Crítica: “Argentina”, de Saura, mostra que vizinho é bem mais que tango

Filme “Argentina”, de Carlos Saura, descortina o folclore argentino ao mundo – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Grande parte dos brasileiros, infelizmente, desconhece o que é de fato a Argentina, nosso vizinho ao sul. Muitos preferem ficar com discursos vazios de rivalidade e estereótipos que não condizem com o real. Assim, ainda hoje, há por aqui quem reduza o país hermano ao futebol de Maradona e Messi, e, claro, ao tango.

A Argentina é muito mais que isso. Sobretudo, quando o tema é sua música e sua dança, repletas de diversidade. O filme “Argentina”, de Carlos Saura, experiente cineasta espanhol hoje com 84 anos e que fez clássicos do cinema musical como “Carmen” (1983), “Tango” (1998) e “Flamenco, Flamenco” (2010), mostra isso muito bem.

Durante uma hora e meia, o longa investe na potência do folclore argentino, música e dança produzidos no interior do país, sobretudo ao norte.

Vêm de províncias como Salta, Tucumán e Jujuy algumas das canções e ritmos que embalam músicos e bailarinos em um galpão de La Boca, Buenos Aires, onde o longa foi rodado com simplicidade e sofisticação, fazendo surgir na telona rostos de filhos da terra argentina, distintos ao estereótipo étnico europeu com o qual muitos brasileiros identificam nossos vizinhos.

O nome original do filme é “Zonda”, o vento quente que sopra na região do Cuyo, no norte argentino, fomentando, de alguma maneira, a musicalidade e o bailado que Saura descortina ao mundo neste filme repleto de diálogo de ritmos como zamba, chamame, chacarita, copla e chacarera.

Dança tem presença marcante em “Argentina”, filme de Carlos Saura – Foto: Divulgação

Dois ícones do folclore argentino, Mercedes Sosa, conhecida como La Negra, e Atauhalpa Yupanqui ganham homenagens preciosas.

Mercedes surge projetada para niños estudiantes, vestidos de guarda-pó branco, ou palomitas blancas, como são chamados, cantando “Todo Cambia”. Em uma das cenas mais lindas do filme, a canção envolve as crianças, em uma imagem que é um forte diálogo geracional, um legado de fé e de luta.

Já Yupanqui aparece também projetado, enquanto canta sua inflamada – e politizada – música de protesto “Preguntitas sobre Dios”, uma canção de potência desconcertante.

Representante atual do folclore argentino, Liliana Herrero mostra estar à altura destes dois antepassados com sua interpretação visceral de “Luna Tucumana”.

Em “Argentina”, Saura faz surgir a música como grande protagonista, tendo a dança, em releituras contemporâneas, como importante coadjuvante no sentido de expor a riqueza do folclore argentino. Riqueza esta desconhecida no Brasil, ainda ignorante entre Maradona, tango e empanadas quando o assunto é o país vizinho. Assistir ao filme é um convite para deixar este lugar-comum.

Filme: “Argentina”, de Carlos Saura (Zonda, no original) * * * *
Avaliação: Muito Bom

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