Consagração brasileira em Cannes lava a alma dos artistas aqui perseguidos

Filme brasileiro “Bacurau”, que ganhou Prêmio do Júri no Festival de Cannes – Foto: Divulgação – Blog do @miguel.arcanjo – UOL

A dupla vitória brasileira neste Festival de Cannes, na França, lava a alma dos artistas nacionais, tão perseguidos ultimamente pelo atual governo Bolsonaro.

O reconhecimento do mais célebre e respeitado festival cinematográfico do mundo à qualidade do cinema brasileiro comprova que os grandes investimentos culturais nas duas primeiras décadas do século 21 foram mais que acertados.

O cobiçado e inédito Prêmio do Júri de Cannes, o terceiro mais importante do evento, para “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, além do Prêmio da Mostra Um Certo Olhar para o longa “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz, revelam ao mundo o grau de maturidade e de qualidade do cinema brasileiro contemporâneo.

Isso, obviamente, é fruto da grande mobilização da classe artística por incentivos às artes nas últimas duas décadas, resultando em dinheiro para o setor, que possibilitou a formação de uma nova e altamente produtiva geração de artistas.

Filmes nacionais recentes como os excelentes “Arábia”, de Affonso Uchoa e João Dumans, listado entre os melhores pelo jornal norte-americano The New York Times, e “Temporada”, de André Novais Oliveira, comprado recentemente pela Netflix, comprovam a sensibilidade e sagacidade de nosso cinema brasileiro contemporâneo e também o interesse que ele desperta mundo afora.

Só que, enquanto nossos artistas são aplaudidos pelo mundo lá fora, aqui no Brasil vivem cenário desolador, com a política do governo Bolsonaro que busca perseguir e demonizar o fazer artístico, sobretudo o cinematográfico e o teatral, com duros cortes nos apoios, incentivos e investimentos nestes setores, dinheiro este que permitiu justamente o atual nível de excelência nessas artes, reconhecido internacionalmente — este colunista lembra que, no teatro, a superprodução musical “O Rei Leão” em Madri, na Espanha, “importou” o talento do brasileiro Tiago Barbosa para o posto de protagonista da montagem europeia, feito inédito e histórico para o nosso teatro.

Ao perseguir os artistas, o governo Bolsonaro tenta derrubar algo que funciona, dá retorno e gira a economia do Brasil: o que seriam dos faturamentos dos shoppings sem a movimentação gerada por suas salas de cinema? Ou dos táxis, ubers, bares e restaurantes sem o público do teatro? Fora os milhares de empregos diretos que a arte gera, desde a faxineira do teatro e cinema ao diretor e artistas no palco ou na tela.

Além disso, a arte é um grande cartão de visitas de um país. Matá-la é um tiro no pé em termos de construção da imagem brasileira no mundo, e só ajuda a espantar os investimentos internacionais por aqui. Um país sem arte passa a imagem de estar distante do desenvolvimento e da civilização.

Os prêmios em Cannes são melhores para a promoção brasileira do que qualquer propaganda governamental paga internacionalmente ou as desastradas últimas viagens aos Estados Unidos feitas pelo poder federal, que mais arranharam a imagem brasileira do que promoveram o país para aquele que nele pudessem querer investir.

Enquanto o governo Bolsonaro não compreender que investir em cultura e em arte traz não só retorno econômico quanto prestígio internacional ao nosso país, nossos artistas continuarão assim: heróis lá fora e forasteiros perseguidos em sua própria terra. O que é profundamente lamentável e, mais ainda, inaceitável.

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