Crítica: Entrevista com Phedra, do drama-entrevista ao primor narrativo

A atriz Márcia Dailyn é Phedra D. Córdoba na peça Entrevista com Phedra de Miguel Arcanjo Prado – Foto: Edson Lopes Jr. – Coluna @miguel.arcanjo UOL

Entrevista com Phedra
Crítica por Marcos Fábio de Faria*
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪

Entrevista com Phedra é um espetáculo genial. À parte esse comentário, devido à pessoalidade nele impressa, confesso, parto para outros interesses. Todo autor vive com o demônio do começo, esse que nos atormenta dizendo: a recepção deve ser ganha pelo início. Recordo-me, por exemplo, da genialidade de Guimarães Rosa e seu “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. ” Essas três frases nos engancham na narrativa e, por elas, somos colocados dentro de uma das mais instigantes histórias da literatura brasileira. Penso que o grande valor dessa obra é que ela, para além das composições poéticas que fazem parte de sua construção linguística, de fato, nos conta uma história. E poucos são os escritores que se dispõem a contar uma história, de dar peso para narrativa, de fazer com que seus personagens saiam do papel para o imaginário e, de repente pela rua, encontramos alguém que temos a impressão de, certamente, já conhecermos de algum lugar, de um livro.

Uma cadeira, uma luz exata e afinadíssima, que são assinadas por Diego Ribeiro e Rodolfo García Vázquez, e uma canção ao fundo é o suficiente para entrarmos, de cabeça, nessa grande obra da dramaturgia, que é o texto de Miguel Arcanjo Prado. E é ali, esperando que comece a peça, que é possível se dar conta: já estamos dentro da história e esse espaço mágico que se constrói é o “Nonada” que todo escritor busca. Em seguida, tudo parece trabalhar a favor do ato de narrar. Estamos ali para sairmos, ao final, com a sensação de termos saído de um bom livro e que, apesar do público, é construída uma atmosfera tão íntima que a plateia é suspensa e o sentimento que vem é de que aquela montagem é pensada para cada pessoal do público separadamente. É que a ação de um contador encontra sua felicidade máxima quando temos a sensação do mergulho em um rio que vai se tornado, na trajetória narrativa, cada vez mais caudaloso, como em Grande Sertão, que há uma história foco, mas há tantas outras narrativas que vão, pouco a pouco, afluindo para engrossar uma história de vida tão instigante que, em alguns momentos, chega-se a se perguntar: essa mulher, essa Phedra, existiu de verdade ou é uma dessas personagens, como Diadorim ou Capitu, que, devido à complexidade psicológica nela presente não pode ser real. Por isso, a Phedra de Córdoba de Miguel Arcanjo já nasce como uma personagem canônica.

Assim como Riobaldo e Diadorim, do Grande Sertão, Phedra e Miguel, personagens vividos por Márcia Dailyn e Raphael Garcia de forma tão vívida, são construídos para romper qualquer pacto biográfico, pois, mesmo sabendo que são inspirados em personagens reais, em situações reais, não há, em nenhum instante, o sentimento corriqueiro de quando se lê uma biografia, a dúvida de que aquilo que nos é contado se passou ou não. O mais interessante em textos biográficos é exatamente romper com as barreiras entre ficção e realidade como, por exemplo, na biografia de Olga Benário, quando, em um momento íntimo como a perda da virgindade de Carlos Prestes, mesmo sabendo da impossibilidade de Fernando Morais está narrando algo real, aquela cena não é posta, para nos leitores, em xeque, simplesmente deixamos que o texto siga o seu fluxo.

Márcia Dailyn e Raphael Garcia em Entrevista com Phedra – Foto: Edson Lopes Jr. – Coluna @miguel.arcanjo UOL

O texto de Miguel Arcanjo Prado, juntamente com a direção de Juan Manuel Tellategui e Robson Catalunha, pode ser percebido, como sugere Ítalo Calvino em suas Seis Propostas para o Novo Milênio, como um texto que está escrito com exatidão. Ou seja, na perspectiva temática: trata-se de um projeto de obra bem definido e calculado, em que um encontro para uma entrevista se desdobra em um mar de memórias fundamentais para entendermos como hoje, enquanto artistas, temos uma história fundamentada por aqueles que vieram antes de nós; evoca imagens visuais nítidas, sobretudo pela proposta de encenação que explora a simplicidade como potência e, sem parafernálias, são construídas as imagens metais da vida de Phedra como se nós, o público, fôssemos testemunhas oculares de cada passagem ali contada ; e com uma linguagem que traduz as nuances do pensamento e da imaginação, aproximando personagens escritos à enredamento psicológico que é inerente a cada ser, humano ou não, de carne e osso. Como exemplo, enquanto público, sabemos da presença de um personagem invisível, o gato Primo Bianco, cuja a potência dada pela atuação de Dailyn e Garcia, ficamos procurando-o ao longo da peça, inclusive, em alguns instantes em que estamos tão imersos na história, podemos sentir ele passando por baixo dos nossos pés, ou se materializando quando os personagens Phedra ou Miguel direcionam o diálogo a ele.

Raphael Garcia e Márcia Dailyn na peça Entrevista com Phedra, de Miguel Arcanjo Prado – Foto: Edson Lopes Jr. – Coluna @miguel.arcanjo UOL

No âmbito da linguagem, há um sentimento de que os gêneros do jornalismo são postos à exaustão. Assim, mas que uma entrevista, que poderia ser de um veículo impresso, ou de um programa de televisão como os talkshows do Jô Soares ou, até mesmo, da Ellen DeGeneres (sobretudo pela dose de humor empregado nos diálogos), embarca-se no embaralhamento entre as reportagens investigativas, já que a vida da atriz e sua trajetória são escavadas e, então, vamos conhecendo-a para além da musa do teatro paulista e da Praça Roosevelt, mas, também, como um ser humano que desbravou uma vida digna em momentos em que conjugar arte, transexualidade e ativismo era sinônimo de perseguição e morte, como nos mostra a história. Por fim, a inserção de entrevistas e depoimentos de figuras que conviveram com Phedra elevam a dramaturgia à condição documental. Porém, o mais surpreendente é que, estando ali, como público, tudo isso se mescla e, então, notamos que esse trabalho investigativo faz dessa dramaturgia, no âmbito da montagem e da magia que o teatro pode proporcionar, como os livros de jornalismo literário de Trumam Capote ou de Rodolfo Walsh.

O nascimento de um dramaturgo comprometido com a narratividade dever ser um momento louvado, já que, cada vez mais, estamos órfãos de boas histórias em cena, cujo texto é o ponto máximo e que, por sua vez, é potencializado pela direção, iluminação, figurino (que, na peça, são de uma excelência artística e são assinados pelo estilista Walério Araújo), cenografia (assinada pelo diretor Robson Catalunha) e trilha sonora. Acredito que, no caso de Entrevista com Phedra, trata-se, também, de amadurecimento que vem com a prática da escrita sobre o teatro, já que Miguel Arcanjo Prado é um dos críticos teatrais mais atuantes e comprometidos em levar, ao público, informações técnicas sobre a vida teatral paulistana e brasileira, reafirmando como a vivência é algo fundamental para a qualidade artística. Como já havia mencionado, Entrevista com Phedra é um espetáculo genial.

Entrevista com Phedra
Crítica por Marcos Fábio de Faria*
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪

*Crítico convidado, Marcos Fábio de Faria é dramaturgo do Grupo dos Dez, mestre em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Atualmente, é doutorando no Cefet-MG em intercâmbio na Universidade de Barcelona, na Espanha. 

Entrevista com Phedra
Sábado 28/9, 21h (última sessão da temporada). Espaço dos Satyros Um (praça Franklin Roosevelt, 214, SP, tel. 11 3258-6345). R$ 20 e R$ 40. 50 min. 14 anos
Quinta 3/10, 20h (apresentação especial a convite do Eté – Festival Corpo do Theatro Municipal de São Paulo). Theatro Municipal – Praça das Artes (av. São João, 281, SP, tel. 11 4571-0401). R$ 20. 50 min. 14 anos. Compre seu ingresso.

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