‘Significa abrir caminhos’, diz Leilane Teles, coreógrafa de Umbó da São Paulo Companhia de Dança

A coreógrafa Leilane Teles, que criou Umbó com a São Paulo Companhia de Dança - Foto: Thiago Drummond/Divulgação - Blog do Arcanjo
A coreógrafa Leilane Teles, criadora da coreografia Umbó com a São Paulo Companhia de Dança: estreia neste fim de semana no Teatro Alfa – Foto: Thiago Drummond/Divulgação – Blog do Arcanjo

Nome em ascensão na dança brasileira, baiana Leilane Teles assina coreografia Umbó da São Paulo Companhia de Dança e ainda é destaque em Donna Summer Musical

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Quem presenciou a bailarina Leilane Teles dançar com leveza, carisma e absoluta precisão técnica no musical Donna Summer na noite desta última sexta (15) mal podia imaginar que diante dela estava um dos fins de semana de maior importância em sua trajetória artística. Afinal, a baiana radicada na capital paulista estreia como coreógrafa da São Paulo Companhia de Dança com Umbó, neste sábado (16) e domingo (17), no Teatro Alfa, grande templo da dança brasileira. Ela foi especialmente convidada para a função pela diretora artística da SPCD e ícone da dança brasileira Inês Bogéa.

Bailarina talentosa que já dançou pelo mundo sob direção de Ismael Ivo (1955-2021), Leilane Teles buscou referências na sua Salvador natal para criar a coreografia, ciente de que sua figura representa, e muito, ao ocupar o nobre espaço de comando em uma das mais renomadas companhias de dança do país. Horas antes da estreia de Umbó, a artista conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo sobre este momento especial. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – O que representa para você, Leilane Teles, assinar esta coreografia Umbó com a prestigiada São Paulo Companhia de Dança e estreá-la no grande templo da dança que é o Teatro Alfa?
Leilane Teles –
Essa primeira pergunta é muito importante, porque desde o início, quando a Inês fez o convite para eu montar uma peça para a São Paulo Companhia de Dança, eu já sabia da minha responsabilidade de estar abrindo caminhos, sendo a primeira coreógrafa preta a criar uma obra para a São Paulo Companhia de Dança, que é uma das maiores companhias do país. Eu sabia que eu estava ocupando esse lugar, e por este motivo, eu me estimulei mais ainda. Para mim significa abrir caminhos para outras pessoas como eu e que se identificam com a minha trajetória, da comunidade preta, a estar ocupando espaços como esse. Da mesma forma, é estrear em São Paulo, que é o centro da arte do Brasil. Isso é muito gratificante para mim; ter uma peça minha sendo estreada nesse teatro, o Alfa, que é um teatro que eu já estive em temporada e sei da magnitude que ele tem. Então, Miguel, é isso, acho que as duas coisas representam abrir caminhos, é sobre isso, sobre dar espaços a outras pessoas. Essa minha obra fala exatamente sobre isso, dar espaço e visibilidade para outros artistas como eu, e ocupar esse sistema.

Leilane Teles entre os bailarinos da São Paulo Companhia de Dança que dançam Umbó, coreografia criada pela artista baiana - Foto: Marcelo Machado/Divulgação - Blog do Arcanjo
Leilane Teles entre os bailarinos da São Paulo Companhia de Dança que dançam Umbó, coreografia criada pela artista baiana – Foto: Marcelo Machado/Divulgação – Blog do Arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – O que o público que irá ao Teatro Alfa neste fim de semana verá em Umbó?
Leilane Teles –
Então, Miguel, o público vai ter a oportunidade de conhecer três artistas que são as minhas inspirações para este balé, são pessoas que eu admiro bastante, que não são muito conhecidas, mas tem uma trajetória super inspiradora. Então, o público terá a oportunidade de ouvir as canções do Tiganá Santana na voz da Virgínia Rodrigues. E, em caráter de movimento, o Mathias Santiago está sendo homenageado dessa forma, está sendo citado dessa forma. O Mathias foi o meu mentor na dança. Comecei as minhas experiências profissionais na dança contemporânea com ele; então, muitos dos movimentos que meu corpo executa, têm influência das minhas vivências dentro do Balé Jovem, que é a companhia que ele dirige até hoje, e é a companhia que eu fiz parte lá em Salvador. Então, o público tem a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre esses artistas… Mas essa obra não tem a intenção de ser biográfica, não; ela é o resultado do que eles causam a mim, não só a mim como também à figurinista, porque a gente teve a intenção de fazer acontecer essa ação-reação mesmo, o que esses artistas causam nas nossas artes e o que nós podemos causar no público, como também o que nós podemos causar nos bailarinos e em toda produção que está envolvida na criação dessa obra.

Leilane Teles é nome forte da nova dança brasileira: destaque no elenco do musical Donna Summer e coreógrafa de Umbó com a São Paulo Companhia de Dança - Foto: Breno da Silva/Divulgação - Blog do Arcanjo
Leilane Teles é nome forte da nova dança brasileira: destaque no elenco do musical Donna Summer e coreógrafa de Umbó com a São Paulo Companhia de Dança – Foto: Breno da Silva/Divulgação – Blog do Arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Acha que Ismael Ivo estaria orgulhoso deste seu momento?
Leilane Teles –
O Ismael Ivo é um querido, ele também foi peça fundamental na minha formação. Eu tive uma experiência muito intensa ao lado dele, e ele me proporcionou coisas primordiais para carreira de um bailarino no início do meu processo profissional. Então, eu tenho certeza que ele se sentiria orgulhoso de me ver ocupando esse espaço. Como eu falei, eu tenho a intenção de abrir caminhos, então, sem dúvida, é uma vitória para comunidade, não só ele, mas também muitos amigos, conhecidos e até pessoas que não conheço. Acho que esse orgulho é gerado de uma forma muito natural daqueles que se identificam com minha história, e querem estar e ocupar esses lugares.

Colaborou Letícia Polizelli

Leilane Teles, coreógrafa e bailarina: "Responsabilidade de abrir caminhos" - Foto: Breno da Silva/Divulgação - Blog do Arcanjo
Leilane Teles, coreógrafa e bailarina: “Responsabilidade de abrir caminhos” – Foto: Breno da Silva/Divulgação – Blog do Arcanjo

Umbó, de Leilane Teles, homenageia artistas de Salvador com a SPCD

Umbó, coreografia inédita de Leilane Teles com a São Paulo Companhia de Dança (SPCD), faz estreia paulistana neste fim de semana, sábado (16), às 20h, e domingo (17), às 18h, no Teatro Alfa, após bem-sucedidas pré-estreias pelo interior de São Paulo. No mesmo programa, idealizado por Inês Bogéa, estão Anthem (2019), do coreógrafo espanhol Goyo Montero, e Respiro (2020), da paulistana Cassi Abranches.

Referências de Umbó, de Leilane Teles: o cantor e compositor Tiganá Santana, a cantora Virginia Rodrigues e o coreógrafo e bailarino Matias Santiago - Fotos: Divulgação - Blog do Arcanjo
Referências de Umbó, de Leilane Teles: o cantor e compositor Tiganá Santana, a cantora Virginia Rodrigues e o coreógrafo e bailarino Matias Santiago – Fotos: Divulgação – Blog do Arcanjo

Na criação de Umbó, Leilane Teles buscou referências da própria história, cujos primeiros passos foram dados na Funceb (Fundação Cultural do Estado da Bahia). “Grandes artistas soteropolitanos foram minha inspiração”, conta a coreógrafa. Ela buscou nomes de gerações e linguagens diferentes para compor o mosaico criativo-afetivo de Umbó: o cantor e compositor Tiganá Santana, a cantora Virginia Rodrigues e o coreógrafo e bailarino Matias Santiago.

Umbó, coreografia de Leilane Teles com a São Paulo Companhia de Dança - Foto: Marcelo Machado/Divulgação - Blog do Arcanjo
Umbó, coreografia de Leilane Teles com a São Paulo Companhia de Dança – Foto: Marcelo Machado/Divulgação – Blog do Arcanjo

“Chegar à sala de ensaio da São Paulo Companhia de Dança ver tudo o que idealizei se materializando nos corpos dos talentosos bailarinos da Companhia foi maravilhoso”, conta sobre o processo. Serviram como disparadores temas atuais como representatividade, busca pela identidade, desafios da coletividade e o desejo de real conexão. Leilane Teles ainda convocou Teresa Abreu para criar os figurinos, e Gabriele Sousa para fazer a iluminação.

Inês Bogéa, diretora artística e executiva da SPCD define como “enorme alegria” a volta ao Teatro Alfa, um dos principais palcos da dança na América Latina, com “um programa tão atual e que reflete no corpo inquietações do momento presente”. E, para concluir, recupera uma memória afetiva presente em Umbó: “Dancei com Matias Santiago no Grupo Corpo e fico contente de poder homenageá-lo por meio desta criação de Leilane Teles”.

O bailarino Otávio Portela em Umbó, coreografia de Leilane Teles com a São Paulo Companhia de Dança - Foto: Marcelo Machado/Divulgação - Blog do Arcanjo
O bailarino Otávio Portela em Umbó, coreografia de Leilane Teles com a São Paulo Companhia de Dança – Foto: Marcelo Machado/Divulgação – Blog do Arcanjo

Serviço

São Paulo Companhia de Dança no Teatro Alfa
Umbó
, de Leilane Teles (Estreia); Respiro, de Cassi Abranches; e Anthem, de Goyo Montero
Quando: 16 e 17 de outubro de 2021, sábado, às 20h, domingo, às 18h
Onde: Teatro Alfa – R. Bento Branco de Andrade Filho, 722 – Santo Amaro – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 50 (balcão) e R$100 (plateia) pela Sympla
Duração: 1h10min com pausa técnica

Donna Summer Musical
Direção: Miguel Falabella
Quando: Terça às 20h00, Quinta, Sexta e Sábado às 21h00, Sábado às 17h30, Domingo às 16h00 e 19h30
Onde: Teatro Santander – Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, São Paulo – São Paulo
Ingressos: R$ 37,50 a R$ 280 pela Sympla
Duranção: 1h50min sem intervalo

São Paulo Companhia de Dança no Teatro Alfa

Umbó (estreia – 2021)
Coreografia: Leilane Teles
MúsicasNzambi Kakala Ye BikamazuMuloloki e Para a Poetisa Íntima, de Tiganá Santana, e Mama Kalunga, de Tiganá Santana na voz de Virgínia Rodrigues
Figurino: Teresa Abreu
Assistência de Figurino: Priscilla Bastos
Iluminação: Gabriele Souza

Para conceber Umbó, Leilane Teles se baseia em uma premissa batizada por ela como “a criação do desejo”, que fala sobre o desejo de se tornar quem se quer ser a partir de determinada referência e como isso reverbera no corpo de cada um. Nesse sentido, o ato de ser inspirado também produz inspiração, gerando um ciclo infinito. O cantor e compositor Tiganá Santana, a cantora Virginia Rodrigues e o coreógrafo Matias Santiago são o ponto de partida de Umbó, que convida o público a apreciar e reverenciar as artes e trajetórias dessas personalidades, bem como os bailarinos em cena e todos os artistas envolvidos na concepção da obra.

Respiro (2020)
Coreografia: Cassi Abranches
Trilha Sonora: Beto Villares, com participação de Siba, Érico Theobaldo, Fil Pinheiro, Mauricio Badé e Julia Valiengo
Iluminação: Gabriel Pederneiras
Figurino: Verônica Julian
Assistência de Coreografia: Filipe Bruschi
Respiro evoca uma pausa, uma folga ou simplesmente o ato de respirar. Nesta obra, a coreógrafa se inspira nas sensações de perdas e ganhos percebidas pelos bailarinos durante a pandemia e incorpora elementos que partem da plenitude da meditação e explodem em um ápice de bem-estar para suspender o presente de uma realidade, por vezes, asfixiante.


Anthem
 (2019)
Coreografia: Goyo Montero
Música:  Owen Belton
Iluminação: Goyo Montero e Nicolas Fischtel
Figurino: Goyo Montero e Fábio Namatame
Organização: Carlos Iturrioz Mediart Producciones SL (Espanha)

Anthem é a primeira criação do espanhol Goyo Montero para uma companhia brasileira. A obra traz uma reflexão sobre o processo de construção e desconstrução de identidades coletivas. Segundo o coreógrafo: “Há ciclos que se repetem e cometemos sempre os mesmos erros, de pensar que estamos separados, que somos diferentes quando, na realidade, todo ser humano é um e, no momento em que perdemos essa unidade, os problemas começam. Este é um traço da história humana”. A trilha é do canadense Owen Belton, com quem Goyo já criou mais de nove obras. A inspiração da música vem de canções que se tornam hinos – sejam de nações, pessoas com preferências parecidas ou indivíduos de uma mesma geração. Por isso, o nome escolhido para a obra: Anthem, hino em inglês. Para Montero, “A voz humana se converte em uma canção e esta canção se converte em algo com a qual nos identificamos”.

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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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