Satyros 30 anos: “Não tem fracasso”, dizem Ivam Cabral e Rodolfo Vázquez

Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez posam na praça Santos Andrade, centro da capital paranaense, para celebrar os 30 anos do Satyros nesta segunda (1º) no 28º Festival de Curitiba, onde têm mostra especial com quatro peças – Foto: Annelize Tozetto – Divulgação Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo – UOL

Foi há exatos 30 anos, no dia 1º de abril de 1989, que o ator Ivam Cabral e o diretor Rodolfo García Vázquez fundaram a Cia. de Teatro Os Satyros.

O grupo que marca profundamente a trajetória do teatro brasileiro nos últimos anos do século 20 e nestas primeiras décadas do século 21 com seu teatro ousado, libertário e farto em diversidade de corpos e discursos sempre em diálogo profundo com seu tempo.

Ambos celebram a data no lugar que mais gostam de estar, o palco. E com gostinho especial.

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Ivam estreia o monólogo “Todos os Sonhos do Mundo” justamente nesta segunda (1º) no charmoso Teatro Paiol, dentro da Mostra Satyros no 28º Festival de Curitiba, o maior evento das artes cênicas do país onde o grupo apresenta a Mostra Satyros, com outros três espetáculos: “Mississipi”, “Cabaret Transperipatético” e “O Rei de Sodoma”.

“Não foi premeditado ou combinado que estreasse neste 1º de abril. Foi uma feliz coincidência que estreássemos ‘Todos os Sonhos do Mundo’, que é uma peça minha e do Rodolfo só, justamente no dia dos 30 anos do Satyros”, fala Ivam Cabral em conversa exclusiva com o Blog do Arcanjo no UOL, na praça Santos Andrade, cartão-postal curitibano.

“Além disso sou paranaense de Ribeirão Claro e estudei teatro na PUC Paraná. Então, o Teatro Paiol faz parte da minha formação. Se for para eu escolher um teatro de Curitiba é o Paiol”, declara.

Rodolfo também fala com um sorriso no rosto sobre o momento tão especial. “Essa estreia é na data que tinha de ser, e tem essa coisa do título, porque quando fundamos o Satyros nós tínhamos os dois todos os sonhos do mundo”, recorda.

Ivam Cabral, fundador do Satyros, grupo que completa 30 anos de teatro, e que faz no Festival de Curitiba o solo “Todos os Sonhos do Mundo” – Foto: Annelize Tozetto – Divulgação Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo – UOL

Superação de uma depressão e cumplicidade com o público

Ivam conta que trata-se de um espetáculo despretensioso para falar de um tema muito sério.

“Falo sobre depressão, processo que identifiquei há 20 anos. Quis dividir isso para mostrar que é possível viver, trabalhar e viver com a depressão. Eu joguei tudo no trabalho, o que moveu não foram meus sonhos individuais, mas os sonhos do mundo, dos outros, a alteridade”, pondera.

Ivam afirma que na obra o público se torna cúmplice de seu relato, repleto de interação com os espectadores.

“É um recital, no qual parto de poesias”, conta. E lembra que uma das referências foi “O Demônio do Meio-Dia”, de Andrew Solomon: “Um livro que mudou minha vida e espero que mude a das pessoas também”.

O público paulistano pode aguardar para breve ver o espetáculo. “Estava negociando com o Sesc, mas acho que só rolaria no segundo semestre, então, vou aproveitar o lançamento do Cine-Teatro Bijou na praça Roosevelt e fazer lá em um horário no comecinho da noite”, adianta Ivam.

Rodolfo García Vázquez, diretor e fundador do grupo Os Satyros ao lado de Ivam Cabral, que completa 30 anos de trajetória – Foto: Annelize Tozetto – Divulgação Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo – UOL

“No Satyros todo mundo tem voz”

Ao falar sobre as três décadas do grupo, Rodolfo lembra que o Satyros sempre foi um teatro que atraiu todos os tipos de pessoas e modificou para melhor a praça Roosevelt, no centro de São Paulo.

Ele recorda que o Satyros sempre “impactou os espaços” por onde passou ao longo de sua trajetória, tanto no Brasil quanto na Europa.

“Não sei por que acontece isso, mas existe uma atração no Satyros. Não temos uma voz única messiânica que diz o que tem de acontecer. O Satyros é um lugar onde todo mundo vai ter sua voz”, diz.

“O que fizemos na praça Roosevelt já estava em gestação no nosso começo no Teatro Bela Vista, quando também modificamos todo o nosso entorno naquele bairro, depois, o mesmo aconteceu em Portugal”, lembra Rodolfo.

Preconceito da própria classe artística

De forma natural, o Satyros foi precursor das lutas das pautas identitárias por representatividade nos palcos.

“Em 1991, convidamos a Bibi a atuar conosco, que foi nossa primeira atriz transexual”, lembra Rodolfo. “Tudo isso está no DNA do Satyros antes que fosse pauta. Porque sempre acreditamos que o teatro tem de ser de todos os corpos”.

“Em ‘Mississipi’, que apresentamos na semana passada aqui em Curitiba, por exemplo, temos artista que veio de família rica e artista que veio da cracolândia trabalhando juntos”, fala Rodolfo.

Esse olhar despido de preconceitos no Satyros não agrada a parte da classe artística, ainda altamente elitista e discriminatória.

“Lembro quando levamos a Phedra D. Córdoba [diva trans cubana do grupo que morreu em 2016] ao Prêmio Shell pela primeira vez. Quando ela entrou, todos os olhares se voltaram para ela”, conta Rodolfo. “Eram olhares que diziam claramente: ‘esse lugar não te pertence'”, afirma Ivam.

O Blog do Arcanjo no UOL observou que o mesmo tipo de olhar preconceituoso se repetiu nos rostos de artistas ditos liberais quando os atores e atrizes trans da peça ‘Cabaret Transperipatético’ entraram no restaurante do festival. “A gente sentiu esse mesmo olhar aqui”, admite Ivam.

“Tenho um pouco de receito de estar em ambientes exclusivamente teatrais por causa disso, porque a gente tem de estar em conexão com a sociedade e não apenas entre nós em uma bolha narcísica. A bolha narcísica é muito perigosa. Você sentar-se com alguém que não tem nada a ver com teatro faz você mudar sua cabeça em relação ao próprio teatro”, afirma Rodolfo.

O Blog do Arcanjo também presenciou uma situação altamente preconceituosa. Foi quando uma artista, branca, da equipe de outro espetáculo presente no festival, falou a seguinte frase para uma colega de mesa ao ver o ator do Satyros Junior Mazine, que é egresso do sistema prisional e negro, entrar no mesmo restaurante, carregando um ramo de flores: “Olha, deixaram o menino que vende flores entrar aqui”.

Junior carregava flores que havia acabado de ganhar na estreia de “Mississipi”, espetáculo do Satyros no qual atua.

O Blog do Arcanjo também apurou que um técnico do Satyros negro foi barrado pelo segurança na abertura do festival no Guairão, porque estaria atrasado para o evento; contudo, mesmo tendo chegado depois dele, uma atriz global e que atua em musicais, e é branca, conseguiu entrar.

“Existem convenções que nós artistas criamos que nos afastam de alguns corpos. O teatro brasileiro ainda é branco e de classe média alta. Então, existe uma ideia de que ele não possa ser povoado por alguns corpos, porque eles afetam”, fala Ivam.

E prossegue: “Em ‘Mississipi’, o Junior Mazine, que é um ex-presidiário, em cena corrige um outro ator, o Henrique Mello, eu acho isso sensacional. Porque coloca o Henrique e a mim em um outro lugar, porque é um cara que não estudou teatro e vai com a verdade dele, então, ele nos modifica o tempo inteiro”.

“Não tem fracasso no Satyros”, dizem Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez ao celebrar os 30 anos do Satyros no 28º Festival de Curitiba; grupo abrirá em breve Cine Bijou na praça Roosevelt – Foto: Annelize Tozetto – Divulgação Festival de Curitiba – Blog do Arcanjo – UOL

“No Satyros não tem fracasso”

“Não estamos nessa ideia de ‘limpeza estética’. Assumimos a ‘imperfeição’. O Junior me faz lembrar que eu sou humano, que eu sou frágil, que eu sou passível de erros e que o que eu estou fazendo não é definitivo. Porque o artista tem isso, faz uma obra e acha que ela é definitiva. Não é”, continua.

“Eu não sei se vou acreditar em ‘Todos os Sonhos do Mundo’ amanhã ou no ano que vem. No Satyros não tem fracasso”, fala Ivam.

“Nem o maior sucesso, o sucesso é o processo”, acrescenta Rodolfo. “Há trabalho, meu pai era pedreiro, operário, complementa Ivam.

Tem muitos sonhos para os próximos 30 anos?, quer saber o colunista, encerrando o papo.

“O pior é que tem”, dizem Ivam e Rodolfo, com uma sonora e confiante gargalhada de quem sabe transformar sonhos em realidade diariamente.

Enviado especial a Curitiba, no Paraná, o colunista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do 28º Festival de Curitiba.

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