Morre Oriana Jara, mulher ícone da luta pelos imigrantes latinos no Brasil

Por Miguel Arcanjo Prado

Morreu Oriana Jara, aos 76 anos, no último dia 2 de dezembro, vítima de um câncer. Imigrante chilena em São Paulo, a socióloga, psicóloga, escultora e ativista foi uma mulher fundamental da luta pelos direitos dos imigrantes latinos no Brasil. Ela fundou a ONG PAL – Presença da América Latina e presidiu a Rede Sem Fronteiras. Como bem diz a pronúncia de seu sobrenome em espanhol, Oriana era uma mulher rara. Deixa o marido, Alfredo Maculet, e os dois filhos do casal, Ignacio e Manuela Maculet.

Sempre presente nas festas e reivindicações da comunidade latino-americana em São Paulo, como o Festival Soy Latino no Memorial da América Latina, a Festa do Imigrante ou a Marcha dos Imigrantes, Oriana era muito respeitada por todos e tinha carisma e autoridade característicos.

Todos que a conheceram de perto sabem que ela era das pessoas mais acolhedoras quando se deparava com imigrantes recém chegados à metrópole paulistana, fazendo questão de disponibilizar sua ajuda tanto para o calvário dos trâmites burocráticos bem como dar uma palavra de apoio àqueles que deixaram seu berço natal em busca de nova vida em terras estrangeiras.

Oriana também fazia questão de se aproximar de qualquer brasileiro ou brasileira que se somasse à luta dos imigrantes, fazendo questão de agradecer o apoio e o entendimento das dificuldades que é viver em um país diferente do seu.

Oriana Jara Maculet com os filhos Manuela e Ignacio – Foto: Arquivo de família

Oriana Isabel Jara Maculet nasceu em Valparaíso, Chile em 20 de novembro de 1944. Fez seus estudos primários e secundários no Colégio dos Sagrados Corações, das Monjas Francesas em Valparaíso. Formou-se em biblioteconomia, pela Universidade do Chile, Santiago (1977), em sociologia, pela Universidade de Lovaina, Bélgica (1980), em psicologia, pela Universidade Pichon Riviére, Buenos Aires, Argentina (1990).

Viveu na Europa de 1970 a 1978 e residiu na Guatemala de 1978 a 1980, onde trabalhou na Universidade Rafael Landivar. De 1980 a 1984, residiu em São Paulo, como orientadora das teses de mestrado da Faculdade de Sociologia e Política. De 1984 a 1990, cursou psicologia social na Escola P. Rivière, Buenos Aires. Regressou a São Paulo em 1995, passando a exercer inúmeras atividades de caráter beneficente, artístico e cultural, sobretudo ligados à comunidade imigrante latino-americana.

Militante progressista e democrata que enfrentou a ditadura militar chilena antes de vir para o Brasil, ela atuou no Conselho da Cidade de São Paulo, no Comitê Intersetorial da Política Municipal para a População Imigrante e no Conselho Municipal de Imigrantes, entre outros órgãos públicos.

Oriana teve trabalho reconhecido na representatividade da mulher imigrante e ainda foi responsável pelo lançamento de uma série de livros com narrativas migratórias de mulheres de diferentes países da América do Sul. Ela também reuniu mulheres migrantes em um projeto de arpilleras, técnica de bordado que se tornou um ícone da resistência à ditadura chilena.

Em entrevista ao site El Guia Latino em 2015, Oriana Jara falou de sua trajetória de reconhecer-se como mulher chilena e latino-americana e disse a importância de lutarmos contra o silenciamento da comunidade imigrante, a quem sempre deu voz.

“Precisamos dar voz real aos imigrantes, permitir organizar coletivos onde eles escutem sua própria voz. Que a gente se escute e ocupe seu espaço de pessoa, para falar aquilo que viveu. Porque, daí, vão a encontrar soluções”, deixou de lição.

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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