Raquel Hallak é a mulher que movimenta o cinema brasileiro em Minas

Raquel Hallak, à frente da Universo Produção, responsável pelo projeto Cinema sem Fronteiras, que engloba as mostras de cinema de Tiradentes, Ouro Preto e BH – Foto: Leo Lara/Divulgação/Universo Produção – Blog do Arcanjo – UOL

Por Viviane A. Pistache
Enviada especial a Ouro Preto

Se fosse possível definir Raquel Hallak numa palavra, perfeitamente poderia ser visionária. Essa mineira de 50 anos, nascida em São João del-Rei formada em Comunicação, Publicidade e Rádio pela PUC-Minas, tem em seu currículo projetos fundamentais para a história do audiovisual brasileiro.

A título de exemplo, em 1994 ela emplacou na Globo o projeto Ação Global, que certamente implicou a emissora num conceito de promoção da cidadania. Passados três anos, lançou a pedra fundamental da Mostra de Tiradentes, já em sua 21ª edição. Raquel não tinha como prever a dimensão do que ela estava propondo para a história do cinema em Minas e no Brasil.

Há mais de duas décadas, com o desmonte da Embrafilme, não apenas produção e exibição no cinema estavam profundamente comprometidas, bem como a ideia da sétima arte como  patrimônio (i)material. O  projetor 35 mm que tornou possível a primeira mostra de Tiradentes veio de Montes Claros, com o desmonte do cinema da cidade no norte mineiro.

Diferente do que ocorria aos outros festivais de caráter mais competitivos, a exemplo dos pioneiros festivais de Gramado, Brasília e Rio de Janeiro; o festival que nascia em Tiradentes tinha um caráter de proporcionar uma visão panorâmica da produção do cinema nacional.

Para além do glamour do tapete vermelho, holofotes e celebridades, a mostra mineira sempre buscou como preocupação primeira tornar conhecido nosso patrimônio audiovisual.

A produtora cultural Raquel Hallak: cinema brasileiro com gosto mineiro – Foto: Leo Lara/Divulgação/Universo Produção – Blog do Arcanjo – UOL

Com o passar dos anos, esta preocupação foi se tornando multidimensional, bem como os desafios inerentes à grandeza da missão. Assim, anos depois, a tentativa de fazer uma mostra retrospectiva tornou evidente a imensa necessidade de cuidado do acervo nacional, em função do desaparecimento de obras fundamentais para a história do nosso cinema.

Assim nascia a Mostra de Cinema de Ouro Preto, a CineOP, com a missão de cuidar da história e da preservação do nosso acervo, tornando-se um evento articulado ao de Tiradentes e colocando novas preocupações.

Mas, para além de ser um evento de realizadores e acadêmicos da área de cinema, a CineOP, cuja 13ª edição chegou ao fim nesta segunda (18), entende a importância da história e do patrimônio de Ouro Preto e a necessidade de tornar a mostra democrática, convocando os 12 distritos da cidade. De fato, a educação se faz visível na Mostra, vide a presença e programação que ocorre em parceria com as escolas públicas.

Apesar da grandeza do evento, alguns desafios estão sempre postos, como a captação de recursos, que neste ano não contou com o apoio do BNDS, seu maior patrocinador em todos os anos. Os últimos dois anos de grande crise política trouxeram novas incertezas e inseguranças.

Raquel conta que apenas a dois meses da Mostra CineBH, que vai ocorrer no final de agosto na capital mineira, ainda está em processo a captação de recursos.

Quintino Vargas, Raquel Hallak e Fernanda Hallak, criadores da Mostra de Cinema de Tiradentes e do projeto Cinema Sem Fronteiras, que engloba ainda a CineOP e a CineBH – Foto: Beto Staino/Universo Produção/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

A tríade Mostra de Tiradentes, CineOP e Mostra Cine BH compõe o projeto Cinema Sem Fronteiras, capitaneado por Hallak ao lado de Fernanda Hallak, sua irmã, e Quintino Vargas, seu marido.

De fato, estes festivais têm se firmado como importantes marcos do cinema nacional. Tiradentes é a primeira Mostra do calendário de festivais e os filmes que saem vencedores deste evento certamente têm uma margem de vantagem nas demais competições nacionais.

Sendo assim, a CineOP evidencia o quão importante é o cuidado deste rico patrimônio que é a nossa sétima arte e o quão fundamental é a existência de sólidas políticas públicas para garantir a preservação deste nosso tesouro. Tudo isso, sob comando de uma mulher chamada Raquel Hallak.

*Viviane A. Pistache é crítica e psicóloga pela UFMG, doutora em Educação pela USP e doutoranda em Psicologia pela USP. Preta das Minas Gerais, atualmente vive na Terra da Garoa se arriscando em contos, roteiros e crítica de teatro e de cinema. Ela viajou a convite da 13ª CineOP.

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