Por trás do pano, por Claudia Chaves: o melhor do teatro no Rio de Janeiro

Drica Moraes está em Inter Alia, nova peça de Suzie Miller, mesma autora do sucesso Prima Facie © Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por CLAUDIA CHAVES
Especial para Blog do Arcanjo
Do Rio de Janeiro

Noites coloridas

Existe uma regra não escrita no Cabaré do Gláucio: se você sair sem rir, cantarolar uma música ou comentar alguma cena no caminho para casa, alguma coisa deu errado. Idealizado por Rafael Raposo durante a reforma do Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, o projeto transformou um espaço do teatro em um charmoso cabaré. A cada mês, um diretor diferente assume o comando da noite, sempre com um tema novo, humor afiado, ótimas atuações e uma banda que faz bonito do começo ao fim. É uma daquelas ideias simples que a cidade precisava e nem sabia.

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Em Traviarcado Cabaré, ninguém passa despercebido. Idealizado por Rafael Raposo e dirigido por Renata Carvalho, o espetáculo reúne um elenco inteiramente trans em uma explosão de música, humor e irreverência. Os luxuosos figurinos de Wanderley Gomes merecem aplausos próprios — tem brilho, glamour e até casaco de pele. Tudo isso em um show que celebra a diversidade sem perder a leveza e a diversão. E o Cabaré do Gláucio segue surpreendendo: em agosto, até Nelson Rodrigues vai trocar o sofá da zona norte pelas luzes do cabaré, sob a direção de João Fonseca. Arrasa!!!!

Sucesso à vista

Vem aí um daqueles espetáculos destinados a sacudir o teatro brasileiro de Oiapoque ao Chuí. “Inter Alia”, nova peça de Suzie Miller, a mesma autora do fenômeno “Prima Facie”, já está em processo de ensaios e estreia no dia 24 de julho . Os produtores Luciano Borges, Edson Fieschi e Diogo Bastos — um trio de rara coragem artística — voltam a apostar em um texto contemporâneo potente, capaz de provocar reflexão e debate muito além dos limites do palco.Com direção de Rodrigo Portella e protagonismo de Drica Moraes, Caco Ciocler Caio Passos, a peça é da aquelas histórias que não terminam quando as cortinas se fecham, mas continuam ecoando nas conversas de bar, nos grupos de amigos e nas mesas de jantar. Há muito pano para manga — e eu já estou louca para acompanhar cada ponto dessa costura.

Rainha virou fã

Na estreia de Victor ou Victória, com Miguel Falabella, Junno Andrade e Maria Clara Gueiros no palco, a plateia lotada se dividia entre a pipoca, o espumante e as gargalhadas. Mas uma pessoa ria mais do que todas as outras juntas, divertindo-se com cada piada, cada insinuação e até os palavrões. No meio do espetáculo, ouviu-se um sonoro “Lindo!” seguido de palmas entusiasmadas. Com a maior discrição possível, virei-me para descobrir quem era a fã tão apaixonada: ninguém menos que Xuxa Meneghel, assistindo ao marido, Junno Andrade. Há muitas definições para o amor, mas naquela noite ele estava sentado na plateia.

Beleza ou maldição?

Em julho, volta aos palcos cariocas Como Posso Não Ser Montgomery Clift?, com atuação de Gustavo Gasparani e direção de Fernando Philbert. Clift — cujo sobrenome significa “penhasco” em inglês — viveu sempre à beira de algum abismo. Gasparani encarna um Monty fragmentado, apresentado ao público como pedaços de um espelho quebrado que aos poucos revelam um retrato fascinante e doloroso. Considerado um dos homens mais bonitos de Hollywood nos anos 1950, Montgomery Clift teve o rosto marcado por cicatrizes após um grave acidente. É justamente essa beleza ferida que conduz o texto do premiado dramaturgo espanhol Alberto Conejero López, inédito no Brasil. Afinal, a beleza, como toda qualidade em excesso, também pode ser uma maldição.

Coisas de Nelson

Nelson Rodrigues está de volta ao Teatro Gláucio Gill com um elenco de peso: Eduardo Sterblitch, André Mattos, Luisa Arraes, Ernani Moraes e Edson Celulari, sob direção de Marco André Nunes. Em O Beijo no Asfalto, Nelson faz o que sabe melhor: desmonta a hipocrisia social. A peça é um ataque feroz ao sensacionalismo da imprensa, mas também guarda uma de suas mais belas histórias de amor e compaixão. Mais de 60 anos depois, continua desconfortavelmente atual. Nelson nunca foi para os fracos — e essa é uma ótima notícia para o teatro.

Estrela do humor

Flávia Reis é daquelas atrizes raras que dominam a comédia com precisão cirúrgica, um tempo cômico impecável e uma impressionante capacidade de transformação. Em “Super Ela”, que retorna aos palcos do Teatro I Love PRIO para curta temporada, a artista mistura humor ácido, crítica social e palhaçaria para dar vida a uma heroína tão divertida quanto provocadora. Com direção de Álvaro Assad, o solo confirma o talento de Flávia para transitar entre o riso e a reflexão, sempre com enorme carisma e inteligência cênica. Gargalhadas sem parar!

Maldita em Ipanema

“Maldita” volta em curta temporada , no teatro Ipanema, reafirmando aquilo que muitos espectadores já perceberam: trata-se de uma das mais inventivas releituras da Trilogia Tebana — a saga de Édipo e seus descendentes — já vistas nos palcos brasileiros.  A produção da Cia. Cerne de São João de Meriti, mistura cabaré, chanchada, teatro de revista e cultura drag, o espetáculo transforma a tragédia grega em uma celebração irreverente, inteligente e profundamente popular. Com interpretações afiadíssimas, humor corrosivo e uma energia contagiante, a montagem coleciona prêmios e aplausos. Se não foi o melhor espetáculo de 2025, certamente está entre os mais marcantes do ano. E ainda prova que talento se constrói com estudo, disciplina e formação — justamente onde muitos insistem em não enxergá-lo. Como diria Emília, do Sítio do Picapau Amarelo: “Tome, papudo!”

A jornalista Claudia Chaves escreve sobre o melhor dos palcos e do próprio Rio de Janeiro © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2025

*CLAUDIA CHAVES escreve sobre a cultura e o teatro do Rio de Janeiro (e ocasionalmente de outros lugares) para Miguel Arcanjo. Carioca da gema, é doutora em Letras pela PUC-Rio, jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, doutora em Literatura, bacharel em Direito, curadora, gestora cultural e de marcas. Atua como crítica de teatro e colunista cultural em veículos como Veja Rio, Lu Lacerda, Miguel Arcanjo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário do Rio. Siga @claudiachavesdosaber e também leia as colunas de Claudia Chaves.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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