Arte drag curitibana conquista Brasil com Moulin Drag na DragCon e Cabaré Combo Drag Week no Festival de Curitiba

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por FELIPE GUIGUEL
Do Eu Amo Curitiba

Especial para o Blog do Arcanjo

Com 7 indicações ao Gralha Azul, Juana Profunda apresentou no dia 05 de Junho o espetáculo Moulin Drag na primeira DragCon Brasil, evento promovido pela drag internacional RuPaul. Em clima de mês LGBTQI+ e muita arte, aproveito então para apresentar ao público a análise de Cabaré Combo Drag Week, exibido no maior Festival de Teatro da América Latina em Curitiba, no qual possui Moulin Drag como parte de seu espetáculo e, assim, vocês terem um gosto da arte drag curitibana que ganha cada vez mais projeção nacional.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

O espetáculo “Combo Drag Week” se inicia com uma abertura opulente e diversificada, construída como uma marcha de exército. A cena inicial já estabelece um tom grandioso, coletivo e visualmente impactante, com a presença de 18 drags em cena, todas participantes da Marcha das Mil Drags. Para além de drags de vários estilos também havia performistas, dançarinos, e artistas burlesque.

Arte drag de Curitiba está conquistando cada vez mais o Brasil com performances arrebatadoras © Polly Devides Blog do Arcanjo 2026

Depois vem Juana assumindo o palco em uma apresentação que remete às linguagens semióticas e objetivas de um programa de televisão, e também de circo (bases justamente dos programas de auditório) trazendo um tom mais cômico e interativo, em um palco italiano.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Este palco é do Guairinha, do complexo cultural do Teatro Guaíra, onde, ao mesmo tempo, estava sendo exibida a primeira sessão de Dois Papas. Dois Palcos. Em um, havia um grupo social que usa da arte como ferramenta de luta pelos seus direitos, em outro, a representação simbólica da passagem de bastão para um dos líderes religiosos que mais enfrentaram ideias ultrapassadas da igreja.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Na sequência da apresentação de Juana, há a integração da plateia, com o ensino da “marcha das mil drags”, criando um momento de participação coletiva e engajamento do público. Mas muito mais do que isso, um prelúdio de Juana sobre a participação de artistas drags no Carnaval de Curitiba. Juana faz assim uma dinâmica de didática para um novo público que veio não pelos meios de comunicação oriundos dos próprios da comunidade, mas da estrutura de divulgação do próprio Festival de Curitiba na Mostra Lúcia Camargo que atinge pessoas novas. Inteligentemente então Juana apresenta para esse novo público não apenas o universo drag, mas a presença dele em espaços que vão além daquele inicialmente proposto pelo teatro. Assim, quando chegar o Carnaval, as pessoas que se alimentam do Festival de Curitiba e foram na peça olhem para a Marcha das 1000 Drags e reconheçam: aqui tem artistas drags batendo leque.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Após esse momento de didática, cultura e inteligência estratégica pra gerar presença na mente das pessoas, inicia o bloco que com certeza não sairá da mente das pessoas da plateia: o burlesque. Burlesque Extravaganza é o nome dado a este bloco composto por 3 artistas: primeiro vem Giorgia marcando o início do bloco. Surge com uma performance burlesca fortemente marcada, representada como uma flor dançante que surge da plateia na primeira música e na segunda, em espanhol, esta foi desabrocha o palco representada pelos movimentos de dança da artista. A reação da plateia se divide entre o choque pela exposição do corpo e a animação. Certamente para muitos ali, o contato com o burlesque está sendo inédito.

Após a performance, Juana retorna com interações e brincadeiras, entrevistando Giorgia e mantendo o tom híbrido entre espetáculo de teatro e programa de auditório.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Ruby Hoo vem em seguida, e a plateia mal podia imaginar o que estava por vir. Apresenta um número em que desloca o foco do corpo para a mente: o que brilha não é uma bunda bonita, é o universo criativo da cabeça. Mas antes, para gerar esse desfoque da matéria, ela começa com o clássico burlesque, refinado, com muita consciência corporal sobre as poses e luzes que favorece sua silhueta e beleza natural dentro da proposta clássica do burlesque com jogadas de luvas e sutiãs. A iluminação é concebida pela própria artista, reforçando a proposta cada vez mais sobre a beleza do corpo, a silhueta, a ponto de ter uma luz direcionada apenas ao traseiro dela. Então, está concebida a exposição da matéria que o burlesque se propõe. E nessa exposição do corpo muitas pessoas novamente claramente se vêem em choque. Mas logo em seguida ela quebra o conceito estabelecido do burlesque, burlando a própria arte que destaca o corpo para transitar a uma atmosfera espacial, e assim com luzes concentradas na cabeça reveladas após ela tirar a peruca e exibir uma espécie de globo de ouro que circundava o formato da cabeça e com 3 spots de luzes direcionadas a ela, o brilho se refletia para o teatro inteiro. Criou-se assim o desfoco total do que se havia inicialmente concebido como burlesque pela plateia, e esta passa a enxergar tudo escuro, com pontos de luzes espalhados pelas paredes do teatro, plateia, teto, em todo lugar. Ruby transformou o teatro em um planetário por alguns minutos, mas o universo que a plateia enxergava era da mente de artistas. Essa segunda parte se torna menos marcante e mais contemplativa, assumindo um caráter de “viagem intergalática”. E por minutos o teatro fica escuro a ponto de não conseguir enxergar com precisão o corpo da artista, a única coisa que reluzia era o brilho de sua mente criativa ao conceber aquela performance. Foi aplaudida de pé por muitos mesmo enquanto ela performou, pois muitos não conseguiram conter a emoção gerada pela contemplação de um espaço sideral criado no teatro. Para os que conhecem Rupaul Drag Race, como este momento com a apoteose do reveal de Sasha Velour no final da 9º temporada, ao revelar suas pétalas de rosas. Bravo!

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Após o número, Ruby realiza uma fala pedagógica, ensinando a plateia sobre como apreciar o burlesco, participando, se envolvendo e agradecendo o calor da plateia! Neste momento a voz da artista se apresenta embargada, fortes emoções passam dentro daquele universo mental. É bom saber que nunca será esquecida por quem a assistiu. Nunca será, pois as mesmas pessoas que antes se mostram “chocadas” com o primeiro burlesque, totalmente clássico, agora estavam ali emocionadas e totalmente abertas para o novo e para as coisas belas que esse novo universo pode trazer. Ela sabe disso, e levou a plateia a uma viagem que pode mudar muitos.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

E dada a largada na viagem, Anita Malcher vem com um burlesco com estética de cruzeiro, no qual a artista propõe uma lógica de troca direta com o público: “pague a artista com aplausos”, retirando mais peças conforme a resposta da plateia vinha nessa interação cena-aplausos. O número, marcado por brilhos e joias, gera encantamento agora numa plateia 100% aberta e encantada. Como ali é o primeiro contato de muitos com burlesco, com eles tem contato com o alto nível de sofisticação do burlesque clássico, dentro dos padrões de performances encontradas em shows de cruzeiros, cassinos e casas europeias. Mas destaco aqui a brasilidade desta artista: ela é de Belém do Paraná e escolheu Curitiba pra ser seu novo lar, principalmente pela cena drag e burlesque local emergente e provocado por Juana Profunda, que atrai artistas do país inteiro para fazer arte em Curitiba. Juana então retorna novamente para uma entrevista com Anita, encerrando o bloco burlesco.

Após o bloco burlesque é apresentada à plateia uma das maiores Drags da atualidade no Brasil, quando o assunto é viver exclusivamente de criação própria na arte drag: Miranda. Participante do RuPauls Drag Race Brasil e Global All Stars Rupaul’ s Drag Race, ela é uma drag carioca que viaja o mundo realizando performances em casas cheias, e pela primeira vez pisa seus saltos em palcos curitibanos. Entra sem microfone, vindo da plateia projetando sua voz já numa atuação que segue para um monólogo humorístico. Roteiro, fala decorada, consciência corporal e drag entregando humor ao brincar com interpretações equivocadas sobre a arte drag e do burlesco, principalmente quando se diz respeito à exposição do corpo. Em determinado momento, afirma: “todo mundo tem”. Reforça assim a ideia expressada por Ruby Hoo em sua performance. Para que se chocar com uma parte do corpo que todo mundo tem? Pois o corpo é apenas o instrumento daquele universo mental pra fazer arte. Miranda faz também de forma recorrente, e na medida certa sem ficar cansativa, uma brincadeira com a plateia com os aplausos, reforçando a ideia de que drag e burlesco, ambos gostam de aclamação.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

A partir daí, inicia-se uma nova parte do espetáculo, com referência ao Moulin Rouge, chamado de Moulin Drag. Não dá pra comentar muito sobre a estrutura narrativa geral do Moulin Drag, ou trazer uma análise completa, pois o que foi apresentado no Festival foi uma pílula de algumas cenas do espetáculo criado por Juana em 2024. Mas trago destaques aqui, principalmente no sentido da didática para um novo público sobre as “quebras de regras” que a arte drag se constitui. Uma delas: a dublagem. Diferente de uma peça de teatro, os personagens não estavam dizendo suas falas, estavam apenas movendo os lábios em uma dublagem sincronizada com uma gravação da voz dos próprios artistas. Ali havia todo um corpo de atores e atrizes em atuação, com o uso do rosto, figurinos, expressões corporais, explorando seus planos, aquilo que estamos acostumados em uma atuação de teatro, exceto a voz ao vivo. Em mas de uma fala há brincadeiras com essa característica de se estar fazendo lip-sync numa peça de teatro para assumir essa característica como ferramenta narrativa. Então no fim, após apresentar essa característica do universo drag, Juana escolhe uma cena de Moulin Drag que explora ela como um recurso narrativo que pode ser usado no teatro de diversas formas a depender da dramaturgia e direção. E com cenas de Moulin Drag há a didática não apenas da dublagem do universo drag, mas que este universo pode agregar em diversas formas o fazer a arte no teatro.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Na sequência, Juana, que conduziu as “pílulas” de Combo Drag Week como um programa de auditório, agora abre o quadro inspirado no programa da Hebe, com participação de Carmen von Blue e Miranda como entrevistadas. Agora com a plateia já acostumada com a Juana apresentar, chegou o momento em que a apresentação de Juana se torna o próprio destaque do espetáculo. Assumindo assim o encerramento da noite com um programa de auditório com direito à perguntas da plateia e um show feito por ela mesma da arte burlesque.

Arte drag curitibana conquista o Brasil com Moulin Drag na DragCon Brasil e Cabaré Drag Combo Week no Festival de Curitiba © Matteo Gualda Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Por fim, o espetáculo Cabaré Combo Drag Week encerra reforçando a característica existencial da arte drag dentro de uma comunidade muito atacada socialmente com suposições e preconceitos. Mais do que a arte drag ser atacada e a arte burlesca receber julgamentos, há toda uma população global de pessoas que tem a sua própria existência ameaçada por estes ataques e julgamentos, e que por conta dessa ameaça existencial veem na arte drag e no burlesco o refúgio que a cultura e os conhecimentos intelectuais do “fazer arte” proporcionam a vidas que são constantemente ameaçadas. Esse reforço da existência de toda uma diversidade de pessoas e sexualidade vem com a música Sujeito de Sorte, de Belchior, e com o canto coletivo nos aplausos da música Dê Um Rolê de Gal Costa, com ênfase na frase “Eu sou amor da cabeça aos pés” gritado em coro pelo elenco e plateia.

Finalizo essa análise então destacando o quanto a arte drag de Curitiba está em efervescência e com potencial crescimento nacional, com Juana Profunda demonstrando no Festival de Curitiba e na DragCon Brasil que arte drag vai muito além de Drag Queen e dos conceitos aplicados a ela por pessoas que pouco tem contato com essa arte. Com Cabaré Combo Drag Week, Juana Profunda mostra que existem não apenas muitas pessoas fazendo arte drag em Curitiba, mas que elas são diversas e vindas de todos os estados do país e de outros países do mundo. Que essas pessoas que escolheram Curitiba para ser seu ateliê drag são pessoas que estão brilhando com essa arte no Carnaval, na Combo Drag Week e em espetáculos de teatro, como Moulin Drag. RuPaul, globalmente, é um artista que retirou as drags do underground e trouxe pro universo mainstream, pop. altamente lucrativo e atrativo comercialmente dentro da dinâmica cultural internacional. Este trabalho de trazer uma nova perspectiva para artistas drags está sendo feito por Juana no Festival de Curitiba e na Drag Con ao incluírem em suas mostras principais este espetáculo curitibano, trazendo novas perspectivas de ideias e criações para um público que só teve contato com performances drags pela tv, cinema e alguns comerciais de tv. Fazendo o que Juana fez dentro dessa hora e meia de espetáculo, fica clara a possibilidade na mente de muitos artistas que uma programação semanal de arte drag possa ser incluída não só no Festival de Curitiba, como também em outras cidades do país, para que aquilo que vimos de um universo criativo possa ser explorado com maior profundidade, cadência, contemplação e estudo intelectual assim como ocorre na semana em que ocorre o próprio Combo Drag Week. Que o público das artes abrace cada vez mais esse universo drag curitibano.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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