Crítica: Pantera Negra cria EUA africano para criticar poderosos

“Pantera Negra” – Foto: Divulgação

Por Vitor Almeida*
Crítico convidado

Há cinco décadas os afro-americanos bradavam por direitos. Um ano após as marchas de Selma nascia um herói africano. Ele não era de carne e osso, mas era poderoso. Era a representação, através dos quadrinhos, da força e da importância do negro dentro do cenário social. Era o primeiro grito por liberdade para muitos.

Ele foi o primeiro deles, é verdade, dentro de uma grande companhia de quadrinhos. E por isso não poderia ser qualquer um. Precisava ser um herói, um símbolo. Precisava ser um rei. E quis o destino que, em 1966, Jack Kirby e Stan Lee escolhessem o nome de “Pantera Negra” para ele, o mesmo de um dos mais conhecidos grupos sociais negros da época.

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T’Challa era o nome do rei da fictícia Wakanda, país hiper-tecnologico da África, a superpotência africana. O monarca do El Dorado africano surgiu nos quadrinhos do Quarteto Fantástico, mas ganhou força nos anos seguintes. Bebeu da fonte e do espaço criado pelo Blaxploitation, nos anos 1970, e ganhou notoriedade na cultura pop. Aos poucos, o mundo conhecia Wakanda e também seu símbolo maior.

Assim como nos quadrinhos, Pantera Negra tinha que ser o prercursor no cinema. Tinha que ser ele, o rei, o primeiro a ter filme solo. Coube a Coogler, diretor de “Creed”, a tarefa de traduzir a importância dele para as telonas. Se nas HQ o herói nasceu após a luta pelos direitos dos negros, nos cinemas o embate começa com referências aos movimentos sociais americanos após o ataque ao taxista negro, em Oakland, em 1992.

Cena do filme “Pantera Negra” – Foto: Divulgação

Coogler utiliza dessas manifestações políticas para centrar o público do ambiente. Quis explicar que, naquele contexto americano, aquilo poderia ter acontecido com qualquer um. Inclusive com Killmonger, a contraparte do nosso herói. Criou um vilão crível, possível dentro da fantasia afrofuturista. Criou o personagem, assim com T’Challa, carregando todo o histórico social, sobretudo dos afro-americanos.

Havia dor também em T’Challa, que perdera o pai. Criou, então, um embate quase ideológico, como se fosse Luther King contra Malcolm X. Fez do duelo entre os atores uma questão maior, uma verdadeira crítica aos poderosos. Fez de Wakanda, o El Dorado, seu verdadeiro “Estados Unidos” africano.

Trouxe os embates atuais, problemas com fronteiras e outros povos, para o contexto da atração cinematográfica. Bebeu da fórmula Marvel, mas foi um pouco além. Trouxe luz a um problema atual, agravado após declarações do atual presidente americano, Donald Trump. Questiona – e muito – o papel das grandes potências mundiais com os demais, com os marginalizados.

Mais do que a representatividade negra, Coogler utiliza T’Challa como um símbolo. Cria dúvida e questionamentos, sempre fundadas da dualidade da abertura de seu país, para fazer do cenário do filme o atual americano. As críticas à política americana ficam mais evidentes quando Ross, papel de Martin Freeman, afirma que o Killmonger, criado dentro da própria CIA, ataca países em transições democráticas.

Coogler faz de Wakanda seu próprio país e na cena pós-crédito o seu recado final. Em momentos de crise, assim como enfrentado por T’Challa, o rei – ou o representante maior – tem de ter visões além de suas fronteiras, precisa buscar o bem para todos.

Assim como na criação do personagem, em 1966, Pantera Negra aparece no momento certo. E é no momento de crise, de dificuldade extrema, que o líder tem que aparecer. E é isso que T’Challa fez. Foi o rei que precisávamos que fosse.

*Vitor Almeida é jornalista.

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