Artistas negros conquistam SatyriBlack no Festival Satyrianas: ‘Corpos pretos presentes’

Por Miguel Arcanjo Prado

Os atores Mariana França e André Lu vivenciaram uma situação horrível no Festival Satyrianas de 2019: foram alvo de xingamentos racistas em plena praça Roosevelt, ao lado do também ator Israel Silva, enquanto faziam uma performance que buscava justamente denunciar o racismo estrutural brasileiro.

Para evitar que coisas terríveis assim se repitam e dar protagonismo a corpos negros em um dos maiores festivais artísticos paulistanos, André Lu e Mariana França propõem neste ano a SatyriBlack, uma série de eventos nos quais pretas e pretos estão sob os holofotes. Os dois contaram com orientação do autor deste Blog do Arcanjo no projeto curatorial assinado pela dupla.

Os atores André Lu, Israel Silva e Mariana França no Festival Satyrianas 2019: eles foram vítimas de xingamentos racistas enquanto faziam uma performance na praça Roosevelt; a PM não prendeu o criminoso racista o que fez este Blog do Arcanjo questionar: “Por que quando o crime é racismo a polícia não respeita a Lei?” – Foto: Caca Pereira/Coletivo Fotomix – Blog do @miguel.arcanjo

SatyriBlack chega em momento importante: um ano tão difícil para o povo negro, sobretudo com os assassinatos brutais de dois homens negros por agentes da segurança brancos: George Floyd, nos EUA, e Beto Freitas, no Brasil, por seguranças do supermercado Carrefour.

A atriz Mariana França, da Cia. de Teatro Os Satyros – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

“O caso racista ocorrido conosco ano passado, durante uma performance, trouxe fortemente à tona o fato de que a presença dos nossos corpos pretos ainda incomoda muitos. Passado um ano, não só voltamos ao festival com os nossos trabalhos dentro da companhia, como trouxemos convidades de peso para fortalecer e marcar presença. Como na canção que cantávamos na cena do espetáculo Baderna Planet: ‘Quando venho de Luanda eu não venho só!'”, diz a atriz Mariana França.

O ator André Lu, da Cia. de Teatro Os Satyros – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

O ator e cantor André Lu também celebra a ação. “O SatyriBlack chegou num momento muito importante. 2020 foi e tem sido um ano de muita resistência para todes e trazermos discussões sobre questões da pele preta para um festival como o Satyrianas é mais uma forma de luta. Luta em forma de arte, de trocas e de informação. É uma celebração para relembrarmos os corpos pretos que já se foram e reafirmarmos que estamos aqui, presentes!”, pontua o artista.

Para o coordenador geral da Satyrianas, Gustavo Ferreira, “Satyriblack traz os questionamentos e a representatividade mais do que necessários para a sociedade e as artes”. E comemora: “Um projeto incrível que entra na programação da Satyrianas desse ano para ficar”.

O ator e dramaturgo Lucas Costa, autor de Memórias Póstumas de Um Neguinho, corrobora a importância do evento. “A força do teatro negro e dos movimentos negros pelo mundo e a necessidade vital de entender a presença negra no Brasil mostram que abrir espaços para a discussão é uma obrigação para quem se diz antirracista”.

O dramaturgo e ator Lucas Costa – Foto: Pablo Bernardo/SegundaPreta/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Ivam Cabral, fundador do Satyros ao lado de Rodolfo García Vázquez, afirma que a iniciativa da dupla de atores negros da companhia contribui para que, além da sociedade como um todo, a própria categoria artística perceba o racismo estrutural que ainda reproduz. “Precisamos levantar essa discussão sobre o racismo estrutural no Brasil. Todos nós do Satyros aprendemos muito depois do terrível episódio que aconteceu com os nossos artistas no ano passado. Ser antirracista é obrigação de todos nós”, conclui.

A cantora, atriz e diretora Bia Nogueira – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Programação SatyriBlack no Festival Satyrianas 2020

Curadoria: André Lu e Mariana França 
Onde: Sala Chica Xavier
Link: www.sympla.com.br/satyrianas2020-satyriblack 

SEXTA-FEIRA, 04 DE DEZEMBRO

O dramaturgo Marcos Fábio de Faria – Foto: Annelize Tozetto/Festival de Curitiba – Blog do @miguel.arcanjo

15h – MESA DE DEBATE | ESCRITAS E DRAMATURGIAS NEGRAS (PAPOMIX): Mesa de debate sobre dramaturgias negras. A mesa irá realizar uma troca sobre vivências, processos de escrita, pesquisas e reflexões sobre o corpo preto no meio artístico. Com Bia Nogueira, Lucas Costa e Marcos Fábio de Faria. (60 min). Onde: Sala Sympla / Zoom / Facebook. Livre.

Link: https://www.sympla.com.br/mesa-de-debate–escritas-e-dramaturgias-negras—papomix__1068128 

A multiartista Andréia Maressa – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

19h – SARAU MARESSANDO: Sarau artístico-cultural comandado pela multiartista Andréia Maressa. Durante o ano 2020, vivemos uma pandemia causada pela COVID-19 e o isolamento social provocou a artista a realização do Sarau Maressando Online. Um encontro de talentos que celebra a resistência dos corpos pretos nas artes. (60 min). Onde: Instagram. Livre. 
Link: www.instagram.com/_maressando 

O ator e dramaturgo Edson Duavy – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

20h – ECOS DA NOITE: A partir de um momento em que o próprio ator foi abordado de forma violenta pela polícia na sua adolescência, é criada uma alegoria sobre o que acontece quando saímos dos limites que a sociedade nos impõe e como reagimos quando vivemos momentos de injustiça, violência e preconceito. (10 min). Texto, direção e interpretação: Edson Duavy. Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre. 
Link: https://www.sympla.com.br/ecos-da-noite__1068142 

O músico e sonoplasta Pedro Canoeiro – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

20h30 – PEDRO CANOEIRO (SATYRISOM): Pedro Canoeiro é um projeto musical do sound designer e produtor Pedro Caetano. O projeto busca uma sonoridade telúrica mesclando ritmos afro-indígenas com elementos digitais e eletrônicos. (30 min). Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/pedro-canoeiro—satyrisom__1068146 

SÁBADO, 05 DE DEZEMBRO

00h30 – TERMINAL PRINCESA ISABEL (DRAMAMIX): Em São Paulo, duas irmãs – uma motorista de ônibus e uma estudante de Artes Cênicas da USP – conversam durante uma tarde de novembro sobre presente e futuro, trazendo à tona questões sobre raça, gênero e classes sociais; e confrontando revelações perturbadoras do passado sobre sua falecida mãe. (40 min). Texto: Guilherme Dearo. Direção e elenco: Mariana França e Suelen Almeida. Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/terminal-princesa-isabel—dramamix__1068151 

Os atores Orlando Caldeira, Drayson Menezzes e Sidney Santiago Kuanza – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

11h – VIVÊNCIAS ARTÍSTICAS: CORPOS PRETOS EM CENA (PAPOMIX): Mesa de debate sobre vivências artísticas no teatro e no audiovisual. Reflexões sobre representatividade e como corpos pretos se inserem nas artes. Com Sidney Santiago Kuanza, Drayson Menezes e Orlando Caldeira. Mediação: Luciana Pioto. (60 min). Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/vivencias-artisticas-corpos-pretos-em-cena—papomix__1068154 

A cantora e atriz Lud-J – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

14h – LIVE | PRESENÇA NEGRA NO TEATRO MUSICAL (PAPOMIX): Live bate-papo com artistas do teatro musical. Conversas, experiências no mercado do teatro musical, dicas e músicas. Atores e atrizes negrxs compartilhando seus processos de inserção nos palcos e os desafios existentes no Teatro Musical. Apresentação: Júlia Sanches. Com Lud-J, Letícia Soares, Vitor Moresco e outros. (60 min). Onde: Instagram. Livre.
Link: www.instagram.com/ossatyros 

15h30 – (R)EXISTÊNCIA NEGRA NA TELA: AUDIOVISUAL NEGRO (PAPOMIX): Mesa de debate sobre a presença negra no audiovisual com estudiosas e realizadoras. Perspectivas e olhares sobre a cena independente e comercial do cinema negro. Com Lygia Pereira, Viviane Pistache e Carlos Cruz. (60 min). Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/rexistencia-negra-na-tela-audiovisual-negro—papomix__1068157 

A roteirista e crítica Viviane Pistache – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

18h00 – MÃE DO ENTARDECER – O trabalho faz referência e tem como primeira inspiração estranhas imagens do século XIX em que mulheres negras são retratadas com guarda-chuvas sobre as cabeças, erguidos de uma forma incomum, como fardos sobre os turbantes. Ainda, faz referência a ancestral Oyá e seu título “Iansã”, a mãe do entardecer. A performer mistura o rastro de realidade dado pelas fotografias antigas e histórias ancestrais, para falar sobre corpos de mulheres negras de ontem e de hoje que estão em constante risco, mas reagem e resistem as intempéries. Guarda-chuvas ganham formas improváveis, em cuidadosos trabalhos de artes visuais e gestos performativos. (30 min). Performer: Mariana Maia. Onde: Zoom/Sympla. Livre.
Linkhttps://www.sympla.com.br/performance–mae-do-entardecer__1068746

DOMINGO, 06 DE DEZEMBRO

15h – TEATRO NEGRO INDEPENDENTE – COM CIA. AGBÁRA (TEATRO): Leitura dramatizada do texto “Quando eu morrer vou contar tudo a Deus”, de Maria Shu + bate-papo sobre resistência do teatro independente em tempos pandêmicos; compartilhamento de processos e pesquisas de dramaturgias negras e linguagem de Slam. Com Cia. Agbára. (60 min). Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/teatro-negro-independente—com-cia-agbara—teatro__1068161 

A rainha do Carnaval de rua de BH Cristal Lopez – Foto: Leonardo Lima/Festival de Curitiba – Blog do @miguel.arcanjo

21h – CORPAS T, PELES PRETAS: INFLUÊNCIAS TRANS (PAPOMIX): Bate papo sobre ancestralidade, negritude e resistência da comunidade trans. Com Marcia Daylin e Cristal Lopez. (60 min). Onde: Sympla / Zoom / Facebook. Livre.
Link: https://www.sympla.com.br/corpas-t-peles-pretas-influencias-trans—papomix__1068163 

Confira programação completa do Festival Satyrianas 2020

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA-USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito três vezes pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. Nascido em Belo Horizonte, vive em São Paulo desde 2007. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Passou por Globo, Record, Folha, Contigo, Editora Abril, Gazeta, Band, Rede TV e UOL, entre outros. Desde 2012, faz o Blog do Arcanjo, referência no jornalismo cultural. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. Em 2020, passou a ser Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro e começou o Podcast do Arcanjo em parceria com a OLA Podcasts. Foto: Bob Sousa.

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