Racismo contra Titi comprova fala de Taís Araújo

A pequena Titi e Taís Araújo: dinheiro e fama não protegem negros do racismo – Fotos: Reprodução

Por Miguel Arcanjo Prado

Há poucas semanas, neste novembro que deveria ser de Consciência Negra para todos, a atriz Taís Araújo foi vítima de deboche, inclusive de gente que comanda a comunicação pública.

Só por ter dito em uma palestra que seu filho sofre racismo por ser negro. E que a cor de seu filho faz pessoas mudarem de calçada nas ruas.

Taís é mãe de João Vicente, de seis anos, e de Maria Antônia, de dois anos e sete meses, frutos de seu casamento com o também ator Lázaro Ramos.

Tirando as frases proferidas por Taís do contexto original, muitos tentaram ridicularizar a atriz, que até meme virou. Essa gente dizia que seu filho, por ser filho de negros ricos e famosos, não seria alvo de racismo.

Tal argumentação tentou criar a falsa ideia de que a fama e o dinheiro dos pais garantiriam ao menino ter se livrado do ódio racista. Como se a criança andasse por aí com um cartaz na testa dizendo de quem é filho ou se a fama fosse capaz de estabelecer uma camada protetora instantânea contra o racismo.

Dinheiro e fama não protegem negros do racismo.

Ataque racista a Titi comprova o que disse Taís Araújo

O que aconteceu neste fim de semana com Titi, a filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, atesta o que disse Taís em sua palestra.

O ódio racista é imune à fama e ao dinheiro. A própria Taís já o sentiu na pele, assim como outros negros famosos, como a jornalista Maju Coutinho ou a judoca Rafaela Silva, para ficar em apenas dois notórios exemplos públicos.

Mesmo sendo filha de um casal famoso, a menina Titi, de apenas quatro anos, é alvo de ódio racista de forma recorrente. A fama ou o dinheiro de seus pais não são capazes de protegê-la das ofensas racistas, como as que vimos atônitos neste fim de semana.

Por que o ódio racial de quem é racista só aumenta ao ver o negro em posição de privilégio. É como se na cabeça dos criminosos racistas, negros devessem sempre ser subalternos. A ascensão do negro incomoda. E muito.

Titi, junto a seus pais, Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso: menina de quatro anos é vítima do ódio racista – Foto: Divulgação

A autonominada socialite Dayane Alcântara Couto de Andrade, que diz se chamar Day McCarthy, é a prova disso, com seu nauseabundo vídeo com ofensas racistas à pequena Titi.

Como bem observou o youtuber Spartakus Santiago, ela é motivada pelo ódio racial ao ver uma menina negra receber elogios. Day se indigna “por ver uma menina preta ter algo que ela não tem”.

“Ela se sente indignada porque o preto teve algum privilégio. Porque o preto teve um elogio. E é esse o maior problema do racismo no Brasil”, diz.

Spartakus prossegue, em fala didática: “Esse pensamento que está neste vídeo é a base do racismo velado do nosso país. Porque é essa visão de que o negro é implicitamente inferior. É aquela visão de que se o preto tiver lá em cima, se ele tiver alguma coisa boa, alguma vitória, essa vitória tem que ser questionada”.

“O que a incomodou foi ver uma preta recebendo elogio e ela, não. O racismo velado do dia a dia se baseia nessa sensação. De que o lugar natural do preto é embaixo, é inferior. É esse pensamento que faz, por exemplo, que toda vez que a Taís Araújo abre a boca para falar de alguma coisa, as pessoas a questionem”, afirma.

Taís Araújo durante palestra no TEDxSãoPaulo: sua fala foi alvo de deboche; quem a ironizou deveria pedir desculpas à atriz – Foto: Reprodução

O que aconteceu a Titi só corrobora a fala de Taís na palestra que deu no TEDxSãoPaulo. Recapitulemos parte da fala da atriz:

“Meu filho é um menino negro. E liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir se ele andar pelas ruas descalço, sem camisa, sujo, saindo da aula de futebol. Ele corre o risco de ser apontado como um infrator. Mesmo com seis anos de idade.

Quando ele se tornar adolescente, ele não vai ter a liberdade de ir para sua escola, pegar uma condução, um ônibus, com sua mochila, com seu boné, seu capuz, com seu andar adolescente, sem correr o risco de levar uma investida violenta da polícia. Ao ser confundido com um bandido.

No Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros. A vida dele só não vai ser mais difícil que a da minha filha. […] Quando penso o risco que ela corre simplesmente por ter nascido mulher e negra, eu fico completamente apavorada.”

Taís está coberta de razão. Quem a criticou deveria, no mínimo, refletir sobre o que disse e, se tiver alguma grandeza de espírito, pedir desculpas.

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