“Beijo gay” na semana do “vai matar viado” é retrato da divisão do Brasil

Cena com beijo dos personagens Michael e Santiago foi ao ar em “Malhação” nesta semana – Foto: Divulgação – Globo – Blog do Arcanjo – UOL

Na mesma semana em que torcedores homens supostamente heterossexuais ameaçaram de morte homossexuais no metrô de São Paulo, berrando que seu candidato “vai matar viado”, sem que isso gerasse qualquer tipo de punição, como prevê a Lei para o crime de ameaça de morte, a novela juvenil “Malhação”, da Globo, exibiu seu primeiro beijo entre dois homens.

A cena, pioneira em 23 anos de exibição do folhetim, foi ao ar nesta quarta (3). Ela foi comemorada pelos atores que a interpretaram, Giovanni Dopico, na pele de Santiago, e Pedro Vinícius, como Michael. De imediato, causou rebuliço na internet, com comemorações por um lado e ataques do outro.

A sanha assassina no metrô e o singelo beijo juvenil dos rapazes mostram um paradoxo que vive a população brasileira: as duas cenas são um retrato da divisão do Brasil.

Por um lado, há no país um grupo mergulhado no ódio extremista ao “outro”, ao “diferente”, que torna essas pessoas capazes de fazer ameaças públicas de morte sem medo de punição por cometerem esse crime previsto na Lei, que dificilmente virá.

Por outro lado, há no país um grupo mais progressista e que tenta tornar mais civilizada nossa sociedade, normalizando, por exemplo, o respeito ao amor alheio e ao relacionamento afetivo entre iguais, como apresentado na telenovela global.

De todo modo, é triste constatar que em 2018 as duas cenas sejam notícia. Mas, são. O que é um reflexo da nossa própria falta de civilização.

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Sobretudo, porque há potenciais assassinos de homossexuais que bradam seus ímpetos criminosos em um dos espaços públicos mais notórios da maior metrópole do país: sua maior estação de metrô, onde a convivência social respeitosa entre todos deveria ser uma premissa.

Não à toa, o Brasil segue na vergonhosa e nada cristã liderança entre os países que mais matam pessoas LGBT+ no mundo — não custa lembrar que Jesus mandou “amar o próximo como a ti mesmo” e não assassiná-lo.

E se tal sanha criminosa observada no metrô seguir adiante com apoio do Estado, poderemos rumar para índices ainda maiores, em um horripilante “holocausto gay”.

Diante de tal cenário, a cena em “Malhação” é um pequeno ato de corajosa tentativa artística de educação. Ensinar o respeito e o amor ao próximo, ao “outro”, sobretudo por tratar-se de uma novela destinada à população jovem.

Ensinar que o amor de todos deve sempre ser respeitado, independentemente de se concordar ou não, que tal respeito deveria ser uma premissa de um lugar civilizado.

Até porque gays e héteros pagam os mesmos impostos e possuem direitos e deveres iguais perante a Lei, como reza nossa tão combalida Constituição.

Contudo, é desesperador para a parte civilizada da população brasileira perceber que outra parte do país esteja sedenta por sangue e barbárie.

Assim, esse tipo de beijo televisivo ainda é notícia, gerando uma cadeia reativa de ódio, que só reforça a ideia de que o gay é o “outro”, o “diferente”, jamais tirando-o deste lugar repleto de preconceito, demonstrado inclusive na alcunha “beijo gay”, até porque ninguém aí viu “beijo hétero”, que acontece diariamente nas telenovelas, sem gerar espanto, revolta ou manchetes.

Assim, enquanto o “beijo gay” for alvo de surpresa e ódio é porque o Brasil não chegou ao estado de igualdade entre todos os seus cidadãos. Em um lugar civilizado, deveria existir somente beijo e amor, sem tipificações reducionistas e preconceituosas, mas, talvez, isso já seja uma utopia diante do dividido e assustador Brasil de hoje.

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