Gigante, Carnaval de BH tem pontos a melhorar

Com 400 mil, bloco Então Brilha inunda praça da Estação, em BH – Foto: Nereu Jr/UOL

Miguel Arcanjo Prado e Zirlene Lemos
Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte
Fotos Nereu Jr e Marcus Desimoni/UOL

Com 3,8 milhões de foliões em 2018, o Carnaval de Belo Horizonte teve seu recorde histórico de público.

Apesar de em sua maioria pacífica e organizada, a festa também registrou problemas, como repressão da polícia a foliões de alguns blocos, com direito a spray de pimenta e bombas de gás, além de transporte público superlotado e insuficiente para o gigante número de pessoas nas ruas.

Moradores também reclamaram de muito lixo e de foliões fazendo xixi nas ruas, bancas e portas de comércio, além do barulho em excesso em áreas residenciais depois do horário de silêncio.

De todo modo, com um Carnaval ressurgido pelas mãos do povo e não do poder público, a capital mineira entrou definitivamente para o grupo das capitais com folia gigante, tendo recebido mais de 200 mil turistas, segundo a Belotur, órgão de turismo da Prefeitura de Belo Horizonte.

Percussionista Dagmar Bedê apostou nos seios livres na bateria do bloco Sagrada Profana – Foto: Marcus Desimoni/UOL

Condenação do assédio e preconceito nos blocos

O carro-forte da programação foram os blocos de rua, que também bateram recorde: 480 blocos em mais de 550 cortejos, com direito a megablocos como Rio, São Paulo e Salvador. Praticamente todos os blocos da cidade bradaram contra o machismo, o racismo, a homofobia e a transfobia, ponto forte dos desfiles.

O assédio também foi condenado. Muitas mulheres apostaram na liberdade de seus corpos durante a folia, deixando seios descobertos.

“Mais que um Carnaval, a cidade ganhou um verão. Os preparativos da folia, incluindo ensaios de blocos de rua, festas e outros eventos, movimentam toda a cadeia produtiva, o que deixa nítida uma cidade alegre, viva, pulsante. São meses de atividades, o que traz pessoas de outras cidades, outros países. Além da promoção turística de Belo Horizonte, isso gera emprego e renda”, declara Aluizer Malab, presidente da Belotur.

Bloco Agro Angola Janga dispersa na av. dos Andradas, em BH, após desfile com 150 mil foliões – Foto: Nereu Jr/UOL

O maior bloco da capital mineira ainda é o Baianas Ozadas, com 650 mil foliões neste ano, seguido do Então Brilha, com 400 mil, Havayanas Usadas, com 200 mil, e o bloco afro Angola Janga, com 150 mil foliões.

A economia belo-horizontina viu injetada a cifra de R$ 637 milhões no Carnaval 2018, 20% a mais que o rendimento do Carnaval 2017. Só de ambulantes cadastrados pela Prefeitura de Belo Horizonte foram quase 10 mil.

Figuras importantes da folia mineira, Nara Torres, Veronez e Nayara Garófalo celebram o crescimento da folia na capital mineira – Fotos: Marcus Desimoni/Nitro/UOL, Élcio Paraíso/Belotur e Reprodução/Arquivo pessoal

Ícones da folia em BH celebram crescimento do Carnaval

Nara Torres, do bloco feminista Sagrada Profana, vê com bons olhos o crescimento da folia.

“Acho maravilhoso. Nosso carnaval é de rua, luta e amor. É pautado na diversidade e aberto para todos os tipos de pessoas. É muito bom sentir que o público está aderindo e que estamos construindo juntes um Carnaval popular”, pondera.

Para Nayara Garófalo, do bloco afro Angola Janga, o crescimento é um desafio para todos: “sociedade, blocos e poder público”.

“É um processo reconstruir essa cultura de Carnaval na cidade. As instâncias de governo estão aprendendo a fazer um Carnaval que entenda o protagonismo da população neste contexto. Os blocos de rua estão aprendendo a fazer Carnaval, e os mais sábios estão retornando aos mais velhos para aprender (blocos antigos, escolas de samba e blocos caricatos). É também necessário, agora, construir essa cultura com o folião”, diz.

Com 650 mil foliões, Baianas Ozadas, o maior bloco de BH, lota a praça Sete – Foto: Alexandre Guzanshe/Belotur/Divulgação

O cantor Veronez, que entre outros lugares foi vocalista do bloco Corte Devassa e diretor artístico do desfile do bloco Havayanas Usadas, afirma que o poder público precisa aprender a conversar com o Carnaval.

O músico teve seu show no Palco Guaicurus interrompido de forma arbitrária pela Polícia Militar mineira.

“Esse Carnaval nasceu da população e não do poder público, da instituição. Popularmente o Carnaval está a um passo à frente das instituições. Para algumas delas, parece que não faz sentido essa história toda, que é o caso da Polícia Militar. E o Estado precisa ter esse diálogo, porque o Carnaval não vai parar, ele veio das pessoas e tem uma força imensa. As instituições têm de aprender a conversar com as pessoas”, pontua.

Ausência sentida: internada, a rainha do Carnaval de rua de BH Cristal Lopez não pôde desfilar no Carnaval de 2018 – Foto: Leonardo Lima/Clix/Divulgação

Ausência da rainha Cristal Lopez, do bloco Alcova Libertina e do cantor Gustavito

Com tanta gente na rua, ausências foram sentidas.

A primeira foi a da rainha do Carnaval de BH Cristal Lopez, mulher negra trans e periférica eleita pelo povo para comandar a folia a folia de rua. Ela passou mal às vésperas da festa e se recupera internada no Hospital Municipal Odilon Behrens, em BH.

Outra ausência foi a do bloco pioneiro Alcova Libertina, um dos mais queridos de BH e dono do hit “Chuta a família mineira”, que este ano resolveu não sair: “As estrelas se alinharam e os astros nos aconselharam a nos recolher para expandir”, comunicou o Alcova às vésperas da folia.

O cantor Gustavito, um dos grandes astros da folia na capital mineira nos blocos Então Brilha e Pena de Pavão de Krishna, também não desfilou este ano, após ter sofrido uma denúncia de um suposto assédio de uma mulher, feito de forma anônima pelo Facebook.

O músico afirmou em rede social ser inocente e disse que provará a verdade na Justiça. Enquanto corre o processo judicia — no qual processa a autora da suposta denúncia e também quem espalhou a história pela internet —, em decisão acordada mutuamente com os blocos, Gustavito deixou os desfiles.

Mesmo assim, os blocos Então Brilha e Pena de Pavão de Krishna mantiveram em seus desfiles as músicas compostas por Gustavito, que já são identidade sonora dos mesmos.

Anitta sensualiza na folia do Mirante BH – Foto: Marcus Desimoni/UOL

Festa fechadas com estrelas da música no Mirante BH

Mesmo com a extensa programação gratuita na rua, além de desfile de blocos caricatos e escolas de samba, muitas pessoas optaram também por festividades fechadas, o chamado “Carnaval Indoor”.

Entre outras festas, este tipo de folia contou com o Mirante Beagá, Circuito Fly de música eletrônica, Bloco da Pan, Baile da Land, Carnaval do Mercado e Magic Island.

Atrações de renome nacional e internacional passaram por essas festas.

Público lota carnaval fechado do Mirante BH no show de Wesley Safadão – Foto: Marcus Desimoni/UOL

Gente como Anitta, Pabllo Vittar, Wesley Safadão e Dennis DJ passaram pela capital mineira, além de Durval Lelys, Bell Marques, Matheus e Kauan, Banda Eva, o funkeiro MC Livinho, Ludmilla e Thiaguinho.

O valor dos ingressos nestas celebrações variou bastante, indo geralmente de R$ 100 a R$ 500.

Transporte público insuficiente para a multidão de foliões

O metrô de BH não deu conta do grande número de passageiros, assim também como os ônibus, sobretudo os que fazem as linhas troncais do Move, ligando o centro às regionais mais distantes.

Durante toda a folia, o UOL presenciou passageiros não conseguirem embarcar em ônibus e metrô completamente lotados de foliões.

Ana Cecília Assis no bloco Chama o Síndico – Foto: Cacá Lanari/Belotur/Divulgação

O metrô de BH diminuiu o intervalo entre as viagens e ampliou o horário de funcionamento, que normalmente vai até 23h, para as 2h da manhã.

Mesmo assim não deu conta do fluxo enorme de passsageiros. Muitas linhas de ônibus operaram com horário reduzido durante a folia, em vez de ampliados.

Viaduto Santa Tereza, cartão postal de BH, é tomado por foliões – Foto: Nereu Jr/UOL

Reclamação de violência policial

Ao fim da festa, os blocos de Belo Horizonte emitiram uma carta pública na qual acusam a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) de repressão e dispersão violenta de foliões, sobretudo em bairros mais pobres.

Houve confusão com balas de borracha, cassetete, spray de pimenta ao fim do desfile de blocos e de shows durante o Carnaval belo-horizontino. A reportagem do UOL também presenciou roubo de celulares e bandidos agredindo foliões no centro da capital mineira.

A PM afirma que é elogiada pela população e diz que conseguiu reduzir neste ano os índices de violência na capital mineira, citando que os crimes caíram 40% nesta folia em comparação com a do ano passado e que o roubo de celulares diminuiu em 30%.

Integrante da bateria do Então Brilha – Foto: Nereu Jr/UOL

Polêmica das cordas

Outra polêmica este ano foi o fato de blocos que antes desfilavam abertos surgirem com cordas, separando os integrantes do bloco e a bateria dos foliões.

Isso foi muito criticado por muitas pessoas e o UOL presenciou confusões nos blocos que utilizaram cordas, com foliões acusando os blocos de atentarem contra o carnaval democrático de BH.

Além de cordas, o UOL também notou abadás em alguns blocos, mas ainda não comercializados como os de Salvador — que, por sua vez, apresentou o movimento de deixar as cordas neste Carnaval.

Desfile do bloco Havayanas Usadas- Foto: Nereu Jr/UOL

Histórico de folia unida à luta social e política

Após vários anos um marasmo na folia, o Carnaval de BH ganhou força a partir de 2009, quando o então prefeito Marcio Lacerda fez decretos que proibiram a ocupação do espaço público.

Isso gerou reação do povo, que resolveu ocupar as ruas e praças, de forma espontânea e democrática, o que gerou um verdadeiro recomeço do Carnaval na capital mineira.

Arcos do Viaduto de Santa Tereza com a folia no bairro Floresta ao fundo, durante o Carnaval 2018 – Foto: Nereu Jr/Divulgação

Um marco é a Praia da Estação, quando um grupo, formado por jovens, estudantes, artistas e movimentos sociais, resolveu se banhar na fonte da praça da Estação, em afronta às proibições.

Logo, começaram a pipocar blocos pela cidade. Muitos foram no começo duramente reprimidos, com direito à bomba de gás lançadas pela PM. Só quando a festa se tornou grande e potencialmente lucrativa foi que o poder público a abraçou junto de patrocinadores, como vem acontecendo nos últimos anos.

A fonte da praça da Estação, símbolo da retomada do Carnaval belo-horizontino, ficou desligada durante o Carnaval 2018, o que foi alvo de reclamação dos foliões. Nela, neste sábado (17), se realiza o Encontro dos Blocos, momento mais aguardado pelos foliões após o fim do Carnaval, com o encontro de todas as baterias.

Bateu saudade? 30 fotos do Carnaval de BH por Nereu Jr

Bloco Corte Devassa desfila na rua Sapucaí, em BH – Foto: Nereu Jr/UOL

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