Daniela Mercury acertou ao puxar Anitta para a política?

Baiana foi a primeira a desafiar a carioca a se posicionar. E, pelo jeito, Anitta gostou.

POR MIGUEL ARCANJO PRADO — A cantora Daniela Mercury jamais se acovardou em se posicionar a favor dos direitos humanos e contra qualquer que fosse o político que defendesse algo diferente disso. Mesmo que isso lhe custasse dinheiro e perda de parte dos fãs, diante do ódio político que tem tomado cegamente muitos no Brasil contemporâneo. E pelo jeito, Daniela fez uma importante discípula: a cantora Anitta, atualmente o nome mais poderoso do show business no Brasil.

Para recordar a audácia de Daniela, basta lembrar o Festival de Inverno de Guaranhuns de 2018, quando a Rainha do Axé usou corajosamente seu palco para defender a liberdade de expressão artística quando a atriz transexual Renata Carvalho teve sua peça censurada no mesmo evento pernambucano. O contundente discurso que Daniela fez naquele palco, naquela cidade, é histórico. Quem não viu na época, deveria assistir, pois está disponível no YouTube.

Assim como resolveu lidar com naturalidade com sua sexualidade, colocando o preconceito no escanteio diante de sua originalidade, Daniela lida também com os fatos políticos recentes no Brasil que deixam o mundo estarrecido de um só modo: o inteligente.

Ao tornar público seu relacionamento e posterior casamento com Malu Verçosa, hoje sua empresária, Daniela deu importante passo para o fim da hipocrisia reinante na indústria musical, onde a heterossexualidade não é o único padrão vigente todos nós sabemos. Ela trouxe para a frente das câmeras o que durante muito tempo precisou ficar escondido. Com tal ato de coragem, acabou ganhando o respeito do público mais jovem, para o qual orientação sexual diferente do padrão social vigente não é mais um bicho de sete cabeças.

Quando Daniela em 2018 desafiou Anitta a se posicionar na corrida eleitoral à Presidência da República, conseguindo que a colega declarasse “Não apoio o Bolsonaro” nas redes, a baiana não só acertou em cheio como pareceu ter influenciado incontestavelmente a carioca.

Nesta quarentena por conta da pandemia do novo coronavírus, Anitta tem se mostrado cada vez mais politizada em seu Instagram, onde influencia o impressionante número de quase 47 milhões de internautas, o que deixa qualquer político tremendo de medo. Afinal, Anitta exerce peso gigantesco junto à opinião pública nas redes, sobretudo entre a parcela mais jovem do eleitorado, ou seja, o futuro.

Tal novo posicionamento da Rainha do Pop, estimulado lá atrás pela Rainha do Axé, vem dando frutos internacionais. Anitta acaba de participar de reunião da Unesco com grandes nomes do mercado cultural internacional, representando o Brasil e em busca de políticas que salvem o setor.

E não se fez de rogada: disse que os artistas brasileiros não estão recebendo ajuda financeira do governo federal nesta pandemia — desmentindo o que declarou à Unesco a secretária da Cultura bolsonarista Regina Duarte dias atrás — e ainda denunciou internacionalmente o deputado Felipe Carreras (PSB-PE) de tentar com uma emenda obscura retirar os direitos autorais dos artistas.

Não custa lembrar que depois que Anitta entrou nessa história o tal deputado pernambucano voltou atrás e decidiu por arquivar seu projeto de surrupiar os direitos autorais da classe artística.

A amizade com a advogada Gabriela Prioli também tem peso nesse novo posicionamento de Anitta. A advogada fez história no começo da CNN Brasil por suas opiniões embasadas que muitos não queriam ouvir por não ter capacidade de confrontar com argumentos racionais. É ela quem vem munindo Anitta de novos discursos. E Anitta, neste processo de aprendizado, faz questão de ser simples tal qual seus milhões de fãs, aprendendo política sem qualquer tipo de pedantismo, destrinchando de modo simples as engrenagens do poder.

Anitta se deu conta de que os políticos não são seres inatingíveis, muitos pelo contrário, são servidores públicos que devem satisfação ao povo de seus atos. E, num contexto democrático, devem respeitar as leis e lutar pela vida e a liberdade.

Anitta, assim como Daniela, torna-se cada vez maior ao se posicionar. Tanto a baiana quanto a carioca entram para a história, como artistas que não fecharam os olhos para o que não deve jamais ser aceito em um ambiente democrático onde vidas humanas importam. E ao agir de tal forma, Anitta, assim como Daniela e os outros artistas que se posicionam mesmo pagando um preço caro, deixam pequenininhas aquelas estrelas que permanecem trancadas em seus armários, sem opinião e imersas no vazio de uma alegria que não é capaz de pensar por conta própria.

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