Teatro Ruth Escobar é salvo após risco de virar igreja evangélica

Por Miguel Arcanjo Prado

A classe teatral paulistana ficou comovida e assustada com a notícia de que uma placa em frente ao Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, anuncia: “vende-se ou aluga-se”, como mostra a foto acima. Houve igreja evangélica interessada no espaço. Setores do poder público e da própria classe artística trabalharam para que o teatro não se tornasse um templo religioso.

Atualizado em 31/10/2020: Atilio Bari, da Apetesp, declarou nas redes sociais: “Nem tudo está perdido. A possibilidade de fechamento do Teatro Ruth Escobar sensibiliza todos os que entendem a importância desse espaço para as artes cênicas do nosso país. A Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura e do vereador Daniel Annenberg, viabilizaram uma verba por meio de uma emenda parlamentar, que permitirá saldar uma parte dos débitos do espaço, que chegaram a níveis estratosféricos desde o inicio da pandemia. A Apetesp confia que será encontrada uma solução para que a cidade não perca esse templo do teatro brasileiro.”

Paulo Motta, administrador do Teatro Ruth Escobar pela Apetesp, disse antes da resolução ao Blog do Arcanjo que não pretendia permitir que o lugar virasse igreja. Ele adiantou que havia uma conversa em andamento com setores artísticos interessados no espaço, sem dar mais detalhes. “É um teatro muito importante e queremos que continue assim”, afirmou.

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O palco é crucial na história do teatro brasileiro e foi espaço de resistência artística aos violentos anos da ditadura militar. Foi lá que os atores do Teatro Oficina foram espancados pelo Comando Caça aos Comunistas em 1968, quando encenavam Roda Viva, de Chico Buarque, sob direção de Zé Celso. No elenco estavam nomes como Pedro Paulo Rangel, Zezé Motta, Marieta Severo e Marília Pêra. O Teatro Ruth Escobar também abrigou O Balcão, do francês Jean Genet, sob direção do argentino Victor García em 1969.

“Soube que uma igreja evangélica fez uma oferta ao espaço”, afirmou uma veterana atriz, que preferiu não se identificar, ao Blog do Arcanjo. “É um absurdo caso isso venha acontecer de fato, não podemos permitir”, pediu. A administração do Teatro Ruth Escobar não confirmou o interesse de igreja no espaço.

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Antes da resolução, este Blog do Arcanjo pediu ao poder público municipal e estadual que interfirissem nesta história e preservassem um marco do teatro brasileiro.

O Teatro Ruth Escobar deve permanecer como um espaço de salas teatrais, assim como foi sonhado por sua idealizadora, a grande atriz, deputada estadual e mulher da cultura Ruth Escobar (1935-2017). Qualquer outro destino que não seja o das artes cênicas para o Teatro Ruth Escobar é uma afronta à história do teatro brasileiro.

Placa colocada pela Prefeitura de São Paulo lembra importância histórica do Teatro Ruth Escobar
Fachada do Teatro Ruth Escobar
Entrada do Teatro Ruth Escobar em 1968
Cena de O Balcão, peça histórica do teatro brasileiro, no Teatro Ruth Escobar
O argentino Victor García e Ruth Escobar – Foto: Arquivo Pessoal
O francês Jean Genet e Ruth Escobar – Foto: Arquivo Pessoal
Camarim do Teatro Ruth Escobar destruído pelo Comando Caça aos Comunistas que agrediram atores de Roda Viva em 1968
Marília Pêra na peça Roda Viva, de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, em 1968, no Teatro Ruth Escobar
Coro de Roda Viva, com Zezé Motta e Pedro Paulo Rangel
Ruth Escobar (à dir.) nas Diretas Já ao lado de Dina Sfat e Raul Cortez
O diretor André Latorre, do musical Cabaret, na entrada do Teatro Ruth Escobar em 2013 – Foto: Eduardo Enomoto
A atriz Rita Gutt à frente do elenco do musical Cabaret, sucesso de público no Teatro Ruth Escobar em 2013 – Foto: Eduardo Enomoto
A atriz Liza Caetano em cena do musical Hairspray no Teatro Ruth Escobar em 2014 – Foto: Eduardo Enomoto
O tenista Fernando Meligeni e a atriz Carol Hubner no saguão do Teatro Ruth Escobar após estreia da peça E Por Falar em Sexo em 2015

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1 Resultado

  1. 23/10/2020

    […] Admirada e respeitada pelo público e pela crítica, a atriz está no ar na Globo na reprise da novela A Força do Querer, de Gloria Perez. Na trama, Jane interpreta ela mesma, ídolo de Nonato, personagem de Silvero Pereira. No último dia 14 de outubro, Jane escreveu em suas redes sociais: “Amo ter feito essa novela, obrigada Gloria Perez”. Lembre outras mortes na cultura em 2020Teatro Ruth Escobar pode virar igreja evangélica […]

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