Morre João Acaiabe, grande artista negro pioneiro do teatro, TV e cinema

Morreu João Acaiabe, grande artista negro pioneiro do teatro, cinema e televisão no Brasil, aos 76 anos, vítima de Covid-19. Ele havia sido internado por conta do novo coronavírus, e precisou ser intubado, mas, infelizmente, sofreu uma parada cardiorrespiratória no fim da noite desta quarta (31) e não resistiu. A informação de sua morte foi confirmada ao Blog do Arcanjo por seu sobrinho, o também ator Eduardo Acaiabe, que permaneceu o tempo todo cuidando do tio, bem como a filha do ator, Taís Acaiabe, que viajou do Rio de Janeiro para São Paulo para estar ao lado do pai.

Em dezembro último, João Acaiabe foi indicado por sua trajetória de 50 anos de carreira artística à segunda edição do Prêmio Arcanjo. Na época, fez questão de telefonar para este colunista, dizendo de sua alegria com o reconhecimento. É preciso adiantar que o júri já havia se reunido no começo de março, para estabelecer os vitoriosos, e o nome de João Acaiabe está entre os escolhidos.

Em outubro de 2020, ele foi um dos artistas especialmente convidados para lançar a programação da SP Escola de Teatro Digital, também a convite deste jornalista, ao lado de nomes como Sergio Mamberti, Maitê Proença e Ivam Cabral. Na época, atuou direto de sua casa, adaptando-se ao teatro digital. Também fez inúmeras lives como contador de histórias na quarentena, sempre conquistando público farto em seu Instagram.

Nascido em Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista, em 14 de maio de 1944, ele era um dos artistas mais queridos e respeitados da cena artística paulistana. João Acaiabe conquistou diferentes gerações de crianças na TV com os personagens Tio Barnabé, do Sítio do Pica-pau Amarelo, na Globo entre 2001 e 2016, e Tio Chico, em Chiquititas, no SBT entre 2013 e 2015. Entre 1978 e 1983, apresentou o programa infantil Bambalalão, grande sucesso na TV Cultura.

O artista foi um dos primeiros atores negros alunos da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP, tradicional escola de formação de atores do país. A estreia em novelas foi em A Viagem, na TV Tupi, em 1975. Outro papel marcante foi Benedito, na série Tenda dos Milagres, inspirada na obra de Jorge Amado, na Globo, em 1985. Ele voltaria à obra do escritor baiano em 1998, interpretando o Sampaio na minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, na qual fez par com Suely Franco, no papel de sua mulher, Norma, a melhor amiga de Dona Flor (Giulia Gam).

Ainda na Globo, ele ainda fez novelas como Vila Madalena, em 1999, Eterna Magia, em 2007, e Segundo Sol, em 2018, interpretando o pai de santo Didico. Seu último trabalho na TV foi na série Se Eu Fechar os Olhos Agora, também na Globo, em 2019, na qual deu vida ao personagem Sinval.

No teatro, atuou em várias dezenas de espetáculos, desde Pedro Pedreiro, em 1967, passando por Cândido, em 1970, Lulu, em 1974, e Anjo Negro, em 1990. No cinema, fez mais de 20 filmes, entre eles o clássico Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman, em 1981.

Em 1986, ganhou o Kikito do Festival de Cinema de Gramado de Melhor Ator com o curta O Dia em Que Dorival Encarou o Guarda. Em 2016, foi homenageado como Artista do Ano (I Prêmio AATA de Teatro Amador). Em 2020, foi indicado ao Prêmio Arcanjo por sua brilhante trajetória, o qual venceu. Também em 2020, foi celebrado pelo Os Crespos Cia. de Teatro por seus 50 anos de carreira em uma live especial.

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Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Band e UOL. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordenada a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Foto: Edson Lopes Jr.

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