Crítica: L, O Musical empodera lésbicas para amar sem medo

Elisa Lucinda e Ellen Oléria em cena de “L, O Musical”, em cartaz no CCBB-SP – Foto: Patrícia Lino/Divulgação

“L, O Musical” chama a atenção de cara pela temática que empunha neste Brasil de faniquitos conservadores: é um espetáculo que trata, sem rodeios, do amor entre mulheres.

Se montagens sobre o amor entre homens é coisa corriqueira na cena teatral, o amor entre lésbicas ainda parece ser tabu para dramaturgos, diretores e produtores brasileiros, já que raras vezes é abordado de forma direta nos palcos.

Só por romper essa barreira, o espetáculo já mostra o difícil lugar que lésbicas ocupam na sociedade — e na arte.

Assim, de arrancada, a montagem, escrita e dirigida pelo teatrólogo baiano radicado em Brasília Sérgio Maggio com seu grupo Criaturas Alaranjadas, já tem grande mérito. Outro é dar o posto de protagonistas da história a um casal de lésbicas negras, um potente recado.

Mas, vamos às atrizes. O grande destaque da obra é Elisa Lucinda, muitas vezes conhecidas pelos seus escritos, agora dominando a cena em atuação segura. Ela se diverte em cima do palco, levando consigo a plateia neste grande jogo que é o teatro. Dá gosto vê-la em cena.

Na pele de uma das protagonistas, a autora de novelas Ester, Elisa faz a primeira personagem lésbica em 30 anos de carreira como atriz, o que já mostra que “alguma coisa está errada”, como ela mesma define no programa da peça.

“L, O Musical” tem amor lésbico em foco com texto e direção de Sérgio Maggio – Foto: Divulgação

O enredo construído por Maggio gira em torno desta novelista e seu grande amor do passado, a grande atriz de teatro Rute, defendida por Ellen Oléria.

Ellen quando canta faz tudo silenciar ao seu redor em profundo respeito à voz potente que tem.

Mas, se Elisa Lucinda demonstra segurança cênica, o mesmo ainda falta a Ellen: apesar da dedicação evidente, sua vertente como atriz ainda está distante da cantora maravilhosa que é.

Falando em cantora, outra que demonstra técnica precisa quando solta a voz, atingido com facilidade difíceis notas, é Luísa Caetano, na pele da contida secretária de Ester, apaixonada pela patroa.

Luiza Guimarães, que abre o espetáculo em diálogo hilário com a plateia — e que surge em vídeos humorístico-educativos ao longo da encenação —, é outro achado, com seu preciso tempo cômico.

Completam o elenco a espevitada Tainá Baldez e Gabriela Correa, que defende com bravura uma das personagens mais complexas e com maior conflito interno da obra.

Talvez pela urgência de abarcar variadas matizes dentro da temática ainda tão pouco explorada em nosso teatro, a dramaturgia por vezes fica confusa.

Isso ocorre no começo participativo, que gera uma expectativa na plateia que com o desenrolar da história não é suprida, ou na inserção de uma vencedora de reality show na história já cheia de elementos.

Destaque do elenco: Elisa Lucinda vive uma novelista lésbica em “L, O Musical” – Foto: Divulgação

A trilha, pinçada por Maggio e Oléria no cancioneiro feminino da MPB, é um verdadeiro achado: traz sucessos de nomes como Mart’nália, Adriana Calcanhoto, Isabella Taviani, Sandra de Sá e Anna Carolina. Todas, claro, escolhidas a dedo.

Luís Filipe de Lima faz uma direção musical segura e sem muitos arroubos, contando com as afinadas atrizes e a competente banda formada por Alana Alberg, com sua serenidade no baixo, Marlene de Souza Lima, com sua guitarra doce e ao mesmo tempo profunda, Georgia Camara, compenetrada na bateria de sons milimetricamente orquestrados e Luísa Toller, sempre segura em seu teclado.

O musical ainda guarda espaço para fazer referência à célebre peça com amor lésbico “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, interpretada por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah na década de 1980.

“L, O Musical” tem como grande mérito a leveza que Maggio encontra para falar no palco de temas pesados, mas importantíssimos, como a lesbofobia, o terrível “estupro corretivo” e a descoberta da transexualidade.

Todos os recados importantes são dados, sem que soe um espetáculo excessivamente panfletário ou entediante.

Muito pelo contrário, “L, O Musical” é uma obra de ritmo intenso e que cativa o espectador pela verdade e paixão demonstradas por sua equipe a cada cena.

Na obra, lésbicas se sentem representadas — o que é importantíssimo —, e pessoas de outras orientações sexuais se aproximam de um mundo que não quer mais ficar escondido no armário entre quatro paredes. E nem deve.

“L, O Musical” ✪✪✪
Avaliação: Bom
Saiba mais sobre a peça

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