Por trás do pano, por Claudia Chaves: o melhor do teatro no Rio de Janeiro

Por CLAUDIA CHAVES
Especial para Blog do Arcanjo
Do Rio de Janeiro
Prepara!
O teatro carioca resolveu lembrar que ainda sabe provocar fila, discussão e emoção. O Festival de Teatro do Rio volta em sua segunda edição, de 29 de julho a 16 de agosto, ocupando os Teatros Teatro Riachuelo e Teatro Adolpho Bloch – Teatro PRIO com a promessa rara de juntar espetáculo, pensamento e plateia viva, algo cada vez mais revolucionária no Rio. Depois da estreia lotada no ano passado, o festival cresce sem pose de evento gourmetizado: vem com oficina, bate-papo, encontro e peça capaz de fazer o sujeito sair do teatro olhando diferente até pro motorista do aplicativo. Num tempo em que todo mundo fala ao mesmo tempo, o palco ainda consegue fazer silêncio. Que paz.
Menino dos olhos
E Rodrigo Portella aparece no Festival de Teatro do Rio como quem abre e fecha um livro em grande estilo. Na abertura, dirige o poderoso Grupo Galpão em “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, espetáculo que deixou carioca que não viu na maior deprê. Uma experiência intensa, quase física. No encerramento, muda completamente de tom e mergulha no universo seco, absurdo e genial de Samuel Beckett em “Fim de Partida”, trazendo Marco Nanini de volta ao Rio com Guilherme Weber em atuação ímpar, Helena Ignez e Ary França. Portella faz uma coisa rara: consegue ser popular sem simplificar a inteligência. E isso, no teatro e na vida, vale aplauso de pé. Não é mesmo?
Curtinha
Gosta de peça que termina rapidinho? Pois o microteatro finalmente ganha endereço fixo no Rio, na Acaso Cultural, em Botafogo. Peças de quinze minutos, salas pequenas, clima intimista e sessões contínuas. Cultura rápida, inteligente e sem perder a alma. À frente está Alexandra Plubins, que viveu o formato na Espanha e agora traz essa experiência aos cariocas. Em maio, a literatura brasileira ganha versões rápidas, criativas e cheias de alma, com a voz luxuosa de Claudio Mendes e pelo ótimo figurino de Wanderley Gomes. Vá sem pressa.
Pós-sol
No Rio, existe um horário sagrado do pós-praia em que muita gente troca o bar pelo teatro. “Deu Match”, em cartaz às 17h30 no Teatro Cândido Mendes, entra perfeitamente nesse clima leve de fim de tarde carioca. Com humor e delicadeza, a peça fala sobre amor, maturidade, aplicativos de relacionamento e os recomeços possíveis depois dos 50. Deborah Kalume conduz encontros desastrosos e situações divertidamente reais, entre desejos, solidão e liberdade. No final, dá vontade de aplaudir como se faz diante do pôr do sol em Ipanema. Nada mais carioca.
Duplinha da boa
Tem dupla que funciona melhor que terapia: Lasanha e Ravioli estão de volta aos palcos cariocas com “Lasanha e Ravioli em Cinderela” e “Lasanha e Ravioli em Pinocchio”, sábados e domingos no Teatro Glaucio Gill. As palhaças misturam conto de fadas, bastidores teatrais e trapalhadas deliciosas numa montagem que diverte crianças e adultos sem precisar fazer esforço. Entre máscaras, bonecos e gargalhadas, Ana Barroso e Monica Biel lembram que rir junto ainda é uma das formas mais bonitas de afeto. Coisa boa.
Espanhóis no Rio
Ver a Compañía Antonio Gades ao vivo é dessas experiências que fazem o sujeito entender que existem espetáculos — e existe arte em estado bruto. A lendária companhia espanhola retorna, em junho, ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro trazendo “Bodas de Sangre” e “Suite Flamenca”, obras que transformaram o flamenco numa explosão de drama, beleza e precisão. Cada movimento parece nascer da alma e terminar direto no peito da plateia. Arrebatador.
Balada da louca
Em “Elogio da Loucura”, no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, Leona Cavalli confirma sua alta qualidade como atriz. Desde outras temporadas, é a melhor Blanche DuBois que já vi por nossas plagas. A direção de Eduardo Figueiredo transforma filosofia, ironia e delírio numa experiência elegante, intensa e assustadoramente atual. Vá ver.
Das páginas ao palco
Renato Carrera é desses diretores inventivos que fazem o caminho contrário do habitual: transforma conto em dramaturgia. Em cartaz no Oi Futuro Flamengo, “Diabólica Vingança”, com contos inéditos de Nelson Rodrigues, mergulha em paixões tortas, desejos sombrios e tragédias inevitáveis, território onde Nelson continua absolutamente contemporâneo. Ao lado de Andreza Bittencourt e Dani Ornellas, Carrera confirma um olhar cênico elegante e inquieto. O moço é danado.

*CLAUDIA CHAVES escreve sobre a cultura e o teatro do Rio de Janeiro (e ocasionalmente de outros lugares) para Miguel Arcanjo. Carioca da gema, é doutora em Letras pela PUC-Rio, jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, doutora em Literatura, bacharel em Direito, curadora, gestora cultural e de marcas. Atua como crítica de teatro e colunista cultural em veículos como Veja Rio, Lu Lacerda, Miguel Arcanjo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário do Rio. Siga @claudiachavesdosaber e também leia as colunas de Claudia Chaves.
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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