Análise: Sombra de Odete Roitman incomodou Beatriz Segall até o fim

Beatriz Segall como Odete Roitman: ela odiava falar sobre a icônica vilã – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Certa vez, fui cobrir como jornalista a inauguração de um teatro em São Paulo.

Ao chegar no espaço, me deparei com Beatriz Segall no saguão, tomando um café — a atriz morreu nesta quarta (5), aos 92 anos.

Respeitoso e cheio de dedos, aproximei-me da atriz consagrada com o objetivo de lhe perguntar o que achava do novo espaço.

Contudo, ela mal me deu tempo de fazer a primeira pergunta, logo me questionando: “Você não vai perguntar de Odete Roitman, né?”.

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Disse que não, que o objetivo era mesmo falar daquele novo espaço teatral. Ela, então, mudou de tom, ficou mais amigável, e respondeu às perguntas.

A verdade é que Beatriz odiava ser lembrada daquela que foi uma das mais icônicas vilãs da história da teledramaturgia brasileira.

Talvez só a Nazaré de Renata Sorrah em “Senhora do Destino” tenha alcançado igual magnitude popular que a milionária perversa e sem remorso construída por Beatriz em “Vale Tudo”, trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères de 1988 e agora reprisada pela segunda vez no canal pago Viva, conseguiu.

Mas, o feito, fruto de seu enorme talento, acabou por tornar a atriz fortemente associada à imagem da personagem, da qual ela não conseguiu se livrar no restante de sua carreira.

A glória de Odete Roitman foi tamanha que acabou por engolir toda uma trajetória de uma das atrizes mais potentes e exigentes que o Brasil conheceu, que me disse certa vez: “Se surgir um bom papel, um papel bem escrito, eu estou sempre à disposição. Não quero é fazer qualquer coisa”.

O problema é que ela já tinha sido agraciada por um dos papéis mais bem escritos da história da dramaturgia brasileira, e que soube elevá-lo a um patamar de excelência com seu farto talento — quem teve o privilégio de vê-la no teatro sabe da potência cênica que ela era.

De tão bem construída, a sombra de Odete Roitman incomodou Beatriz Segall até o fim.

Por Miguel Arcanjo Prado

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