Mulher obcecada pela morte é tema de peça grátis A Falecida, em SP

Eloisa Vitz e Daniel Gonzales vivem Zulmira e Tuninho em “A Falecida” – Foto: Claudinei Nakasone

Por Miguel Arcanjo Prado

Zulmira, a mulher obcecada pela morte já interpretada no cinema por Fernanda Montenegro em 1965 dirigida por Leon Hirszman, volta a estar presente no teatro paulistano na remontagem do Grupo Gattu do espetáculo gratuito “A Falecida”, de Nelson Rodrigues.

A obra dirigida por Eloisa Vitz celebra os 17 anos do grupo que tem sede no bairro Santana, no Teatro do Sol, na zona norte de São Paulo, onde faz importante papel de formação de plateia.

No elenco estão Eloisa Vitz, Miriam Jardim, Daniel Gonzales, Laura Vidotto, Mariana Fidelis, Lilian Peres, Rodrigo Vicenzo, Jailton Nunes e Darson Ribeiro.

A temporada vai até 25 de junho, com sessões aos sábados, 21h, e domingo, 19h. A entrada é franca, com ingressos distribuídos uma hora antes de a sessão começar.

O Teatro do Sol fica na rua Damiana da Cunha, 413, em Santana, tel. 11 3791-2023.

Eloisa Vitz, que dá vida à protagonista, conversou com o Blog do Arcanjo do UOL sobre a montagem e a paixão de sua companhia pela obra de Nelson Rodrigues.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Por que escolheram este texto do Nelson Rodrigues?
Eloisa Vitz – “A Falecida” é um texto intenso, moderno, uma farsa trágica, e a obra do Nelson Rodrigues, para mim, é atemporal. Já montei quatro textos do Nelson. E nunca sei previamente o que montar. Quando estávamos decidindo a próxima peça, lemos “A Falecida”  e fomos arrebatados. Tinha um elenco que cabia no texto e, ao lermos, todos juntos pela primeira vez,  rimos e choramos. Então ficou claro que este era o texto.

Miguel Arcanjo Prado – A Falecida mexe com você?
Eloisa Vitz – O texto mexe muito comigo.  É uma obra inquietante, perturbadora, e ao mesmo tempo engraçada e irreverente. E não é nada politicamente correta. Nelson é assim. Dificílimo e delicioso de ser montado.

Miguel Arcanjo Prado – Quanto tempo duraram os ensaios?
Eloisa Vitz – O Grupo Gattu tem como objetivo a excelência artística, para isso ensaiamos todos os dias em média cinco horas por dia. Durante 10 a 12 meses. Para entregar para plateia nosso melhor. Amar é entregar o melhor e nós amamos muito o fazer teatral.

Eloisa Vitz e Darson Ribeiro em cena de “A Falecida” – Foto: Claudinei Nakasone

Miguel Arcanjo Prado – Qual a vantagem de poder fazer um espetáculo gratuito? Como isso é possível?
Eloisa Vitz – Esta montagem só foi possível porque ganhamos o Prêmio Zé Renato de Teatro em sua quarta edição pela Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo. O que nos deu a maior alegria. Nós do Grupo Gattu temos como meta além da excelência artística, a acessibilidade total e a formação de plateia. A vantagem de fazer um espetáculo gratuito é permitir que todos assistam ao espetáculo. Quando conseguimos dinheiro público para montar um espetáculo não cobramos ingressos, acredito que o contribuinte já pagou pelo espetáculo. A cidade de São Paulo, por meio do Prêmio Zé Renato, nos deu um presente e agora retribuímos este presente com um espetáculo feito com o nosso melhor. Todos são bem vindos e desejados. Todos.

Miguel Arcanjo Prado – O filme com a Fernanda Montenegro é um clássico. Ele foi referência?
Eloisa Vitz – Sim, é um clássico! E não foi uma referência. Gostamos de pesquisar a nossa maneira de contar a estória. O Heron Medeiros, que é nosso cenógrafo e figurinista, nos trouxe um artista plástico o Giorgio Morandi, quando estávamos pesquisando nosso norte estético, e nos encantamos imediatamente pela suas telas de natureza morta e suas cores embaçadas. Então, ele foi uma inspiração nas formas. A trilha sonora foi composta por mim e utilizei tangos e eletrotangos para compor a trilha, explicitando as paixões. E a Luz de Newton Saiki conferiu ao espetáculo seu teor de realismo fantástico, agregando poesia.

Miguel Arcanjo Prado – Por que o Grupo Gattu gosta tanto de Nelson Rodrigues?
Eloisa Vitz – Para nós do Grupo Gattu Nelson é uma paixão. Ele é absolutamente atemporal, porque retrata a alma humana. A obra dele não fica datada. Continua arrebatadora, intensa, cruel, lírica, trasbordante.  Ele consegue chocar a plateia, encantá-la.  A força dos seus textos é avassaladora. Ou você ama ou odeia. Nós amamos. Montar Nelson Rodrigues é escolher o risco. Estamos no nosso quinto, nosso desejo é montar as 17 peças dele!

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