Rubens Gennaro cria ponte latina no cinema ao estrear Agua dos Porcos na Argentina

Por Miguel Arcanjo Prado

O produtor cinematográfico brasileiro Rubens Gennaro celebra mais um feito internacional: a estreia na Argentina do filme Agua dos Porcos (Águas Selvagens, no Brasil), de Roly Santos, a partir desta quinta (30) na plataforma de streaming Cine.Ar.

Internacional: o produtor cinematográfico Rubens Gennaro, da Laz Audiovisual, ao lado da atriz Mayana Neiva no set de Agua dos Porcos – Águas Selvagens – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

O longa, uma coprodução Brasil-Argentina comandada por ele e sua sócia Virginia Moraes, com a produtora paranaense Laz Audiovisual, no mercado desde 1989, traz elenco multinacional e tem sua trama policial, de gênero neo-noir, focada na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, tendo como pano de fundo o tráfico humano investigado por um ex-policial.
 
O diretor argentino Roly Santos comanda a superprodução cinematográfica rodada em grande parte no Hotel La Dolce Vita, em Tijucas do Sul, no Paraná. Ela está baseada no livro El Muertito, do também argentino Oscar Tabernise, autor do roteiro.

Equipe de Aguas dos Porcos – Águas Selvagens posa durante as filmagens – Foto: Chaparral Pictures/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Protagonizado pelo ator uruguaio Roberto Birindelli, na pele do investigador argentino, e pela atriz brasileira Mayana Neiva, como uma enigmática mulher, o longa falado em castelhano e português ainda conta no elenco principal com os argentinos Juan Manuel Tellategui, Daniel Valenzuela, Mausi Martínez, Mario José Paz, o uruguaio Nestor Núñez e os brasileiros Allana Lopes, Leona Cavalli, Luiz Guilherme e Anastácia Custódio, entre outros.

Nesta exclusiva Entrevista de Quinta ao Blog do Arcanjo, Rubens Gennaro fala sobre o processo de se fazer um filme em coprodução internacional, comemora a estreia argentina de Agua dos Porcos, adianta detalhes da futura estreia no Brasil, onde o filme se chamará Águas Selvagens, lembra a parceria com o astro de Hollywood Anthony Quinn, com quem produziu o longa Oriundi em 2000, e ainda comenta a situação atual de nosso audiovisual.

Leia com toda a calma do mundo.

Imagem do abre: Os protagonistas Roberto Birindelli e Mayana Neiva em Agua dos Porcos (Águas Selvagens) – Foto: Chaparral Pictures/Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Qual a expectativa para a estreia de Agua dos Porcos na Argentina na plataforma de streaming Cine.ar?
Rubens Gennaro –
É de boa para ótima a perspectiva para o filme desde o ponto de vista de seu tema. O filme aborda problemas fronteiriços entre nossos países e são problemas graves para ambos os lados, que ao longo dos anos insistem em não querer resolvê-los, pois fingem não ter consciência do tráfico internacional de crianças e pessoas. E, para tais, nem a Argentina nem o Brasil têm métodos e ou políticas públicas eficazes para conter esses crimes contra a infância e a juventude.

Miguel Arcanjo Prado – O filme vai ganhar nome diferente no Brasil? Já tem alguma previsão de estreia brasileira?
Rubens Gennaro –
O filme tem o título de Águas Selvagens no Brasil, considerando a beleza e os componentes hídricos da região fronteiriça, já que o título argentino refere-se às “las  idiosincrasias argentinas”. O filme no Brasil está sob a administração de lançamento e distribuição da Imagem Filmes, com previsão para chegar, às salas de cinema, após o período de pandemia.

Integração latina no cinema: o produtor cinematográfico Rubens Gennaro entre os atores Daniel Valenzuela e Mario José Paz, da Argentina, no set de Agua dos Porcos – Águas Selvagens – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Como é trabalhar com um elenco multinacional? Como vocês escolheram estes nomes?
Rubens Gennaro –
É uma experiência de paciente aprendizado e contínua interação. Nossas circunstâncias  nos condicionaram a buscar as parcerias com o modelo de cinema argentino, pois entendemos que os modelos brasileiro; carioca way of life e ou o paulistano yupee , para nós são conceitos de metrópoles já esgotados que são excludentes e jamais abordaram temas regionais com os nossos países limítrofes. O Brasil tem muitos outros brasis. Há uma civilização no Mercosul e nesta há brasis! Escolhemos o elenco dentro da disponibilidade técnica, artística e a agenda de cada um. Sempre de comum acordo entre as produtoras. E cumprindo as formalidades legais da Ancine e do Incaa.

Diretor argentino: Roly Santos, ao centro, dirige os atores Juan Manuel Tellategui e Mayana Neiva no set de Agua dos Porcos – Águas Selvagens – Foto: Chaparral Pictures/Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – O que diz do trabalho do diretor argentino Roly Santos neste filme?
Rubens Gennaro –
Roly Santos nos oferece uma bagagem com conteúdo do cinema argentino e nós lhe oferecemos a nossa reciprocidade brasileira. Em um primeiro momento, bancamos toda a produção no Brasil. Ele atuou de maneira profissional e amistosa. Todas as equipes de ambos os países cresceram em interações e esforços para realizar o melhor. É um processo que começa sob muito preconceito e desconfiança, porém ao longo do trabalho cooperativo a amizade e o aprendizado se consolidam. Surge um clima de interação e cooperativismo alentador!

Elenco multinacional: set do filme Agua dos Porcos – Águas Selvagens, com o ator uruguaio Roberto Birindelli à esquerda e o ator argentino Juan Manuel Tellategui ao centro – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – O filme é uma coprodução Brasil-Argentina. Acha que nosso cinema precisa se aproximar mais do cinema hermano, por quê?
Rubens Gennaro –
Morei alguns meses na Argentina de 1984 a 1985. Em San Miguel de Tucumán. Em 2000, em Washington na OEA e depois na Embaixada Brasileira lá, com Anthony Quinn, apresentamos o filme Oriundi no Kennedy Center e lá conhecemos também a Maria Kodama, viúva e herdeira de Jorge Luis Borges, que nos ofereceu autorização para filmarmos algumas obras do escritor. E também o grupo chefiado por Oscar Tabernise havia estado em Curitiba com o propósito de o Anthony Quinn ser o protagonista de um filme projeto El Arbor en Llamas, para o qual Eugenio Zanetti seria diretor argentino e a Laz Audiovisual a produtora brasileira associada ao projeto. Infelizmente, Anthony Quinn partiu deste mundo e nossos projetos em parcerias ficaram engavetados. Até que nossa amizade com o Oscar Tabernise nos trouxe o livro El Muertito e na sequência o roteiro de Aguas Selvagens/Agua dos Porcos e o diretor Roly Santos. Evoluímos o projeto nas instâncias da Ancine e Incaa desde 2015 para gravarmos em 2018 e lançarmos em 2020/21. Há tempos entendemos que o cinema argentino é o cinema latino mais aceito nos mercados internacionais após o mexicano e está em um crescente de produções. Assim, desejando aprender com os argentinos e no intuito de criarmos pontes e caminhos de coprodução latino-americanos, nos aventuramos neste sonho, que com as ressalvas da nossa difícil situação econômica e política, felizmente conseguimos realizar. Não podemos trair os anseios de parecerias fraternas entre brasileiros e argentinos. Às novas gerações de cineastas de ambos os países, espero que usufruam melhor das estradas abertas e pavimentadas que concretamos.

Parceria na telona: o produtor cinematográfico Rubens Gennaro ao lado da atriz Leona Cavalli no set de Agua dos Porcos – Aguas Selvagens – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo

Miguel Arcanjo Prado – Como é a parceria com a também produtora Virginia Moraes na Laz Audiovisual?
Rubens Gennaro –
Virginia Moraes e eu fomos um casamento que durou 30 anos. Temos três filhos e uma neta. Nos separamos há 4 anos; porém, continuamos amistosos e produtivos sócios. Sou extremamente grato a ela!

Miguel Arcanjo Prado – Como você enxerga este momento delicado que vive o audiovisual?
Rubens Gennaro –
A terrível e dramática situação da Indústria Audiovisual Brasileira e toda a nossa Cultura em algum momento será superada, por um ressurgimento e esplendor. Temos que cumprir com nossa histórica missão de nos unirmos aos nossos similares latino-americanos e compormos uma resultante democrática, de sonhos e esperanças! Realizando, com muito trabalho, esforços, suor e algumas lágrimas… as tarefas que nos levarão a este ressurgir!

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