“Brigamos em cena, depois damos as mãos”, dizem Eva Wilma e Nicette Bruno

Eva Wilma e Nicette Bruno estrelam clássico no teatro - Foto: Daryan Dornelles

Eva Wilma e Nicette Bruno estrelam clássico no Teatro Porto Seguro – Foto: Daryan Dornelles

Por Miguel Arcanjo Prado

Duas grandes divas dividem o palco do Teatro Porto Seguro, em São Paulo, a partir do próximo fim de semana, na estreia mundial em teatro de uma história que hipnotizou o mundo em 1962 no cinema: Eva Wilma e Nicette Bruno protagonizam o espetáculo “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”.

Na obra inédita do norte-americano Henry Farel, assim como no filme estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, Eva e Nicette são duas irmãs atrizes que vivem em uma mansão caindo aos pedaços, já sem o sucesso do passado, onde gastam seus dias fazendo maldades uma a outra.

“Nós brigamos em cena, mas depois damos as mãos, nos abraçamos”, conta Nicette, reforçando que a rivalidade fica apenas no palco – ao contrário do filme, no qual Bette e Joan se odiavam também nos bastidores.

“Nos queremos muito, nos damos muito bem”, fala Nicette, ao que Eva, ao lado, acena com a cabeça, antes de dizer que, apesar de só terem atuado juntas no longínquo 1954, na peça “Lição de Botânica”, de Machado de Assis, no Theatro Municipal do Rio, “a amizade e o respeito” entre ambas sempre existiu.

Para Nicette, as irmãs Blanche, vivida por ela, e Baby Jane, papel de Eva, são “uma conjunção de amor e ódio”. “O amor fraterno entre ambas foi deturpado pelo pai”, complementa, lembrando que o pai preferia Baby Jane, a estrela mirim do velho casarão. “Nunca vi tanta maldade junta”, suspira Eva, referindo-se à família Hudson da peça.

Nicette Bruno é Blanche, Eva Wilma, Baby Jane - Foto: Daryan Dornelles

Irmãs rivais: Nicette Bruno é Blanche, Eva Wilma, Baby Jane – Foto: Daryan Dornelles

A história do cinema já serviu de inspiração para muitas montagens teatrais pelo mundo e no Brasil — em 2015 o filme inspirou a peça original “Hermanas Son las Tetas”, do argentino Juan Manuel Tellategui, com as atrizes Lauanda Varone e Liza Caetano, apresentada em São Paulo e no Festival de Teatro de Curitiba neste ano. Também serviu de base para inúmeros shows de travestis e drags, mas nunca havia sido adaptada antes, oficialmente, para o teatro.

Quando recebeu o convite da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, que assina a direção de um espetáculo não musical pela primeira vez, Eva Wilma disse que o considerou “atraente”, sobretudo quando soube que faria par com Nicette. “É um drama terrível, mas tem humor, então, tudo fica salvo”, define.

Como as duas personagens são atrizes também, Nicette conta que ambas estão em terreno próprio. Afinal, as duas foram casadas com atores consagrados (Nicette, com Paulo Goulart, e Eva com John Herbert e Carlos Zara), além de terem feito ambas carreira impecável tanto no teatro, no cinema quanto na TV, onde tornaram-se rostos populares e amadas em todo o Brasil.

A dedicação das duas faz os olhos de Möeller e Botelho brilharem. Möeller aproveita a deixa para revelar que, antes de a entrevista começar, as duas estavam batendo texto no camarim.

Botelho entra na conversa para ressaltar a importância de dois grandes nomes das artes cênicas contracenarem no palco, coisa rara em nosso teatro, segundo ele. “Os grandes nomes muitas vezes preferem monólogos. Por isso, o Brasil perdeu, por exemplo, de ter Marília Pêra e Fernanda Montenegro contracenando em um peça”, lembra.

Möeller conta que a relação com as veteranas é antiga e cercada de muito carinho. “Eva foi minha tia na novela ‘Mico Preto’. Já a Nicette e o Paulo Goulart me acolheram no Rio como se fosse da família”.

Botelho elogia suas atrizes e lamenta que a dedicação e o amor ao teatro pela geração de Eva e Nicette não sejam copiados pelos jovens atores da TV, que acreditam ser celebridades eternas sem terem estofo para tal. “Quem serão os artistas que hoje fazem ‘Malhação’ no futuro?”, alfineta.

Nicette Bruno e Eva Wilma fazem duas irmãs que se odeiam - Foto: Daryan Dornelles

Nicette Bruno e Eva Wilma fazem duas irmãs atrizes que se odeiam na peça – Foto: Daryan Dornelles

Questionadas pela reportagem como construíram uma carreira respeitada e duradoura e que em nada se assemelha ao ostracismo das irmãs Hudson que interpretam, Nicette responde: “Sempre acreditei no trabalho, na coragem, na pesquisa, na vontade de fazer. E no respeito ao outro, acima de tudo. Somos pessoas que respeitamos o nosso ofício, o teatro se faz coletivamente. Ninguém faz nada sozinho nesta vida”.

Ao que Eva complementa, para finalizar o papo: “Tive a sorte de ter grandes mestres e grandes projetos. E sempre tenho compromisso com quem me chama. Sempre tive uma postura muito profissional. Eu gosto de ser atriz”.

“O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 19h. 90 min. Até 30/10/2016
Onde: Teatro Porto Seguro – Al. Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 11 3226-7300
Quanto: R$ 25 (meia-entrada, balcão) a R$ 120
Classificação etária: 14 anos

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