Entrevista com Gustavo Gasparani: ‘Tudo surgiu do desejo do ator’ – Por Claudia Chaves

O diretor artístico Gustavo Gasparani celebra sucesso de Fafá de Belém, O Musical © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Por CLAUDIA CHAVES
Especial para Blog do Arcanjo
Do Rio de Janeiro

Há mais de quatro décadas, o carioca Gustavo Gasparani, 59 anos, constrói uma obra em que atuação, dramaturgia e direção são diferentes expressões de um mesmo gesto criativo. Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo feita pela colunista Claudia Chaves, ele fala sobre processo, criação e a delicada relação entre produção e condução artística.

Há artistas que constroem uma carreira. Outros constroem uma linguagem. Gustavo Gasparani pertence ao segundo grupo. Sua trajetória desenha um caminho singular, em que atuação, dramaturgia e direção deixaram de ser funções distintas para se tornarem diferentes manifestações de um mesmo impulso criativo. Em sua obra, o ator nunca desaparece. É dele que nasce o autor; é dele que surge o diretor.

Integrante da histórica Companhia dos Atores, o artista consolidou uma pesquisa artística marcada pelo diálogo entre o teatro, a música e a cultura brasileira. Seus espetáculos percorrem o samba, a literatura, a música sertaneja, os grandes clássicos e personagens históricos sem perder de vista uma brasilidade construída pela memória, pela oralidade e pelo afeto. Como diretor, esteve à frente de shows e musicais com Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Emílio Santiago e a Velha Guarda da Portela.

Atualmente, dirigiu e escreveu dois musicais de sucesso: Espelho Mágico, sobre os 60 anos da Globo, e Fafá de BelémO Musical, que faz últimas sessões no Teatro Claro Mais SP, além de voltar com o premiado monólogo Como Posso Não Ser Montgomery Clift?, sobre o grande astro de Hollywood, em cartaz no Rio no Teatro Laura Alvim em Ipanema. Nesta conversa, ele fala sobre o desejo que o levou ao teatro, o nascimento do autor e do diretor e sua visão sobre criação e condução artística.

Em que momento o desejo de ser ator deixou de ser uma brincadeira e passou a fazer parte da sua vida?

Eu sabia desde muito cedo que queria ser ator. Fiz teatro dos três aos dez anos e levava aquilo muito a sério. Quando assisti a Os Saltimbancos, fiquei completamente apaixonado. Como não existia o texto da peça, fui para casa e escrevi tudo ouvindo o LP para que a gente pudesse montá-la na escola. Acho que ali já dava para perceber o tamanho dessa paixão. Nunca mais parei. No ano que vem completo 45 anos de carreira e continuo me vendo, antes de tudo, como ator.

Jô Santana, Fafá de Belém e Gustavo Gasparani no lançamento de Fafá de Belém, O Musical © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Você costuma dizer que tudo nasceu do ator. Ainda hoje é ele quem conduz as suas escolhas criativas?

Sem dúvida. Tudo surgiu do desejo do ator. Eu queria escolher os personagens que iria fazer e não ficar esperando o mercado dizer o que eu podia ou não interpretar. Foi assim que fiz Édipo, Ricardo III, Iago e tantos outros personagens. O ator continua sendo o lugar de onde tudo nasce. É ele quem move as minhas escolhas e alimenta essa vontade permanente de criar.

O autor nasceu para responder a uma necessidade do ator ou a um desejo de criação?

O autor nasceu do desejo do ator. Comecei a escrever peças para trabalhar como ator, criando os personagens e o teatro que queria fazer. Durante muito tempo resisti em me ver como autor, mas não deu. Aos poucos fui entendendo que escrever fazia parte da minha maneira de criar. Hoje ator e autor caminham juntos.

Gustavo Gasparani no lançamento de Fafá de Belém, O Musical © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2025

Em que momento você percebeu que contar uma história também passava pela direção?

A direção veio naturalmente. Primeiro dirigindo shows e grandes eventos musicais. Depois comecei a dirigir as peças que escrevia. Não foi uma mudança de rumo, foi consequência do processo. O diretor é um pouco o engenheiro da parada. É ele quem organiza a encenação. Hoje continuo fazendo as três funções, inspirado pelos mestres que tive, como Amir Haddad, Sérgio Britto, Rubens Corrêa e Miguel Falabella.

Toda criação tem um ponto de partida. Como nasce um espetáculo para você?

Cada espetáculo nasce de um jeito. Às vezes começa por um personagem, outras por uma imagem, um tema ou uma lembrança. Bem Sertanejo nasceu das minhas memórias da infância, conversando com as vacas e os bois no pasto. O teatro é a arte do encontro. Gosto de acompanhar a ideia desde o nascimento e ouvir os atores e todos os criativos. O processo precisa ser prazeroso, amoroso e criativo.

Você já acumulou as funções de ator, autor e diretor. É possível separar essas vozes durante a criação?

É difícil, principalmente para o ator. O diretor precisa resolver tudo, é um lugar mais racional. O ator precisa estar num lugar mais abstrato, mais da ordem do inconsciente. Quando as duas funções se misturam, o ator pode acabar sacrificado. Por isso, sempre que possível, gosto de dividir esse processo e preservar o espaço de cada função.

O ator e diretor Gustavo Gasparani no camarim de Julius Caesar – Vidas Paralelas com a Companhia dos Atores © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2024

Quando um projeto nasce de um convite de um produtor, onde termina a produção e começa a condução artística da obra?

O produtor pode me chamar para desenvolver um tema ou uma ideia. Quando aquilo tem a ver comigo, eu topo, desde que tenha liberdade para desenvolver do jeito que eu quiser. O produtor cuida da viabilização financeira e da produção. Toda a parte artística fica sob a minha condução. Claro que existe diálogo com o produtor, os atores, o figurinista e toda a equipe criativa. Mas quem define a linguagem, cria as cenas, faz as marcações e conduz artisticamente o espetáculo sou eu.

Gustavo Gasparani recebe o Prêmio APCA de melhor ator de teatro por Ricardo III – Foto: Roberto Ikeda/Divulgação Arquivo Blog do Arcanjo

Hoje a produção artística aparece cada vez mais nas fichas técnicas. Como você enxerga essa função?

A produção artística é muito importante porque acompanha o processo e faz a ponte entre a criação e a realização do espetáculo. É um trabalho de diálogo permanente e de organização. Mas a condução artística continua sendo da direção. Cada função tem seu lugar, e o teatro acontece quando todas trabalham em sintonia.

Depois de tantos anos de teatro, o que continua fazendo você entrar numa sala de ensaio com o mesmo entusiasmo?

Hoje o que mais me dá prazer é escrever, dirigir ou atuar. Mas o mais bonito é quando acompanho uma ideia desde o nascimento. O teatro é a arte do encontro. Já que estamos fazendo teatro, que seja um processo prazeroso, amoroso e criativo.

A jornalista Claudia Chaves escreve sobre o melhor do teatro no Rio de Janeiro com um olhar perspicaz sobre a cidade e seus artistas © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2025

*CLAUDIA CHAVES escreve sobre a cultura e o teatro do Rio de Janeiro (e ocasionalmente de outros lugares) para Miguel Arcanjo. Carioca da gema, é doutora em Letras pela PUC-Rio, jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, doutora em Literatura, bacharel em Direito, curadora, gestora cultural e de marcas. Atua como crítica de teatro e colunista cultural em veículos como Veja Rio, Lu Lacerda, Miguel Arcanjo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário do Rio. Siga @claudiachavesdosaber e também leia as colunas de Claudia Chaves.
E-mail: [email protected]

Siga @miguel.arcanjo

Fazer jornalismo cultural de qualidade é nossa missão e seu apoio é importante! Se desejar apoiar, você pode contribuir em nossa chave pix: [email protected]
Compartilhe e nos siga nas redes sociais.

Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
© Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado 2026 | Todos os direitos reservados.

Editado por Miguel Arcanjo Prado

Avaliações críticas:
★ Fraco
★★ Regular
★★★ Bom
★★★★ Muito Bom
★★★★★ Excelente

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *