Crítica: Na comédia Reino, Grupo Gattu renova teatro político com leveza, ironia e inteligência

Reino, do Grupo Gattu: discussão inteligente e bem humorada do Brasil no Teatro do Sol – Foto: Ary Brandi

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Muita gente por aí pensa que o teatro político precisa ser sisudo e enfadonho. Ou ter um certo ar de catequese, no qual pobres bons aprenderão que ricos são maus. Nada disso.

O espetáculo Reino, escrito e dirigido por Eloisa Vitz e encenado por seu Grupo Gattu, prova exatamente que o teatro político pode ser o contrário de tudo isso e, assim, bem mais potente em seu discurso:  é uma comédia política pop, que consegue ser leve, irônica e inteligente ao mesmo tempo. E nada inocente.

Primeiro texto assinado por Eloisa Vitz — que já escreveu Rapunzel e Frisante sob o pseudônimo Tito Sianini —, conta a história de uma rainha déspota que se sente ameaçada de perder seu poder. A arrogância com que trata os subalternos pode gerar a qualquer momento nos mesmos uma traição. Este é seu verdadeiro temor. Porque o povo ela sabe que já está domesticado.

Daniel Gonzales e Miriam Jardim – Foto: Ary Brandi

A premissa do texto serve para um desabafo da própria autora e seu grupo para o Brasil atual. Naquele reino longínquo os problemas são muito parecidos com os do nosso cotidiano, como a água que periga secar nas torneiras da maior cidade do País sem que nenhum governante assuma a responsabilidade. Ou a liquidação de cargos em Brasília por um apoio interesseiro e desavergonhado.

Diante de Reino, a gente ri muito, mas é de desespero, por tornar-se consciente de não ter por onde escapar. O Gattu, com seu teatro de poucos recursos financeiros, mas cheio de perspicácia, aclara tudo de forma desconcertante.

Num primeiro momento, a montagem pode até ter ares de teatro infantil, mas que o espectador não se confunda. Logo, a peça revela que sua complexidade vai bem além. É teatro mais do que adulto. Seu diálogo com a linguagem do infantil serve, inclusive, para mostrar como muitas vezes ainda somos crianças quando o assunto é evolução social. Quem sabe contando a nossa periclitante situação com ares de conto de fadas acordemos do mundo da fantasia no qual nos instalamos.

Como diz certa hora o texto: o rio fede e nem percebemos mais. Acostumamo-nos com o descaso, com as regras já dadas, em nossa passividade cotidiana. E quem está no poder tripudia do povo alienado — seja os da dita direita ou os da dita esquerda. Este é o grito do Gattu.

Em um palco praticamente desprovido de cenário e vestidos por Ana Fernandes, a produção foca no trabalho de seus atores o sustento da obra. E eles estão ali, presentes. Eloisa Vitz é atriz potente. Faz uma rainha que não titubeia e reina sobre a peça. Ela tem uma das vozes femininas mais bonitas do teatro paulistano; assim, ouvi-la é sempre um grande prazer. Além disso, sabe dar peso exato a cada palavra, coisa rara hoje em dia.

A autora e diretora de Reino, Eloisa Vitz – Foto: Ary Brandi

Outro achado no elenco é Marilia Goes, que se divide em variados papéis. A atriz tem frescor e um tempo para comédia evidente. Nas coreografias — sim, os personagens dançam muitas vezes, o que é ótimo — é a que baila com maior graça, sincronia e destreza.

Miriam Jardim faz o papel de uma espécie de escada para o humor da peça, como o assessor-capacho da rainha. Seu personagem serve até para cutucar a soberba da crítica de arte preguiçosa e pretensiosamente intelectualizada. Ainda completam o elenco em sintonia os atores Daniel Gonzales, Laura Vidotto e Victor Delboni, este substituindo temporariamente Mariana Fidelis, e a cantora lírica Gabriela Pastorin.

A peça é encenada no novo espaço aberto pela trupe, o Teatro do Sol, na zona norte paulistana. Charmoso e sofisticado como as melhores salas alternativas do teatro europeu, portenho ou nova-iorquino. A turma do Gattu tem bom gosto, demonstrado já no hall de entrada e confirmado nas poltronas vermelhas e confortáveis na qual recebe seu público e até no monumental espelho do banheiro.

Em Reino, o que Eloisa Vitz e o Grupo Gattu fazem é um grande desabafo. De quem quer fazer teatro neste País que pouco dá valor às artes. A peça renova o teatro político brasileiro, aproximando-o do grande público, aquele tanto necessita refletir. E compartilha com este o seu discurso, dando ao espectador o poder de decisão do final da obra. Ao descortinar as entranhas do poder com deboche, o Grupo Gattu mostra que é guerreiro, resistente e que não desistirá assim tão fácil.

Melhor para o teatro brasileiro e para todos nós.

Reino
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 20h. 75 min. Até 28/9/2014 com possibilidade de prorrogar
Onde: Teatro do Sol (r. Damiana da Cunha, 413, Santa Terezinha, Santana, São Paulo, tel. 0/xx/11 3791-2023)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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2 Resultados

  1. Rita de Cássia Góes de Lima disse:

    Esse grupo é muito bom, mesmo. Sigo-os desde a primeira peça e a Marília Góes sigo desde o tempo de faculdade, em vária peças. Ela é muito boa. Agora o Gattu está de parabéns e difícil falar de apenas 1, são todos muito, muito competentes!

  2. Phillipe disse:

    Ótima crítica para uma peça interessantíssima, de rara inteligência. Que o Brasil abra os olhos!

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