Opinião: Amante das palavras, Ferreira Gullar tinha a língua afiada

O poeta Ferreira Gullar (1930-2016)

O poeta Ferreira Gullar (1930-2016)

Por Miguel Arcanjo Prado

Ferreira Gullar não tinha medo das palavras. Muito pelo contrário, fazia o que queria com elas. As usava para provocar, para quebrar a ordem vigente. O artista maranhense, que morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio, vítima de uma pneumonia, gostava mesmo era do confronto de ideias, de discursos.

Grande nome não só da poesia quanto do jornalismo cultural brasileiro, ao longo da vida não hesitou em rever seus próprios conceitos, e valores, sendo que começou na juventude como militante do Partido Comunista e, nos últimos anos, defendia em seus artigos um pensamento mais conservador.

Entretanto, independentemente das posições ideológicas distintas ao longo da vida, Gullar sempre utilizou as palavras de modo eloquente e impactante, como é próprio dos grandes poetas, na defesa de seu ponto de vista.

Ao saber de sua morte, é impossível não lembrar-me da entrevista que fiz com o mestre das palavras, há exatos dez anos.

Ferreira Gullar: mestre da poesia concreta - Foto: Divulgação

Ferreira Gullar: mestre da poesia concreta – Foto: Divulgação

Língua afiada

Era 2006, ainda vivia em Belo Horizonte, cursava meu último ano de comunicação social na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais e estagiava na reportagem do Boletim da UFMG, órgão informativo do campus editado pelo jornalista Flávio Almeida.

Com ampla liberdade na sugestão de pautas, pedi para entrevistar com exclusividade Ferreira Gullar, por conta dos 50 anos da poesia concreta, movimento que ele ajudou a criar ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e também de Décio Pignatari em 1956.

A conversa foi ótima. Tanto que me lembro que Flávio manchetou com gosto assim: “Língua concreta (e afiada)”. Título que reproduzo, de certa forma, neste texto.

Afinal, Ferreira Gullar falou de tudo sem reservas. Disse que os irmãos Augusto e Haroldo de Campos tinham mania de querer inventar uma nova forma matemática para a poesia, o que ele não concordava. “Nunca pensei em ser vanguardista! Isso era coisa do pessoal de São Paulo. Eu só aderi ao movimento porque sabia que, se não entrasse, a minha obra seria assimilada por eles”, revelou, com sinceridade.

Contou que a ruptura com os irmãos Campos se deu em 1957 por divergências: “Eles tinham escrito uma espécie de ‘plano-piloto’ da poesia concreta, inspirado em Brasília. Eu disse: ‘Isso é coisa de arquitetura!’. Depois o Augusto veio com um artigo intitulado ‘A Matémática da Composição’, que dizia que a poesia concreta seria criada por meio de uma equação matemática. Achei aquilo tudo um grande absurdo!”.

Bobagem filosófica

Sobre a tal equação para criar poesia proposta por Augusto de Campos, vociferou: “Isso é uma grande bobagem filosófica. Os irmãos de Campos foram pretensiosos, donos da verdade. Eles jamais conseguiram fazer essa poesia matemática que propuseram”.

Gullar ainda revelou que, por pouco, não fez parte de um novo movimento, que contou qual era com muito bom humor. “O Décio Pignatari veio ao Rio para um almoço comigo na casa do Reynaldo Jardim. O Décio dizia que tinha umas ideias para um movimento. Segundo ele, a indústria brasileira, que sempre havia sido de bens de consumo, estava se tornando uma indústria de base. O mesmo deveria acontecer com a poesia”, lembrou.

E prosseguiu: “Eu disse: ‘Você já tem alguma poesia desse movimento?’. Ao que ele respondeu: ‘Eu tenho um manifesto’. Pois eu retruquei: ‘Faça primeiro a poesia, depois a gente publica’. Eles nunca fizeram. Isso é uma característica da vanguarda, o mais importante é o manifesto. A obra vem em segundo lugar”. Mais Ferreira Gullar, impossível.

Ferreira Gullar em Buenos Aires em 1975 - Foto: Arquivo pessoal

Ferreira Gullar em Buenos Aires em 1975 – Foto: Arquivo pessoal

Leia a entrevista completa de Ferreira Gullar a Miguel Arcanjo Prado no Boletim da UFMG em 2006

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