Filme Nada trava diálogo impossível com O Demiurgo na CineOP

Carlos Francisco, MC Clara Lima e Rejane Lima em cena do filme Nada, destaque na 13ª CineOP – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Por Viviane A. Pistache*
Enviada especial a Ouro Preto

Na programação da 13 ª CineOP, a Mostra de Cinema de Ouro Preto que chegou ao fim nesta segunda (18), é preciso destacar dois filmes, o longa-metragem “O Demiurgo”, de 1972, dirigido por Jorge Mautner, e o curta-metragem “Nada”, de Gabriel Martins, de 2017, para tentar tecer alguns diálogos (im)possíveis.

A primeira obra é uma co-produção Rio de Janeiro e Londres e, segundo seu diretor, trata-se “de uma fábula-musical-chanchada-filosófica que retrata muita coisa, em primeiro lugar, a saudade do Brasil”.

Apesar de o filme ser protagonizado por Caetano Veloso, Jorge Mautner e Gilberto Gil, sem dúvidas uma importante trindade do nosso cancioneiro nacional, esta raríssima película é um drama sobre uma juventude brasileira que em tempos de ditadura buscou no exílio
e nas artes a possibilidade de experimentar viver e sorrir fazendo comédia apesar da cortina de chumbo que pairava sobre o país.

Por sua vez, “Nada”, o curta-metragem de Gabriel Martins que tem se firmado como nome importante dessa promissora safra de jovens diretores da cena mineira, é um retrato de uma juventude negra e periférica que cresceu nos governos do PT.

A trama é em torno dos dilemas vividos pela jovem Bia (atuação incrível de Clara Lima), que, às vésperas da inscrição do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), cria coragem para assumir para seus pais (interpretados por Carlos Francisco e Rejane Alves) e a professora (papel de Karina Teles) que não pretende escolher nenhuma carreira profissional e reivindica seu direito de não fazer nada, literalmente.

O que esses dois filmes teriam em comum?

São retratos possíveis das múltiplas juventudes brasileiras que, apesar da distância temporal, se lançam na aventura da viajar na direção de seus anseios, sendo coerentes com seus princípios políticos.

Gilberto Gil no filme O Demiurgo, de Jorge Mautner – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Caetano, Jorge e Gil eram jovens que atravessaram o oceano por uma urgência histórica e neste filme ensaiaram o caminho de volta, porque, além da saudade de casa, tinham esperança de reconstrução política.

Importante destacar que a direção e o protagonismo destas duas obras são essencialmente juvenis. Mautner, por ser parte de um movimento revolucionário, já possuía assento no panteão artístico nacional.

Por sua vez, Gabriel Martins, jovem negro de Contagem, região metropolitana de BH, teve acesso ao ensino superior em função de políticas como o ReUni e o ProUni. E sob a aparente recusa de Bia a fazer o ENEM, traz para tela uma importante provocação: Qual é o alcance destas políticas? Qual parcela da juventude negra e pobre é contemplada e quem ficou fora do guarda-chuva?

A jovem Bia entendeu os limites da política e quer se privar de possíveis frustrações decorrentes das falsas promessas de sucesso, pois ainda que consiga acessar o ensino superior, qual é a garantia de serventia de um diploma para carreira sólida, com igualdade de oportunidades para mulheres negras?

E Gabriel Martins é sagaz ao fazer pulsar descompassadamente em nosso peito a esperança e a angústia de apostarmos na chance histórica de sermos a primeira geração da nossa família a entrar na universidade.

Mas, como canta Nina Simone em “Young, Gift and Black”, talento a nossa juventude negra tem, mas a oportunidade é uma conquista histórico-política, que infelizmente não alcança a todos.

Jorge Mautner e Caetano Veloso em O Demiurgo, filme exibido na 13ª CineOP Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Por sua vez, Mautner também traz uma provocação: a de uma juventude que pode gozar o ócio criativo ou viagens de autoconhecimento que talvez não levem a lugar nenhum, porque está assegurado o direito à experimentação.

Ainda que por vias diferentes, “O Demiurgo” e “Nada” trazem reflexões sobre a adesão a-crítica da juventude ao mundo do trabalho que expropria a alma e o sangue dentro das regras de produção capitalista, nos trazendo desconfortos.

Se “O Demiurgo” coloca em tela o direito de experimentar e não se afogar nas correntes da alienação; também suscita em nós uma face liberal latente que condena a procrastinação de alguns poucos, enquanto a grande massa segue sendo moída.

A juventude pobre e negra que entrou na universidade pública nos últimos quinze anos em algum momento se deparou com esse tipo de sensação, de uma ambiguidade frente aos colegas brancos que viajaram o mundo todo, enquanto muitos de nós nunca havia
sequer saído do Estado em que nasceu.

A gente teve que aprender a construir alianças no campo da esquerda, mesmo que muitas vezes disfarçando o amargo sabor das assimetrias de raça, gênero e classe.

(Vale lembrar que o Programa Ciência Sem Fronteiras não tinha esses recortes, apesar de ter sido uma política que nos possibilitou alguns vôos acadêmicos.)

O cineasta Gabriel Martins, diretor do filme Nada, destaque em Ouro Preto – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Por sua vez,  “Nada”, de Gabriel Martins, também nos suscita paradoxos: vale a pena apostar na formação acadêmica mesmo em tempos de supressão de garantias e de direitos políticos?

Até que ponto a juventude negra pode arriscar a sonhar em projetos destoantes do momento político, tendo em vista que as oportunidades tendem a ser cada vez mais escassas?

O fato é que o não historicamente a gente já tem, e o que vem depois disso acaba sendo lucro.

Mas, que fique bem entendido: Não estamos alheios à potência da contracultura no enfrentamento das injustiças e, antes que nos acusem de caretice ou equívoco, fica a dica: não é aconselhável subestimar uma geração que goza com Baco Exu do Blues!

*Viviane A. Pistache é crítica e psicóloga pela UFMG, doutora em Educação pela USP e doutoranda em Psicologia pela USP. Preta das Minas Gerais, atualmente vive na Terra da Garoa se arriscando em contos, roteiros e crítica de teatro e de cinema. Ela viajou a convite da 13ª CineOP.

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