Morre Tônia Carrero, atriz que conjugou beleza e talento

A mais bela atriz brasileira do século 20, Tônia Carrero (1922-2018): ela fez rara conjugação entre beleza e talento – Foto: Divulgação

Tônia Carrero, que morreu aos 95 anos no Rio de Janeiro na noite deste sábado (3), vítima de uma parada cardíaca durante uma intervenção cirúrgica, foi uma das grandes atrizes que o Brasil conheceu. Ela conseguiu superar o estigma de sua beleza hipnotizante e tornou-se reconhecida também pelo seu inquestionável talento.

Tônia Carrero foi, sem dúvida, a mais bela atriz brasileira do século 20 — apesar de ter perdido o título para Maria Fernanda Cândido em uma votação do “Fantástico” em 1999, feita justamente quando Maria Fernanda era o rosto do momento na novela “Terra Nostra”, o que influenciou o público.

Tônia Carrero: atriz de beleza estonteante – Foto: Divulgação

Apaixonada pelos palcos, Maria Antonieta Portocarrero Thedim nasceu em 23 de agosto de 1922, no Rio de Janeiro.

Já no começo da juventude, era admirada por todos pela sua estonteante beleza, que logo a tornou o rosto mais louvado de Ipanema.

A beleza lhe lançou nos palcos, onde demonstrou ser não só um rosto bonito, mas uma atriz de talento reconhecido pela crítica nas peças do histórico TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia e depois nas companhias que teve, com as quais montou os mais importantes textos do teatro internacional e brasileiro.

Nilson Xavier: Tônia Carrero deixou sua marca na TV

Se sua carreira foi farta nos palcos, onde fez 54 peças, foi mais tímida na TV, onde fez 15 novelas entre 19 trabalhos.

Uma de suas personagens marcantes foi a Rebeca de “Sassaricando”, novela de 1987, e a Stella de “Água Viva”, de 1980. Sua última aparição da TV foi na novela “Senhora do Destino”, como Madame Berthe Legrand.

Tônia Carrero e Raul Cortez em “Água Viva”, novela de 1980 – Foto: Divulgação

No cinema, Tônia fez 19 filmes, sendo o mais recente “Chega de Saudade”, de Laís Bodanzky, no qual viveu a personagem Alice, uma senhora idosa que frequentava um baile paulistano.

Mulher empoderada dona de sua carreira e de seu próprio destino, ela montou após o TBC seu próprio grupo, a Companhia Tônia-Celi-Autran, em parceria com o amigo ator Paulo Autran e o diretor italiano Adolfo Celi, que foi o primeiro diretor do TBC e seu marido.

Tônia Carrero com o único filho, Cecil Thiré – Foto: Divulgação

Antes de virar atriz profissional, foi mãe de seu único filho, o também ator Cecil Thiré, fruto em 1943 do relacionamento com o artista plástico e desenhista Carlos Arthur Thiré.

Cecil lhe deu netos artistas: os atores Miguel Thiré, Carlos Thiré e Luísa Thiré.

Tônia Carrero,  Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker na histórica passeata contra a censura da ditadura militar em 1968 – Foto: Reprodução

Tônia também foi uma das atrizes que lutou contra a censura da ditadura militar à classe artística.

Ela participou da histórica passeata contra a censura ao lado de outras importantes atrizes, como Eva Todor, Odete Lara, Eva Wilma, Norma Bengell e Cacilda Becker.

Estreia nos palcos: Tônia Carrero e Paulo Autran em “Um Deus Dormiu lá em Casa”, de 1949 – Foto: Divulgação

Desde que estrou nos palcos, em 1949 no Teatro Copacabana ao lado de Paulo Autran em “Um Deus Dormiu lá em Casa”, Tônia demonstrou talento dramático e segurança cênica.

Mas o prestígio veio mesmo a partir de 1951, quando virou estrela da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e mudou-se para São Paulo, onde tornou-se também estrela do TBC e casou-se com o diretor Adolfo Celi.

Entre as peças marcantes deste período estão “Candida”, de Bernard Shaw, dirigida por Ziembinski.

No palco, Tônia interpretou textos profundos e clássicos, de nomes como Jean-Paul Sartre, Antonio Callado e Pirandello. Deste último fez “Seis Personagens à Procura de um Ator”, que lhe rendeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo.

Em 1965, deixou a sociedade com Celi e fundou a Companhia Tônia Carrero, na qual seguiu trabalhando com Paulo Autran.

Tônia Carrero com Emiliano Queiroz e Nelson Xavier em “Navalha na Carne” de Plínio Marcos: sucesso de crítica em 1968 – Foto: Divulgação

É com ela que, em 1968, faz marcante atuação como a prostituta Neusa Suely de “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos com direção de Fauzi Arap. Ganhou o Molière por ter dado conta da difícil personagem em uma atuação emblemática, na qual abriu mão de sua famosa beleza para viver a decadente personagem.

Em 1970, voltou a trabalhar com Fauzi Arap em “Macbeth”, de Shakespeare, na qual fez par com Paulo Autran novamente. Outra peça marcante foi “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf”, de Edward Albee com direção de Antunes Filho em 1978.

Paulo Autran e Tônia Carrero em “Macbeth”, clássico de Shakespeare que fizeram em 1970 – Foto: Divulgação

Atriz de risco, em 1986 trabalhou com Gerald Thomas, descoberto por ela na off-Broadway em Nova York, na peça “Quartett”, de Heiner Müller, que lhe rendeu Molière de melhor atriz.

Em 1990, reencontrou o antigo parceiro Paulo Autran em “Mundo Mundo, Vasto Mundo”, peça baseada na obra de Drummond.

Em 2000, voltou aos palcos em grande estilo ao lado de Renato Borghi em “O Jardim das Cerejeiras”, de Anton Tchekhov, sob direção de Élcio Nogueira.

Tônia Carrero, Carlos Augusto Thiré e Mauro Mendonça em “Um Barco para o Sonho”, sua última peça, em 2007- Foto: André Wanderley/Divulgação

Sua última peça antes de ficar com a saúde complicada foi “Um Barco para o Sonho”, com direção de Carlos Augusto Thiré, seu neto, e na qual contracenou com Mauro Mendonça em 2007.

Grande atriz, Tônia Carrero teve a incrível capacidade de fazer a difícil conjugação entre beleza e talento. Que descanse em paz.

Tônia Carrero: a mais bela atriz do século 20 também era uma artista repleta de talento; na foto, nas filmagens de “Chega de Saudade”, seu último filme – Foto: Divulgação

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