“Cazuza teria horror ao autoritarismo”, diz Leoni, que faz show em SP

O cantor Leoni, que faz show em SP nesta quinta (18), às 21h, o Teatro Opus do Shopping Villa-Lobos, em SP: “Cazuza sempre foi um rebelde, ele teria horror ao autoritarismo” – Foto: Carol Warchavsky – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O cantor Leoni é um dos compositores de maior sucesso na década de 1980 no Brasil, período de auge do nosso rock. Com mais de 30 anos de bem sucedida carreira, ele reúne seus hits repletos de fina poesia e musicalidade em show no Teatro Opus, no Shopping Villa-Lobos, em São Paulo, nesta quinta (18), às 21h, com ingressos entre R$ 50 e R$ 150. O artista promete tocar canções como “Fixação”, “Como Eu Quero”, “Exagerado”, “A Fórmula do Amor”, “Só Pro Meu Prazer”, “Garotos II” e a sempre pedida “Pintura Íntima”.

Direto da sua casa no Rio de Janeiro, Leoni conversou com exclusividade com o Blog do Arcanjo no UOL. Além de fazer revelações sobre suas músicas, ele comentou o atual momento do país e respondeu o que Cazuza, de quem foi amigo, acharia do Brasil de hoje. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Leoni, você foi muito amigo do Cazuza, que compôs “Brasil”. O que o Cazuza acharia do Brasil de hoje?
Leoni – É uma pergunta difícil… O Cazuza sempre foi um rebelde, ele teria horror ao autoritarismo. Hoje, temos um debate violento de pessoas que querem impor sua forma de ver o mundo aos outros, que tentam acabar com visões diferentes de mundo. Isso é um avesso de tudo que a gente acredita, um lugar que não tenha espaço paa sutileza, a poesia, o afeto. Onde só tem porrada e tradicionalismo acima de tudo. Cazuza teria chiliques com essa história, se é que não apanharia na rua, porque a violência está muito grande. Creio que Cazuza estaria fazendo campanha para qualquer um outro que não representasse esse tipo de visão autoritarista.

Miguel Arcanjo Prado – Por que o rock perdeu tanto espaço na indústria musical?
Leoni – O rock nunca foi tão popular assim. O que aconteceu foi que muitas pessoas foram inseridas no mercado de consumo e impuseram seu gosto à indústria cultural. O rock nunca foi o gosto do povão. Nos anos 1990 e começo dos anos 2000 teve uma virada enorme. Os anos 1990 já não foram tão bons para o rock como havia sido a década de 1980. Chegou o axé, os primeiros sertanejos, percebeu-se então que a venda de discos já poderia ser voltada para o grande público. O rock perdeu o seu apelo com o mercado.

O cantor Leoni – Foto: Carol Warchavsky – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – O rock envelheceu?
Leoni – Acho que sim, o rock envelheceu. A música da garotada hoje é rap, hip hop. O funk corre por fora, é YouTube, baile. Meu filho, o Antonio Leoni, é músico. Sempre ouviu muito rock, MPB, mas ele tem um gosto completamente diferente do meu. Ele é fascinado por música brasileira dos anos 1970, Jards Macalé, Sérgio Sampaio… Para ele Gil é Deus. Mas ele já tocou funk com a banda dele e ouve muito hip hop. As mensagens com letra e posicionamento estão hoje nesse estilo. Eu vejo gente que diz gostar de John Lennon e Cazuza com posturas autoritárias e conservadoras.

Miguel Arcanjo Prado – Isso é uma contradição, já que o rock sempre foi progressista e não conservador?
Leoni – Claro. O rock foi muito libertário em termos de direitos individuais, sobretudo nos anos 1970 e 1980: direito à droga, revolução sexual, aquela coisa andrógina. Mas, também, raramente o rock foi engajado no processo coletivo, não defendida trabalhadores, por exemplo. O rock sempre foi muito mais das conquistas de liberdades individuais. O heavy metal por exemplo não tinha nem essa responsabilidade, era grana mesmo. E quem curtia aquele rock e era jovem e revolucionário foi ficando velho e careta. Com o tempo, o rock perdeu esse lado combativo. Rock’n’roll virou um meio de ganhar dinheiro.

Leoni (à esq.) com os integrantes do Kid Abelha, sua primeira banda, nos anos 1980 – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Do que você tem mais saudade dos anos 1980?
Leoni – Eu nao tenho muita saudade dos anos 1980, não. Mas, claro, gosto muito da minha juventude, era fisicamente mais apto… Se tem uma coisa que eu sinto saudade é da esperança que a gente tinha nos anos 1980. A gente saía de uma longa ditadura e caminhava para uma democracia. Eu tive problema com censura, conheci pessoas que passaram problemas sérios, o abafamento artístico que houve pós AI-5 de 1968. Então, nos anos 1980 tinha uma coisa solar, esperançosa. Hoje, neste momento pós-utópico, a gente só torce para não perder mais direito. É disso que tenho saudade. De resto, não. Hoje tenho mais experiência, mais tranquilidade, tenho uma carreira consolidada que me dá tranquilidade para viver e fazer outras coisas.

Miguel Arcanjo Prado – Tipo o quê?
Leoni – Nos anos 1980 eu fazia tanto show que não tinha tempo para nada. Hoje eu estou fazendo Letras na PUC do Rio. Tenho depois vontade de fazer mestrado e dar aulas no meio acadêmico.

O cantor Leoni: além da música ele cursa Letras e pensa em fazer mestrado para virar também professor universitário – Foto: Carol Warchavsky – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Qual música que você mais gosta?
Leoni – A que eu mais gosto não tem. Eu vou mudando à medida que vou me interessando. Tem coisas no repertório que eu nem lembrava. Eu tenho uma canção que é muito importante na carreira, apesar de não ter tocado na rádio, mas sempre foi muito pedida nos shows, que é “Temporada das Flores”, muito boa pra esse momento. Fala sobre sair da depressão. Ela fez o caminho que não foi da rádio e atingiu muitas pessoas que estão em depressão, muitas pessoas me falaram que usaram essa canção como amuleto para superar problemas difíceis, até mesmo gente que estava com câncer e escutou durante o tratamento. Quando faço enquetes essa música sempre ganha. Tenho muitos sucessos e essa sempre acaba sendo a preferida, então tenho um carinho muito grande por essa música.

Miguel Arcanjo Prado – E tem alguma música que você deteste?
Leoni – Detestar, não. Mas tem músicas que evitei tocar por muito tempo, porque acho imaturas como compositor. Mas, a força delas me fizeram repensar. “Pintura Íntima” foi a primeira que compus, primeira gravada e que tocou muito. Mas, acho a canção mal resolvida em termos de composição. Mas, fez tanto sucesso que ponho no show e deixo o público cantar.

Miguel Arcanjo Prado – As pessoas criam relações afetivas com a música…
Leoni – Isso. Uma música traz de volta o que pessoa tinha naquele momento. Então, tocar a música é a possibilidade de deixar as pessoas fazerem contato com isso naquele momento. Hoje como compositor eu refaria “Pintura Íntima”, melhoraria meus versos, mas agora ela já está aí, tão desejada pelo público. Então, eu toco.

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