Crítica: Diário gay de diplomata irlandês executado é questionado em peça

"As Duas Mortes de Roger Casement" tem elenco afinado da Cia. Ludens - Foto: Divulgação

“As Duas Mortes de Roger Casement” tem elenco afinado da Cia. Ludens – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Uma questão paira na peça “As Duas Mortes de Roger Casement”, da Cia. Ludens, em cartaz no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo: o grande diplomata e herói irlandês, além de ter batalhado pelos direitos humanos dos povos colonizados, também ia para a cama com rapazes dos países nos quais serviu?

A incômoda pergunta para alguns, sobretudo conservadores, traz em si mesma forte carga de preconceito. Fosse Roger Casement (1864-1916) heterossexual, a alguém se lhe ocorreria questionar se ele havia dormido com mulheres dos países onde passou? Ou seja, as relações homoafetivas do diplomata seriam motivo para que sua brilhante trajetória seja deixada em segundo plano em nome do mexerico?

A direção dedicada de Domingos Nunez, também autor da extensa dramaturgia de base documental, aborda estas delicadas questões a partir de dois olhares estéticos distintos na obra dividida em duas partes que contam as duas mortes de Casement: a execução pelo Reino Unido e aquela decretada pela opinião pública de sua época.

Na primeira parte, mais sisuda, o público vê Casement, que havia recebido o cobiçado título de “sir”, ser julgado e condenado à morte por traição ao Reino Unido, por lutar pela independência da Irlanda, após se condoer com a opressão de africanos e latino-americanos e perceber que seu povo não estava distante desta mesma condição de subjugo.

No meio das acusações, as insinuações sobre sua homossexualidade, contida nos “diários negros” (o nome é tão racista quanto a época na qual a história se passa), divulgados à revelia do acusado, estão presentes, mas ainda não são escancaradas.

Roger Casement foi morto pela Coroa e pela opinião pública - Foto: Divulgação

Roger Casement foi morto pela Coroa e pela opinião pública – Foto: Divulgação

Contudo, na segunda parte da peça, há uma grande virada estética. O comedimento inicial dá lugar a uma reconstrução estereotipada da homossexualidade de Casament, talvez como enxergada por seus detratores.

Os encontros sexuais do diplomata com homens africanos e latino-americanos passam a ser descritos com riqueza de detalhes (e de centímetros), para satisfazer àqueles infelizes ávidos pela intimidade alheia como forma de preencher o vazio de suas vidas.

A montagem traz elenco afinado, nos quais se destacam a sempre potente Amanda Acosta, como a inseparável companheira de luta pró-Irlanda de Casement, a poeta Alice Millingan (1865-1953). Afinada, a atriz faz belíssimos números musicais, acompanhada do piano preciso de Demian Pinto.

Na pele de Casement, Bruno Perillo está entregue ao controverso personagem. que vive o conflito de precisar esconder parte importante de si para ter uma vida social de respeito como homem público.

Ainda estão no palco Taiguara Nazareth, Kiko Pissolato, George Passos, Eliseu Paranhos, Chico Cardoso e Paulo Bordhin, todos envolvidos com a grande razão desta história ser contada: mostrar ao mundo que Roger Casement foi um grande homem, independentemente de suas predileções sexuais íntimas.

Se fosse personagem da história mais recente, talvez Roger Casement tivesse lutado não só contra a opressão de sua Irlanda e dos povos colonizados, mas também pelos direitos dos homossexuais e da liberdade para amar, que ele, infelizmente, não pôde exercer em plenitude.

Leia entrevista com Amanda Acosta

Diretor e ator falam de ”As Duas Mortes de Roger Casement”

“As Duas Mortes de Roger Casement” * * *
Avaliação: Bom
Quando:
 Quinta a sábado, 20h30, domingo, 19h. 120 min (com intervalo de 15 min). Até 9/10/2016
Onde: Teatro Aliança Francesa – Rua General Jardim, 182, Vila Buarque, metrô República, São Paulo, tel. 11 3572-2379
Quanto: R$ 50 (inteira)
Classificação etária: 14 anos

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