Gabi Costa expõe em Cíclico como dependência química na família afeta mulheres: ‘A gente também fica doente’ | Entrevista do Arcanjo

Atriz Gabi Costa faz solo Cíclico sobre como mulheres lidam com dependência química na família na Oficina Cultural Oswald de Andrade de 6 a 16/9 © Cléo Martins Divulgação Blog do Arcanjo 2023

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Gabi Costa navega por um rumo corajoso em seu primeiro solo, Cíclico, com faz temporada de 6 a 16 de setembro na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo. Partindo da própria experiência com seu pai, já falecido, ela expõe o drama da dependência química na família, em especial o alcoolismo, bem como o modo que as mulheres são atingidas por esssa difícil situação. Para lhe ajudar a contar tão delicada história, convocou uma dupla de diretoras, Mariá Guedes e Thais Dias, nesta produção da Cia La Desdeñosa. Nesta exclusiva Entrevista do Arcanjo, a atriz fala a Miguel Arcanjo Prado sobre o projeto, revela o medo que teve em abordar no palco uma situação íntima e explica por que faz teatro. Leia com toda a calma do mundo.

Veja como foi estreia de Cíclico com Gabi Costa

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Miguel Arcanjo Prado – Por que você resolveu fazer uma peça com elementos autobiográficos?
Gabi Costa –
Na verdade eu estava em busca de fazer um projeto meu e não sabia ainda de onde partir. Participei de um núcleo de pesquisa cênica que estimulava a investigação a partir de material documental para uma autoficção e levei uma cena. A partir daí achei que era um caminho interessante.

Miguel Arcanjo Prado – Você sentiu medo em algum momento de expor um tema pessoal no palco?
Gabi Costa –
Eu tive medo de como meus familiares pudessem receber o trabalho. De minha parte tenho bem nítido que a o que está ali nunca esteve escondido, só não estava no foco. Quando a gente tem uma pessoa dependente de álcool ou outras drogas na família, temos a sensação de que é possível disfarçar o problema, esconder, sabe? E quando a gente se dá conta, todo mundo a nossa volta já sabe. Quando meu pai faleceu, minha mãe e eu percebemos que todo mundo sabia que ele era alcoolatra, só a gente achava que estávamos conseguindo manter a doença em segredo.

Atriz Gabi Costa faz solo Cíclico sobre como mulheres lidam com dependência química na família na Oficina Cultural Oswald de Andrade © Cléo Martins Divulgação Blog do Arcanjo 2023

Miguel Arcanjo Prado – A dependência química é algo que atinge muitas famílias no Brasil, sobretudo as negras. Que mensagem você espera passar com essa obra? O que espera que o público sinta assistindo você?
Gabi Costa –
Eu espero que outras mulheres com familiares dependentes químicos possam ver, se identificar e compreender que a gente também fica doente. Mesmo sem usar drogas ou álcool, a gente vicia no desejo de cura e bem-estar do usuário, e adoecemos muito, emocional e fisicamente. Eu acho mesmo que as pessoas não levam a dependência quimica a sério. Principalmente o alcoolismo, tão normalizado sempre. A gente vai morrendo nesse sofrimento sem apoio, sem tratamento,  sem ter noção de que também somos afetadas.

Miguel Arcanjo Prado – É seu primeiro solo? Como lida estar sozinha em cena?
Gabi Costa –
Dias atrás uma amiga disse “pensa que você é a sua própria ‘deixa’ em cena” e eu tomei um susto [risos] Mas eu acho que nunca me senti tão acompanhada quanto neste processo. Eu tenho um time perfeito comigo. Minhas diretoras, por exemplo, estão comigo o tempo todo me vigiando e me impulsionando. Não sei como elas conseguem fazer isso, mas sinto que elas estão em cena, jogando comigo, mesmo sendo um trabalho solo.

Miguel Arcanjo Prado – Por que quis trabalhar com essas duas diretoras, Mariá Guedes e Thais Dias?
Gabi Costa –
Eu conheci a Mariá Guedes em um grupo de estudos de dramaturgia só de mulheres (o Caldeirão das Bruxas, idealizado por Ana Elisa Mattos e Erica Montanheiro, durante a pandemia) e na primeira vez que eu li alguns fragmentos do meu texto, ela disse coisas tão interessantes, tão especiais. Nos identificamos logo de cara. Ela já tinha dirigido um espetáculo em que foi premiada no APCA pela melhor direção (o espetáculo Dois a Duas, em que Mariá e Erica Montanheiro dividiram a direção). Eu achei a Mariá tão inteligente e tão alegre, e a convidei para seguir comigo, como minha diretora. Ela topou na hora, mas disse que sentia que não era um texto para uma diretora só. Ela via camadas e vozes diversas na dramaturgia e sugeriu dividir com alguém. Na época eu tinha acabado de trabalhar com a Thais Dias em um projeto em que o querido Sidney Santiago Kuanza havia me chamado para dirigir com ele, em parceria. Sempre admirei o trabalho da Thais e a energia dela também era ótima. Eu e Mariá fizemos o convite e ela veio. Humildemente, acho que fiz a combinação perfeita. É um processo dificil e elas fizeram tudo com delicadeza e alegria. Foi divertido.

Gabi Costa

Formada pela Fundação das Artes de São Caetano, a atriz Gabi Costa tem como foco a pesquisa cênica que considera diversidade e inclusão, e também o diálogo entre teatro e psicologia. Já esteve em peças como América Vizinha, do Grupo XIX, Entre os Trilhos e a Baleia, A Gaivota e o Concreto, Plantar Cavalos para Colher Sementes, Naturaleza Morta e Feio, e em filmes como 14 de Maio.

Miguel Arcanjo Prado – Você integra uma geração de artistas negros que reivindicou seu protagonismo nos palcos brasileiros. Como enxerga a atual situação para negros no Teatro e no audiovisual? Melhorou algo? O que ainda precisa avançar?
Gabi Costa –
Com certeza muitas coisas melhoraram. Muitos espaços foram conquistados. Mas, a coisa é tão complicada, tão feia, que mesmo avançando muito, ainda falta muito. Temos uma forma de produzir arte que é o que nos salva: nós por nós! ( eu tenho grupo com amigos pretos no WhatsApp que tem esse nome ). A gente idealiza, nos juntamos com os nossos e produzimos. Eu aprendi vendo quem veio antes mim fazer assim. Desta forma, a gente chega mais forte lá na frente e torna um pouco mais difícil pra quem quer nos negar espaços. Mas se a gente vacilar, eles nos engolem novamente. Tem que estar sempre vigiando.

Miguel Arcanjo Prado – Por que você faz teatro?
Gabi Costa –
Eu sempre me expressei melhor artisticamente. Meu pai me fazia explorar isso e sempre me incentivava ao fazer artístico. Antes de ele adoecer (desenvolver o alcoolismo), ele era meu maior companheiro. Acho que foi esse o presente que ele deixou pra mim e que eu transformei em minha profissão.

Cíclico
com Gabi Costa
Cia La Desdeñosa
De 6 a 16/9, quarta a sexta, às 19h30, sábado e feriados, 18h
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363, Bom Retiro, metrô Tiradentes, São Paulo

Conversas Cíclicas
Bate papo após o espetáculo
Sexta-feira, 08/09/23 | Convidada: Siméia Mello
Sexta-feira, 15/09/23 | Convidada: Cris Guterres

Ficha Técnica
Atuação, Texto e Concepção. Gabi Costa
Direção. Mariá Guedes e Thais Dias
Cenário. Evas Carretero
Preparação Corporal. Ciça Coutinho
Iluminação. Danielle Meireles
Fotos. Cléo Martins
Designer Gráfico. Luna Ákira
Trilha Sonora. Camila Couto
Operação de Som. Camila Couto e Carolina Gracindo
Orientação Dramatúrgica. Tatiana Ribeiro
Figurino. Thais Dias
Adereços. Gabi Costa e Mariá Guedes
Colaboração Artística. Meg Pereira
Bate-papo pós espetáculo. Cris Guterres e Siméia Mello
Workshop Dança Afro. Juliana Ferraz
Assistente de Produção. Lua Negrão
Produção. Gabi Costa e Corpo Rastreado
Assessoria de imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira
Realização. Cia La Desdeñosa

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Jornalista cultural influente e respeitado no Brasil, Miguel Arcanjo Prado é CEO do Blog do Arcanjo, fundado em 2012, e do Prêmio Arcanjo, desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e apresenta o Arcanjo Pod. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Huffpost Brasil, Notícias da TV, Contigo, Superinteressante, Band, CBN, Gazeta, UOL, UMA, OFuxico, Rede TV!, Rede Brasil, Versatille, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra o júri de Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de São Paulo, Prêmio Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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