O Clone volta à Globo: Gloria Perez e Jayme Monjardim revelam bastidores da novela

Murilo Benício e Giovana Antonelli em O Clone - Foto: Divulgação - Blog do Arcanjo
Murilo Benício e Giovana Antonelli em O Clone – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

Autora e diretor de O Clone em 2001 contam como criaram marco da teledramaturgia brasileira que volta no Vale a Pena Ver de Novo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

O Clone, um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira em todo o mundo, está de volta à tela da Globo a partir de 4 de outubro no Vale a Pena Ver de Novo.

A novela, que permanece viva na memória do público após 20 anos da exibição original, também é um marco forte na carreira da autora Gloria Perez e do diretor Jayme Monjardim, que inovaram ao abordar uma história que mistura clonagem humana e cultura árabe tendo como fio condutor o amor proibido entre a muçulmana Jade (Giovanna Antonelli) e o brasileiro Lucas (Murilo Benício).

O Clone também fez a diferença na realização de uma campanha antidrogas desenvolvida por conta dos personagens Mel (Débora Falabella), Nando (Thiago Fragoso) e Lobato (Osmar Prado).

E não falta humor na trama, especialmente no bar de Dona Jura (Solange Couto), o grande ponto de encontro dos moradores do bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, e espaço para participação de personalidades. Os bordões de diversos personagens divertiram o público e ganharam as ruas, como “Né brinquedo não!”, de Dona Jura, e ‘Cada mergulho é um flash’, de Dona Odete, vivida pela saudosa Mara Manzan.

Jayme Monjardim e Gloria Perez no lançamento da novela O Clone em 2001 - Foto: Divulgação - Blog do Arcanjo
Jayme Monjardim e Gloria Perez no lançamento da novela O Clone em 2001 – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

“Sinto muita alegria em revisitar esse universo. E acho que esse é um dos motivos que levam o público a gostar tanto de rever novelas. Durante um tempo das nossas vidas convivemos com os dramas daqueles personagens, eles se tornam íntimos de nós. Revê-los é revisitar também um tempo do nosso passado. O Clone foi um trabalho maravilhoso de fazer, era uma equipe tão unida, tão apaixonada… Isso transparece na tela”, conta a autora Gloria Perez.

O diretor Jayme Monjardim não pensa duas vezes ao elencar O Clone como um dos trabalhos que mais impactaram sua trajetória. “Essa novela é um marco na minha vida, sempre digo que os trabalhos são como filhos, e alguns deles como O Clone e Terra Nostra, por exemplo, vivi de forma muito intensa, eles irão estar comigo para sempre no coração. O Clone é uma novela mágica e é muito bom que ela esteja de volta. Me emociono assistindo às chamadas da programação”, revela Jayme.

De volta a partir do dia 4 de outubro, O Clone é escrita por Gloria Perez, com direção de núcleo e geral de Jayme Monjardim, direção geral de Mário Márcio Bandarra e Marcos Schechtmann, e direção de Teresa Lampreia e Marcelo Travesso. A novela também traz no elenco nomes como Juca de Oliveira, Eliane Giardini, Adriana Lessa, Reginaldo Faria, Vera Fischer, Antonio Calloni, Letícia Sabatella, Marcello Novaes, Neuza Borges, Nívea Maria, Stênio Garcia, Jandira Martini, Dalton Vigh, Carla Diaz, Juliana Paes, Daniela Escobar, Cristiana Oliveira, Cissa Guimarães, Marcos Frota, Thais Fersoza, Victor Fasano, Beth Goulart, Luciano Szafir, Nívea Stelmann, Raul Gazola, Myriam Rios, Roberto Bonfim e Elizângela, entre outros.

Com Comunicação Globo

Entrevista com Gloria Perez sobre volta de O Clone no Vale a Pena Ver de Novo

Blog do Arcanjo – O que sentiu quando soube que O Clone iria ao ar novamente 20 anos após a exibição original?
Gloria Perez – Alegria, muita alegria de revisitar esse universo. E acho que esse é um dos motivos que levam o público a gostar tanto de rever novelas. Durante um tempo das nossas vidas convivemos com os dramas daqueles personagens, eles se tornam íntimos de nós. Revê-los é revisitar também um tempo do nosso passado. O Clone foi um trabalho maravilhoso de fazer, era uma equipe tão unida, tão apaixonada. Isso transparece na tela.

Blog do Arcanjo – Relembre um pouco o processo de pesquisa para escrever a novela, como se aprofundou na cultura muçulmana e no tema da clonagem humana.
Gloria Perez – Fiquei 20 dias no Egito e também cerca de 20 no Marrocos, convivendo com pessoas típicas do local. Era isso o que eu queria buscar: o muçulmano médio. Fiz amizade com o guia que nos acompanhou na viagem e convivi muito com a família dele, com os amigos dele, de modo a poder observar os costumes, as maneiras, a forma como viam a si próprios e como nos viam também. Por outro lado, estive em diálogo constante com o sheik Jihad, que me presenteou com um Alcorão. Li o Alcorão e dali retirei os ensinamentos do progressista tio Ali (Stênio Garcia) e do fundamentalista tio Abdul (Sebastião Vasconcellos). Tivemos sempre o maior cuidado para não ferir suscetibilidades religiosas.

Blog do Arcanjo – O que a levou a unir os dois assuntos – cultura muçulmana e clonagem humana – em uma mesma história?
Gloria Perez – O ponto de partida foi a ovelhinha Dolly. Se era possível clonar uma ovelha, não seria possível clonar um ser humano? Quis falar dos conflitos de identidade inerentes a uma experiência assim. Como se sentiria uma pessoa feita em laboratório como cópia de outra? Quis falar dos limites éticos da ciência, e para isso resgatei duas personagens icônicas de ‘Barriga de Aluguel’: o humanista Dr. Molina (Mário Lago) e a transgressora Miss Brown (Beatriz Segall). Para se contrapor a esse ocidente que desafiava Deus criando a vida, fui buscar uma sociedade inteiramente submetida a Deus: os muçulmanos. Por isso eles entraram na trama.

Blog do Arcanjo – A novela também abordou o uso de drogas, que infelizmente ainda assombra muitas famílias. Como foi a pesquisa para retratar o tema e o resultado da campanha socioeducativa?
Gloria Perez – Meu método é antropológico: chego perto, convivo. Percebia que tudo o que sabia sobre dependência química era a visão da policia, dos médicos. E quis observar os dependentes. Pensar a campanha do ponto de vista deles. Essa foi a chave de ela ter sido tão bem-sucedida. Frequentei muitas clínicas, conversei com pessoas internadas e com outras que tinham conseguido superar a dependência. A trajetória de Mel (Débora Falabella) foi intercalada com depoimentos de dependentes, internados ou não, contando sua experiência, seu fundo de poço. E também de seus familiares. Era o recado duro e sofrido de quem vivia o problema. E foi imensa a escuta. A campanha recebeu prêmio da Sociedade de Medicina e repercutiu até no exterior: nos Estados Unidos ganhamos prêmios do FBI e do DEA.

Blog do Arcanjo – Os bordões ganharam as ruas e nunca foram esquecidos. Como foi a criação deles?
Gloria Perez – Os bordões nascem da escuta. De andar na rua, de frequentar ambientes populares, como a gafieira, por exemplo.

Blog do Arcanjo – Como você acredita que a novela será recebida agora, já que nossa sociedade está em constante mudança?
Gloria Perez – O ser humano é essencialmente o mesmo, desde que o mundo é mundo. Seus instintos básicos estão ali. Cada época valoriza algumas dessas características e reprime outras, mas a essência não muda. É nisso que eu foco. Acredito que quando você consegue tocar o humano, as histórias se tornam atemporais. Podem ser compreendidas em qualquer época e por culturas muito diferentes.

Blog do Arcanjo – O que O Clone representa em sua tão bem-sucedida carreira?
Gloria Perez – Representa muito. Escrever é uma maneira de buscar compreender o universo que você retrata. De ampliar sua visão de mundo. O Clone me deu isso. E me encheu de emoção pelas vidas que foi capaz de tocar, fazendo com que tantos dependentes químicos buscassem tratamento por vontade própria, que suas famílias compreendessem o que se passava com eles, e que muitas pessoas, impressionadas com a crueza com que a história foi contada, tenham desistido de experimentar a droga.

Blog do Arcanjo – Imaginava que Dona Jura e o núcleo de São Cristóvão ficaria tão popular? Para quais personagens ou núcleos mais gostava de escrever?
Gloria Perez – Ah, imaginava sim. Dona Jura é a cara da mulher brasileira que toca a vida sozinha. Não tinha preferencias por nenhum núcleo. Todos eles eram essenciais para o resultado final do quadro que eu queria mostrar.

Jayme Monjardim fala sobre O Clone no Vale a Pena Ver de Novo

Blog do Arcanjo – O que sentiu quando soube que O Clone iria ao ar novamente 20 anos após a exibição original?
Jayme Monjardim – Quando soube que a novela seria reexibida fiquei muito feliz, pois é uma obra incrível que aborda a clonagem e o mundo muçulmano de forma muito mágica. A Gloria escreveu os personagens e o universo por onde eles caminham carregados de magia, exploramos de forma linda o Marrocos, desde Marrakech, até Fez e o deserto do Saara. Juntamos o que tinha de mais bonito no Marrocos e isso deu um charme, impactou na imagem e na obra como um todo. É muito bom que a novela esteja de volta e mais pessoas possam assisti-la.

Blog do Arcanjo – Como foi gravar por mais de um mês no Marrocos?
Jayme Monjardim – Ficamos de 45 a 50 dias, era muito deslocamento em várias cidades do Marrocos. Trabalhamos em Fez, Marrakech, Darfur e muitos outros lugares, então nossa estadia foi longa. Gravamos sob um calor de 50 graus, mas foi inesquecível, faria tudo de novo.

Blog do Arcanjo – Quais foram os maiores cuidados para abordar os principais temas: cultura muçulmana, clonagem e uso de drogas?
Jayme Monjardim – Uma das coisas mais importantes foi o cuidado para falar de um tema novo, a clonagem. A Gloria estudou muito, estava dominando esse processo, e depois mostrar para todos o universo da campanha contra as drogas, para que as pessoas entendessem o que realmente acontece, como identificar se algum parente seu está começando a se envolver, quais são os sinais. Nas conversas com o dependentes químicos tomamos muito cuidado para trazermos a realidade, sermos delicados na hora de abordar o tema e tomamos todos os cuidados possíveis na captação de imagens. Foi uma campanha maravilhosa que fizemos e que deu muito certo, num momento muito importante. Foi uma das maiores campanhas que a televisão fez até hoje.

Blog do Arcanjo – O que ‘O Clone’ representa em sua carreira?
Jayme Monjardim – Essa novela é um marco na minha vida, sempre digo que os trabalhos são como filhos, e alguns deles como O Clone e Terra Nostra, por exemplo, vivi de forma muito intensa, eles irão estar comigo para sempre no coração. O Clone é uma novela mágica e é muito bom que ela esteja de volta. Me emociono assistindo às chamadas da programação.

Blog do Arcanjo – A atuação do elenco foi muito importante para o resultado da obra. Quais foram suas maiores surpresas?
Jayme Monjardim – Sempre digo que a novela escolhe seus atores. Por mais que às vezes a gente queira muito um ou outro ator, é incrível porque vão acontecendo coisas e você acaba não tendo aquele ator e vem outro que acaba sendo muito melhor do que o que você tinha escolhido. É incrível, isso aconteceu em ‘O Clone’ e acontece muito.

Blog do Arcanjo – Qual a principal lembrança que guarda das gravações?
Jayme Monjardim – As lembranças são as melhores. Eu já tinha morado no Marrocos quando pequeno com a minha mãe, mas acabei tendo uma grande vivência nesse universo árabe com a novela que foi muito importante para minha vida e meu crescimento pessoal.

Blog do Arcanjo – Qual núcleo era mais interessante dirigir?
Jayme Monjardim – A novela como um todo, mas claro que o núcleo que morava no Marrocos era muito interessante pelos costumes, pelas danças…Mas o mais importante é que quando implantamos uma novela, damos um tom, e cada núcleo tinha sua importância e seu significado. Para mim sempre é mais importante conceituar o trabalho como um todo e cada pedacinho da novela tem o seu encanto.

Blog do Arcanjo – Em suas produções normalmente a música antecede a criação da teledramaturgia. A trilha sonora de ‘O Clone’ foi muito marcante, especialmente a trilha incidental. O que você recorda do processo de elaboração de toda a trilha sonora da trama?
Jayme Monjardim – A trilha de O Clone é muito marcante, como alguns outros trabalhos que já fiz com o Marcus Viana. Quando você pensa na trilha de O Clone percebe que música, imagem e texto se completam. ‘A Miragem’ definia a Jade, quando você escuta essa música e o refrão ‘somente por amor a gente põe a mão…’ você vê a novela ali. Acho que esse entrosamento da música com imagem e texto faz com que você nunca mais esqueça alguns momentos da história.

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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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