FIT Rio Preto mantém tradição de formar plateias do futuro com foco especial nas crianças

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial a São José do Rio Preto, São Paulo*
O Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto) celebra 57 anos de história em sua 24ª edição internacional de 16 a 25 de julho reafirmando sua vocação para formar novos públicos. E, para isso, nada melhor do que o teatro dedicado às crianças. Sob realização conjunta da Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto e Sesc São Paulo, o evento tem atrações gratuitas, o que atrai as famílias rio-pretense às peças.
A programação voltada às crianças no FIT Rio Preto traz um panorama vasto e heterogêneo de montagens locais, estaduais e nacionais, desafiando a percepção sensível das plateias mais jovens por meio de linguagens que vão do teatro de sombras e da palhaçaria até o teatro de animação e a dança contemporânea, além do teatro lambe-lambe.

O FIT Rio Preto 2026 abriga a segunda Mostra Internacional de Teatro Lambe-lambe (MIT) , com 20 peças selecionadas, vindas de cinco países: Brasil, Chile, Espanha, Argentina e Bulgária. Crianças e adultos ficaram impressionados com o teatro diminuto repleto de poesia dentro de verdadeiras caixas mágicas.
Além disso, a programação oficial conta com vários espetáculos dedicados à infância. A cena sulista se faz presente com a Téspis Cia. de Teatro, de Itajaí (SC), em A Maravilhosa Princesa das Bolinhas, espetáculo sem palavras concebido por Hedra Rockenbach e Max Reinert e inspirado na poética visual da artista plástica japonesa Yayoi Kusama. Nele, a atriz Denise da Luz interage com sombras, luz negra e projeções digitais criadas por inteligência artificial, conduzindo a criança à apreciação da abstração sem amarras narrativas tradicionais. Vindo de Fortaleza (CE), o premiado Teatro Máquina apresenta Alie e as Estrelas, montagem adaptada e dirigida por Fran Teixeira a partir da obra O Plano Secreto de Alie. Utilizando a delicadeza do teatro de sombras e de bonecos de balcão assinados por Cristiano Castro, a peça acompanha a jornada de uma garota que se engaja em um plano misterioso voltado ao céu noturno quando as luzes da cidade se apagam, propondo uma meditação poética sobre a descoberta da amizade e o silêncio urbano. Do Ceará vem também a performance Bicho Alumbroso nas Entranhas do Encanto, criada e dirigida por Chico Henrique para a Trupe Motim de Teatro (Quixeré / CE), que acompanha um ser encantado híbrido de figuras do folclore nordestino em busca de suas origens, estimulando a imaginação lírica dos pequenos através da música e do teatro de animação.

A produção local de São José do Rio Preto marca presença firme com montagens que exploram a pesquisa de linguagem, a reflexão comunitária e o espaço urbano. A Cia. Alpendre estreia nos espaços públicos da cidade com O Sonho de Ícaro, releitura da mitologia grega sob a ótica da palhaçaria e do circo de rua, na qual quatro palhaços precisam improvisar a encenação do mito entre a construção de labirintos e a tentativa de voar com asas artesanais. Também de Rio Preto, a histórica Companhia Azul Celeste apresenta TÔ FRACO, TÔ FRACO!, com dramaturgia e direção de Jorge Vermelho, ambientada no universo simbólico de um galinheiro para discutir empatia, alteridade e convivência em comunidade. Do mesmo modo, o Grupo MONO & Agrupamento de Artistas (Rio Preto) assina O Segredo do Rei e Entre Causos e Lendas, unindo duas narrativas que transformam uma divertida fofoca de reino em uma aventura repleta de humor que resgata a tradição da narrativa oral popular. Igualmente rio-pretense, a Ciacômica Teatro de Bonecos traz Ciranda de Bonecos, que recorre à secular técnica japonesa do Bunraku — com manipuladores vestidos integralmente de preto — para dar vida a figuras animadas ao som de cantigas e parlendas, expondo a beleza do artifício cênico.

Completando o painel curatorial, o festival acolhe montagens do Distrito Federal e de Minas Gerais que expandem os limites da cena infantil. Vinda de Brasília (DF), a Cia. Os Buriti — Teatro de Dança apresenta À Beira do Sol, sob direção de Naira Carneiro e Duda Rios, fusão entre dança e teatro em que a personagem Arian (vivida em solo por Naira Carneiro) recebe a missão de vigiar o Sol para que ele não se pouse e o mundo não perca suas manhãs, adotando a movimentação cênica e uma grande lona tecido-cenográfica como condutores primordiais do drama. De Minas Gerais vêm duas relevantes produções: o Coletivo Onã (Sete Lagoas / MG) apresenta Onã, espetáculo que cruza lendas da tradição oral brasileira e elementos do cotidiano urbano para construir uma caminhada cênica evocando ancestralidade e identidade; e a Lazúli Cultura (Belo Horizonte / MG) traz Proncovô, show poético-musical protagonizado por Laura de Castro e Zé Motta, com direção e dramaturgia de Eduardo Moreira e direção musical de Sérgio Pererê, que homenageia a arte mambembe e o espírito andarilho do artista popular nas praças e logradouros públicos.
Ao colocar a criança como prioridade, o FIT Rio Preto não apenas prepara as plateias do amanhã, mas aguça a sensibilidade e a visão poética nos atuais pequeninos.
*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do FIT Rio Preto.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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