FIT Rio Preto cria pontes com Palestina, México e Chile em suas peças internacionais

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial a São José do Rio Preto a convite do FIT Rio Preto
Há algo de especial na forma como São José do Rio Preto acolhe o teatro do mundo, o que torna a própria cidade um espaço cosmopolita para as artes. No município do interior paulista cuja vocação comercial e agrícola costuma ditar o ritmo, o mês de julho impõe uma pausa diferente. Ao longo de dez dias, os espaços urbanos deixam de ser apenas cenários da rotina para se tornarem zonas temporárias de trânsito poético existencial. No marco de seus 57 anos e da 24ª edição internacional, o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto) reafirma em 2026 sua vocação de criador de pontes geografias para experiências humanas diversas.
Fruto da vontade de reencontro institucional entre a Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto e o Sesc São Paulo, o evento desdobra-se em 32 espetáculos totalmente gratuitos, articulando produções de oito estados brasileiros, mas também com propostas cênicas vindas do México, do Chile e, de forma inédita e histórica, da Palestina, atualmente sob guerra e domínio de Israel.
A presença do trabalho palestino Khalil Khalil estabelece o eixo mais denso dessa malha internacional. O artista Khalil Albatran carrega no próprio nome o vestígio de uma ausência: batizado em homenagem ao irmão morto durante os eventos da Primeira Intifada, Albatran cresceu sob a projeção silenciosa de uma família que enxergava em sua existência o prosseguimento de uma narrativa bruscamente interrompida. No palco, contudo, a montagem recusa o caminho do mero manifesto político para adentrar os meandros mais delicados da dor e da construção da individualidade.
Através da fusão entre a dança contemporânea e a sonoridade tradicional, o espetáculo investiga até que ponto o corpo humano é capaz de sustentar o peso do luto familiar sem renunciar ao direito da própria voz. É uma exploração sobre as fronteiras invisíveis entre o destino herdado e o caminho escolhido, onde a ancestralidade deixa de ser uma armadura estática para se tornar movimento e indagação contínua.
Se o drama palestino tenciona a memória através do ritmo corporal, as demais atrações internacionais apostam na gramática da imagem e na universalidade do gesto para construir suas travessias.

O artista mexicano Aziz Gual, em De Risa en Risa, resgata a tradição ancestral do clown e do circo para realizar uma anatomia do cômico. Dispensando a palavra articulada, Gual articula um espetáculo baseado no rigor da manipulação de objetos, no equilíbrio e na interação imediata com o espectador.
O riso que emerge de sua atuação não é o entretenimento passageiro, mas uma forma sofisticada de comunicação pré-verbal. Ao transitar entre estados emocionais contrastantes com o auxílio da música ao vivo, a performance expõe a vulnerabilidade humana com a precisão mecânica e a delicadeza terna que apenas os grandes mestres do circo conseguem dominar.
Paralelamente, a companhia La Llave Maestra, fundada em Pamplona, na Espanha, em 2010, e radicada no Chile desde 2013, traz a São José do Rio Preto uma linguagem em que a matéria inanimada ganha contornos orgânicos. Em El Carnaval de los Animales, o grupo utiliza máscaras, sombras e artes visuais para reimaginar a famosa obra do compositor francês Camille Saint-Saëns.
A montagem desdobra o palco em um ecossistema plástico. Elefantes, baleias, tartarugas e criaturas fantásticas emergem não de figurinos realistas, mas da dobra precisa de tecidos, do jogo de luzes e da manipulação sutil de objetos cotidianos. Sem recorrer a diálogos, a produção articula uma meditação poética sobre a fragilidade dos ecossistemas e o vínculo primordial que une a experiência humana ao reino natural.
As criações da Palestina, do México e do Chile dialogam com a diversidade da produção nacional presente no festival. A gratuitidade irrestrita das apresentações e o espalhamento das atrações por parques, praças e centros comunitários transformam a reflexão sobre identidade, pertencimento e violência em uma vivência compartilhada por toda a comunidade rio-pretense, renovando a importância de seu FIT Rio Preto.
Ao conectar a complexidade geopolítica do Oriente Médio ao humor refinado da tradição circense mexicana e à delicadeza do teatro de formas animadas chileno, o FIT Rio Preto reafirma que o teatro, em sua essência mais pura, continua sendo a ferramenta mais eficaz para encurtar as distâncias do mapa e expandir os limites da nossa própria empatia.
Veja a cobertura do FIT Rio Preto por Miguel Arcanjo!
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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