Tiradentes em Cena: EspaçoNave do Corpo Coletivo constrói distopia futurista à beira do Rio das Mortes

Corpo Coletivo de Juiz de Fora levou sua distopia futurista EspaçoNave ao 10º Tiradentes em Cena – Foto: Thyago Andrade – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial ao Tiradentes em Cena*

Não poderia haver noite melhor nem lugar mais propício à pré-estreia do espetáculo EspaçoNave, do Corpo Coletivo, de Juiz de Fora, dentro da programação do 10º Tiradentes em Cena, festival de teatro idealizado e conduzido por Aline Garcia de 25 a 28 de maio na cidade histórica mineira.

A peça é uma distopia futurista que encontrou vazão à beira do Rio das Mortes, no icônico point alternativo tiradentino Cultivo, bar-espaço-cultural-de-resistência na praça da Estação Ferroviária centenária onde chega a Maria Fumaça.

Não bastasse, o frio com sensação térmica próxima a 11 graus congelava mentes e corações que assistiram à montagem sob sereno em espaço verde diante de um exuberante céu estrelado de outono mineiro.

Concebida por Hussan Fadel, que também escreveu e dirige a montagem ao lado de Suzana Nascimento, a encenação mostra um grupo de pessoas que não se conhecem, mas com um objetivo em comum: o contato extraterrestre. Obviamente que conflitos eclodem nesta procura por contatos imediatos de qualquer grau.

Sob orienação de Amir Haddad, Dorotht Lenner e Cynthia Margareth, os atores Carú Rezende, Gabriel Bittencourt, Pri Helena, Suzana Nascimento e Vinícius Cristóvão formam um conjunto coeso e repleto de ironias cortantes como o frio, inspiradas no horror chamado Brasil contemporâneo e em questões inerentes à classe artística. Fato é que o espetáculo se comunica melhor com o nicho ao qual pertence.

Se destaca na encenação a fina direção de arte de Gabriel Bittencourt, que exala referências que vão do obrigatório 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, de 1968, ao Ziggy Stardust, alter ego de David Bowie na virada dos anos 1960 para 1970, sem deixar de mencionar Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de Steven Spielberg, de 1977. A iluminação, com o farol do carro que aprisiona os personagens cortando a vegação no escuro da noite, é fantástica.

Texto da peça EspaçoNave é repleto de ironias e referências ao fazer artístico contemporâneo no Brasil – Foto: Thyago Andrade – Blog do Arcanjo

Se o futurismo das referências citadas já previam um certo apocalipse futuro, de certo modo, seja na melancolia presente ou mesmo na fatalidade das invenções tecnológicas do bicho homem, a confusão desconexa do espetáculo, repleto de tiradas típicas da geração de millennials, só confirma o caos que nos aproximamos cada vez mais. É como se tivéssemos embarcados no asteroide que caminha rumo à imparável colisão.

O frio cortante tiradentino e a proximidade do Rio das Mortes só reforçou a força de atração gravitacional implacável do buraco negro que se anuncia, tragando qualquer humanidade e poética possível advinda deste estado, enquanto mergulhamos no implacável e frio mundo dos algoritmos movidos a inveja, ódio e desumanidade.

De tal modo, EspaçoNave é um espetáculo de poética que se orgulha de seu gosto amargo. Afinal, os dias não têm sido muito doces neste planeta. Pobres de nós.

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Tiradentes em Cena.

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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