de Jhonny Black, tiveram mais sorte nesta vida. E que possam enxergar nele um parceiro e tanto.

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Novidade nos palcos

Lucas Mayor faz curadoria de projeto que apresenta novos textos de teatro em SP - Foto: Divulgação

Lucas Mayor faz curadoria de projeto que apresenta novos textos de teatro em SP – Foto: Divulgação

Não só o cinema traz boas novas. O teatro também. Na última quinta (26), o projeto Quinta em Cena apresentou quatro novos textos teatrais  curtos no Teatro Cemitério de Automóveis, em São Paulo, com direito a casa cheia.

O projeto tem curadoria do dramaturgo boa praça Lucas Mayor. Foi o texto dele “Quatro por Quatro” que abriu a noite sob direção de Mauro Baptista Vedia, com quatro atrizes potentes (Angela Figueiredo, Patrícia Vilela, Juliana Calderón e Maura Hayas) , colocando em pauta, em uma cena desconcertante, o execrável racismo que persiste no Brasil e que precisa ser enfrentado por todos nós.

A noite, com realização da Cia. La Plongée e Teatro Cemitério de Automóveis, ainda teve o suspense “O Sujeito”, do dramaturgo promissor Leonardo Cortez (de “Sala dos Professores”), também na direção e na atuação em sintonia fina com Daniel Dottori, na pele de um homem transtornado com a desconfiança de que a mulher o trai com seu melhor amigo.

Foram apresentados também “Cachaça Importada”, de Felipe Bustamente, que dirigiu e atuou ao lado de Fernanda Báfica em um drama repleto de tensões sociais que reverberam estereótipos sociais preconceituosos, e “300 Minutos”, de Daniela Pereira de Carvalho, monólogo sobre um ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol, defendido com bravura por Walter Figueiredo dirigido por Marco Antônio Bráz. O projeto contou com assistência de direção de Juan Manuel Tellategui e Katarina Hauke, além de coordenação técnica de Ademir Muniz e Gabriel Oliveira. Ao fim, todos comemoram no famoso bar do teatro, onde está escrito a giz em um quadro um pequeno protesto: “Xidade Xuja”.

Pelo jeito, mesmo em tempos obscuros no campo político, a cultura brasileira anda mais viva do que nunca. Quem duvidar, é só sair de casa com o coração aberto para enxergar além do que já está por aí.

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