Sonetos del amor oscuro de Federico García Lorca | Por Gabriela Quintela

Por GABRIELA QUINTELA
@gabiquintela

O último mês de junho foi do Orgulho LGBTQIA+ e também foi mês do aniversário de nascimento de Federico García Lorca (123 anos!). Então, falemos sobre os onze “Sonetos del amor oscuro” do poeta andaluz, que ficaram perdidos por muitas décadas, provavelmente por causa de seu teor homossexual.

Para os irmãos do poeta Francisco e Isabel, a homossexualidade era um tabu, e o estudioso que ousasse tocar no assunto perdia imediatamente acesso ao arquivo lorquiano. Até que, em 1983, um lorquista anônimo imprimiu 250 edições dos “Sonetos del amor oscuro” e a enviou para alguns, digamos, “influencers” do lorquismo—entre eles, o maior de todos, a Chiara Ferragni do lorquismo: Ian Gibson. Diante da repercussão, os sonetos acabaram sendo oficialmente publicados em 17 de março de 1984, com a autorização da família do poeta, mas sem o polêmico adjetivo “oscuro”.

Pelo menos alguns dos “Sonetos del amor oscuro” foram inspirados por Rafael Rodríguez Rapún, talvez o último amor de Lorca, que lhe chamava “Três Erres”. Rapún era um jovem bonito e atlético, socialista, torcedor do Atlético de Madrid e então dividido entre a engenharia e as artes. Os dois se conheceram no grupo de teatro ambulante La Barraca, dirigido por Lorca e onde o “Três Erres” era tesoureiro. O relacionamento dos dois não foi muito tranquilo, e há um relato do dramaturgo Cipriano Rivas Cherif de uma noite em Barcelona, em meio aos ensaios de “Bodas de sangre”, em que encontrou Lorca desolado num café porque Rapún tinha sumido com uma cigana.

Segundo o ator Modesto Higueras, Rapún foi arrebatado pelo fascínio de Lorca: “Rafael era doido por mulheres, mas foi colhido na rede, não, colhido não, ele se engolfou em Federico. Como eu me engolfei em Federico, só que sem ir tão longe, ele se engolfou na coisa sem perceber o que estava acontecendo. Depois quis fugir e não pôde… Foi terrível.”

E de acordo com um professor de literatura da Universidade Complutense de Madrid, Emilio Peral, expert em Lorca, o poeta “apaixonava” e “não foram poucos os homens declaradamente heterossexuais que caíram em seus braços”.

Lorca foi assassinado pelos fascistas logo no começo da Guerra Civil, em 18 ou 19 de agosto de 1936, em Granada. Quando a notícia foi confirmada, Rapún partiu para lutar pela causa republicana. Recebeu treinamento de artilharia numa cidade de Múrcia chamada justamente Lorca (possivelmente a cidade de origem do avô materno do poeta).

Segundo a mulher do poeta Rafael Alberti, María Teresa León, Rapún “se deixou matar”, o que pode ser verdade. Em agosto de 1937, lutando não muito longe de Santander, no norte da Espanha, o “Três Erres” foi pego por um ataque aéreo. De acordo com Ian Gibson, Rapún não se atirou ao chão como os demais homens de sua bateria, e em vez disso ficou sentado num parapeito: “uma bomba explodiu por perto e ele foi mortalmente ferido”, aos 25 anos. A certidão de óbito atesta que Rapún morreu em 18 de agosto de 1937, no aniversário de um ano do assassinato de Lorca.

Neruda, que foi grande amigo de Lorca, escreveu sobre esse relacionamento em seu livro de memórias “Confieso que he vivido”, no texto “El último amor de Federico”. Mas o chileno preferiu não publicar esta parte, por temer que o público desmerecesse a obra do andaluz ao saber de sua homossexualidade. O texto foi incluído no livro apenas numa edição de 2017, mais de 40 anos após a morte de Neruda.

Outro dos inspiradores dos “Sonetos” pode ter sido Juan Ramírez de Lucas, um jovem ator que a princípio não viu nada de especial em Lorca. O poeta lhe pareceu “baixinho, um pouco gordo e cabeçudo”. Mas o rapaz acabou atraído pelo magnetismo de Lorca, que consistia na combinação do tremendo carisma com sua variada gama de talentos artísticos e seu muy decantado ar de entusiasmo quase infantil com a vida—ainda que, segundo o poeta Vicente Aleixandre, em alguns momentos misteriosos Lorca não fosse como uma criança, mas velho como “uma remota montanha andaluza sem idade”.

O Duende

É natural que tanta exuberância reunida numa só criatura encantasse também representantes do gênero feminino. Neruda conta que o assédio das mulheres deixava Lorca em pânico. O chileno ajudava o colega a escapar das admiradoras e se beneficiava disso, no que parece ter sido uma feliz relação de mutualismo: “algunas de esas palomas engañadas por la luz de Federico cayeron en mis brazos”.

Victoria Ocampo

Em Buenos Aires, a escritora Victoria Ocampo chamou o andaluz para jantar e tentou levá-lo para a cama. Também na capital portenha ele recebeu inúmeros bilhetinhos amorosos de mulheres durante suas palestras. Foi lá que pela primeira vez ele expôs sua célebre “Juego y teoría del duende”, em 1933. Na arte flamenca, o “duende” é uma espécie de feitiço, algo que acontece quase como um milagre mas que não se origina de um dom divino, do “ángel” ou da musa, porque sua origem é, pelo contrário, interior, é a escuridão; surge não da técnica, mas da autenticidade, de uma inspiração num momento único, mágico, de autossuperação. É como um arrepio que todos sentem, mas que ninguém pode explicar. Após a tal palestra, Lorca recebeu um bilhetinho que dizia: “Você é o maior de todos os duendes!” Certeza que a autora ficou sem resposta, mas deve ter sido, entre os ali presentes, quem melhor captou a ideia: na teoria do duende Lorca estava mesmo falando de sua própria arte.

“Me moriría por lo dulce que eres”

O hispanista italiano Indro Montanelli diz que Lorca tinha entre seus atributos “o olhar luminoso” e “a risada de criança”. Em sua “Oda a Federico García Lorca”, Neruda também dá pistas de uma personalidade encantadora: “cuando ríes con risa de arroz huracanado,/ cuando para cantar sacudes las arterias y los dientes,/ la garganta y los dedos,/ me moriría por lo dulce que eres”.

Ian Gibson conta que havia quem achasse Lorca feio, mas destaca que em muitas fotografias seu rosto ganha “uma estranha beleza”. Bom, eu sempre acho Lorca lindíssimo em 100% das fotos, sendo que as minhas favoritas são as da época da Segunda República, quando ele já tinha virado plenamente ele mesmo e estava muito seguro de sua arte e de seu valor. Mas também têm um lugar especial no meu coração as fotos dele na praia em Cadaqués em 1927, iludido e radiante de paixão por Dalí, calçando umas alpargatas ou talvez sapatilhas de bailarina e mostrando as pernocas, que me despertam inclusive estranhas sensações sinestésicas: a lembrança de uma sobremesa num restaurante bem simplão em Lisboa. Dizem que o paladar do brasileiro para os doces muito doces vem de Portugal. Voltei no tal restaurante no dia seguinte para comer qualquer prato, mesmo sem gostar de sardinha nem de bacalhau, só pra pedir a sobremesa depois—mas desta vez o restaurante estava fechado, e acabei passando várias horas a esmo pelo Chiado atrás de algum lugar que também vendesse aquele sabor, e tudo foi em vão, e no dia seguinte eu tinha que voltar ao Brasil. Nunca mais comi a tal sobremesa, sequer lembro o nome dela, mas oh! También yo me moriría por lo dulce que eres, Federiquito mío.

Gibson ainda comenta sobre alguém que se surpreendeu ao conhecer Lorca pessoalmente, ao constatar que aquele autor da mais alta literatura habitava um corpo um tanto atarracado, de pescoço curto. Talvez esperasse alguém longilíneo, delgado, pálido, lânguido, como um elfo da poesia.

E quanto à grande cabeça de Lorca, que lhe confere sempre esse quezinho de criança: quanto maior ela parece, mais eu gosto da foto. Para os detratores, Lorca era “el poeta de la cabeza gorda”. Mas muitas das pessoas que eu acho as mais bonitas são cabeçudas: Gigliola Cinquetti, Miguel Bosé. Dizem que quando o Miguel Bosé nasceu, os pais chegaram a temer que fosse uma criança hidrocefálica. E eu mesma sou cabeçuda, assim como outras pessoas da minha família, e talvez por isso meus olhos busquem tanto outros crânios e faces grandes.

O também poeta Jorge Guillén diz que junto a Lorca “se respirava uma aura que ele iluminava com sua própria luz. Então não fazia frio de inverno nem calor de verão… fazia… Federico”. Além dos recursos do andaluz para a conversação e as artes, Guillén acreditava que “havia algo interior e radical de onde tudo irradiava”.

Federico García Lorca em retratos colorizados por Klimbim/Divulgação

“A beleza brotava sempre dos seus lábios”

Algo bem pueril da personalidade de Lorca foi percebido por um amigo com quem conviveu nos Estados Unidos, John Crow. A princípio, este se sentiu incomodado com a tendência de Lorca ao autoelogio—a modéstia nunca esteve entre as qualidades do granadino. Com o tempo, porém, Crow percebeu que o poeta não estava se gabando: “Federico assombrava-se sinceramente com os próprios talentos”, nas palavras de Ian Gibson. Meu sonho seria eu me assombrar com meus próprios talentos.

Luis Buñuel teve uma amizade um tanto tumultuada com Lorca. Na juventude, quando os dois conviveram em Madrid, Buñuel era fortão e se divertia espancando homossexuais. Na verdade, o cineasta aragonês parece ter sentido em alguns momentos da vida uma inveja profunda do poeta andaluz—inveja da qual “O Cão Andaluz” é uma pista. Mas são de Buñuel estas palavras: “De todos os seres vivos que conheci, Federico é o primeiro. Não falo nem de seu teatro nem de sua poesia, falo dele. A obra-prima era ele. Me parece inclusive difícil encontrar alguém parecido. Quer estivesse ao piano tocando Chopin, quer improvisasse uma pantomima ou uma curta cena teatral, ele era irresistível. Podia ler qualquer coisa e a beleza brotava sempre dos seus lábios. Tinha paixão, alegria, juventude. Era como uma chama”.

“Federico, que coração!”

Alguns meses antes de seu assassinato, Lorca leu seus “Sonetos del amor oscuro” a alguns felizardos, entre eles o poeta Vicente Aleixandre, futuro Nobel de Literatura. Terminada a leitura, Aleixandre exclamou: “Federico, que coração! Como deve ter amado! Como deve ter sofrido!”.

É o próprio Aleixandre quem conta esta história, em seu panegírico intitulado simplesmente “Federico”, publicado em 1937, ainda na Guerra Civil. Ele define os “Sonetos del amor oscuro” como “prodígio de paixão, de entusiasmo, de felicidade, de tormento, puro e ardente monumento ao amor, em que a primeira matéria é a carne, o coração, a alma do poeta em processo de destruição”. Eu, que sou tosca, e sabendo que Lorca era da cachorrada, defino os sonetos assim: piranha também ama, piranha também chora.

Do mesmo texto “Federico”, que é toda uma lindeza delicada: “Seu coração era como poucos apaixonado, e uma capacidade de amor e de sofrimento enobrecia cada dia mais aquela nobre fronte. Amou muito […]. E sofreu por amor, o que provavelmente ninguém soube.”

Lorca deve ter sido um homem muito feliz e realizado por um lado: triunfou nas letras, ganhou muito dinheiro com sua arte e foi todo um superstar em vida; era sempre o centro das atenções e vivia cercado por sua própria corte—um monte de gente que lhe disputava atenção e que se satisfazia só com estar perto dele ou lhe ser útil. Por outro lado, era visto como sexualmente anormal pelo senso comum da época. Eu li, não lembro mais onde, o testemunho de alguém que conviveu com Lorca em que a pessoa lamentava que um homem tão afetuoso com as pessoas, que gostava de gente e era tão querido, nunca tenha tido direito a viver seus amores em público… Enfim, tanto a vida como a morte de Lorca são repletas de injustiças. Basta lembrar que, além do assassinato, além do martírio que precedeu o assassinato, ainda sumiram com o corpo e até hoje ele não teve o direito a um funeral, 85 anos depois.

Gabriela Quintela – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo

*”Sólo soy una persona”, assim se define Gabriela Quintela, jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia e com passagens por veículos como Folha de S.Paulo e R7/Record. Siga @gabiquintela.

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O jornalista e crítico de artes Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo na OLA Podcasts. Foto: Edson Lopes Jr.

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